
Sobre a democracia, as pessoas e a rua (por Felipe Sampaio)
Quanta vontade de preservar as conquistas. Quanto desejo de melhorar ainda mais. Quanta coragem barrar o retrocesso e a barbárie

A tecnologia ainda não mudou um aspecto central das mobilizações sociais: elas são compostas de pessoas. E quanto mais pessoas, melhor. Significa tirar as pessoas da acomodação ou da ignorância e colocá-las na direção das mudanças que elas têm razões para valorizar. A maior parte da vida acontece da porta de casa para fora, e é lá também que as pessoas podem fazer a diferença na conquista dos interesses coletivos em larga escala.
O Exército do Lula bem que deu um “se ligue”, no segundo turno das eleições, naquele eleitor que andava meio sem saco para a política e para votar. Mas, na reta final do primeiro turno a coisa já vinha mudando. O clima esquentou em torno dos dois principais concorrentes (uma verdadeira guerra de rejeições). As campanhas levaram milhares de simpatizantes para as ruas às vésperas da primeira rodada de votação. Os grupos de whatsapp se multiplicaram em torno de amigos, temas, partidos, comunidades, torcidas de futebol, universidades etc. A sociedade ligou seus motores para fazer a diferença no segundo turno.
E foi o que aconteceu. A estudantada do campo progressista largou na frente ocupando as universidades e as ruas. Centenas de milhares de jovens, trabalhadores e artistas em vigília permanente nos espaços públicos, praças e calçadas. Até os eleitores da direita também foram para as ruas, igrejas, parques etc. A democracia mostra sua melhor versão quando o povo sai de casa, dos escritórios, das fábricas e das salas de aula para se juntar, encontrar-se, para festejar suas visões de mundo.
É bem verdade que as redes digitais se mostraram uma ferramenta importante de comunicação e engajamento, tendo alcançado até os que se ausentaram no primeiro turno. Os idosos e os enfastiados com os políticos tomaram um gás e diminuíram a abstenção. Mas, as grandes estrelas dessas eleições foram mesmo as ruas, fervilhando de gente como há muito tempo não se via. Quanto vigor social. Quanta vontade de preservar as conquistas. Quanto desejo de melhorar ainda mais. Quanta coragem barrar o retrocesso e a barbárie. Milhões de pessoas juntas, não apenas conectadas, mas, novamente, integradas.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesNos EUA aconteceu o mesmo. A democracia, as pessoas e as ruas se reencontraram para dar um basta ao absurdo, à guerra, ao preconceito e à sandice. Milhões de pessoas lá, nas ruas, como aqui. Para se expressarem. Para religarem os motores da liberdade, do direito, do encontro. É para isso que serve encontrar-se. Para compartilhar vontades e receios, dar limites e direções. Não é necessariamente para detalhar planos e decisões. O encontro é a arte… do encontro. Por isso, os governos democráticos têm responsabilidade incontornável de não deixarem (outra vez) arrefecerem os ânimos; de não inibirem a opinião achando-se os escolhidos do interesse popular; de não ‘estatizarem’ as organizações e lideranças sociais. A sociedade civil deve existir e funcionar fora do Estado, além do Estado (às vezes com, e até mesmo contra, o Estado). Mas, nunca, dentro do Estado. Mesmo (ou principalmente) quando o governo for do campo progressista. Sob pena de vivenciarmos novamente os apertos desnecessários que passamos frente a forças obscuras em 2016, 2018, 2022 e 2026.
Vale lembrarmos Hannah Arendt, a pensadora do recomeço: “O diálogo é a expressão poética de um problema. O que se pode fazer é encorajar uma atmosfera na qual as coisas sejam discutidas.” (Pensar sem corrimão, 1953-1975). Afinal, governos existem para ouvir.
Felipe Sampaio: Chefiou as assessorias do Ministro da Defesa e do Ministro da Segurança Pública; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; ex-secretário executivo de Segurança Urbana do Recife; cofundador do Centro Soberania e Clima; foi diretor de programas do Ministério do Empreendedorismo; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; sócio da Terra Consultoria.

