
Segurança pública é um bom negócio racista (por Felipe Sampaio)
O fenômeno da criminalidade brasileira é político-racial. Um modelo socioeconômico. Tem origem colonial.

O Anuário de Segurança Pública 2026 (FBSP) confirma o caráter racista da violência no Brasil, com origem econômica histórica. Foram 36 mil brasileiros negros assinados em 2025 (80% do total dos homicídios). Pior ainda nas mortes causadas por intervenção policial (82% dos mortos eram negros). Não é um número casual. Reduzir a análise do problema da segurança pública no Brasil a casos de polícia é varrer o lixo para baixo do tapete. O fenômeno da criminalidade brasileira é político-racial. Um modelo socioeconômico. Tem origem colonial. Em 1500 não havia por aqui pessoas brancas e negras, tampouco agropecuária e mineração em larga escala. Havia uma biodiversidade exuberante, sob a qual repousavam terras potencialmente agricultáveis com dimensões continentais, habitadas por milhões de indígenas (centenas de etnias que falavam dezenas de idiomas).
A violência que fustiga o país é remanescente do modo de produção que motivou a vinda dos mercantilistas portugueses, assim como espanhóis, holandeses e franceses que invadiram esses territórios que atualmente constituem o Brasil. A escravização de povos negros africanos pelos europeus era o fator de viabilização dos novos negócios de larga escala daquela época e estava na base do modelo colonial. Os europeus procuravam onde instalar sua produção baseada em escravidão. Nesse sentido, o Brasil foi uma invenção econômica-escravista, cuja feição racista perdura até hoje. No século XVI, o que aconteceu aqui foi a implantação em escala empresarial de dois experimentos macabros bem sucedidos realizados no século anterior. Um deles foi o uso de pessoas negras para trabalharem como escravos em lavouras e minerações na própria África, Caribe e em ilhas atlânticas. O outro laboratório exitoso, também no século XIV, foi a própria comercialização em si desses negros em mercados da África Ocidental, Moçambique, Península Ibérica e América Central.
Portanto, não houve descoberta incidental do Brasil pela esquadra de Cabral. Foi jogo combinado. Os colonizadores europeus haviam transformado o trabalho escravo no negócio mais lucrativo da história da humanidade. Um modelo econômico desumano em escala mundial. O que aconteceu em 22 de abril de 1500 foi a formalização da posse pelas cortes de Lisboa de um território ideal para a instalação de empresas minerais, florestais e agropecuárias baseadas no uso da mão-de-obra negra escrava e na rapina de recursos naturais. A tentativa inicial foi a escravização dos nativos, mas as condições objetivas para sua escravização produtiva – no seu próprio local de origem e captura – não se mostraram lucrativas e funcionais. Por 400 anos o Brasil foi erguido e consolidado em cima da exploração violenta de uma população majoritariamente negra e escravizada.
Há apenas pouco mais de cem anos a escravidão foi oficialmente abolida. Ao invés de se proceder uma inclusão social e econômica desse estrato da população brasileira, na esteira da modernização capitalista, o que se viu foi a cristalização de uma desigualdade social manifestada nas diversas dimensões da cidadania: renda, riqueza, saúde, educação, segurança, bens públicos, moradia, urbanismo, entre outros direitos democráticos sonegados. Uma desigualdade com motivação original econômica e racista em um país com população atual de mais de 120 milhões de pessoas negras (cerca de 56% do total). Mudar essa realidade é responsabilidade de todos, a começar pelo andar superior do PIB e da política.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesFelipe Sampaio: sócio da Terra Consultoria e Inovação; cofundador do Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; foi diretor de programa no Ministério do Empreendedorismo; ex-subsecretário de Segurança Urbana do Recife; chefiou a assessoria do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça.

