
Pontos e "is". Lutar como bestas ferozes (por Pedro Costa)
Da amargura do desastre que já aconteceu, levanto a esperança que pode trazer a eleição de Lula no segundo turno

Começo com constatações superficiais: tanto Lula quanto o traidor-do-Brasil tiveram pouco mais de um terço dos votos. Outro terço deixou de votar ou votou nos candidatos nanicos: 48 milhões de pessoas. A diferença entre os dois é de 2,2 milhões de votos, 1,4% dos eleitores. Isso equivale aos eleitores de Brasília; é bem menos do que os votos de Cury (3,4M), Renan Santos (2,7M) ou Caiado (2,6M); 2/3 dos eleitores da Baixada Fluminense, pouco mais que os eleitores do ABC. Menos que a margem de erro das pesquisas. Menos, provavelmente — as estatísticas do comká são uma porcaria — que os eleitores que não encontraram a seção eleitoral.
Se criou um dogma de que não há virada no 2º turno. É uma grande besteira. Não houve nas sete vezes que tivemos 2º turno na eleição presidencial, não dá para se chegar a conclusão estatística. E houve muitas viradas nas eleições para prefeito e governador nestes quase quarenta anos.
É comum se definir uma pequena diferença como uma surra. Nós levamos uma surra nos votos para o Congresso, que será o desmentido do que todos achávamos — pior impossível; na velha frase de José Bonifácio, no Brasil o círculo do real é maior do que o do possível. Mas não levamos uma surra na votação do primeiro turno. Perdemos, sim, mas por pouco, e o resultado é reversível.
Tem que ser, pois é absurdo que a democracia seja destruída pelo voto dos eleitores. Mas acontece. Nos Estados Unidos, outro dia, o Trump ganhou da Kamala Harris por 1,5% dos votos — é verdade que lá o resultado é por colégio eleitoral — e saiu dizendo que era a maior vitória de todos os tempos. Lá, como aqui, se sabia o que essa vitória apertada significava: o cara dizia que seria um ditador desde o primeiro dia, e no primeiro dia anistiou os criminosos que haviam atacado o Congresso, decretou que a Constituição de 235 anos não valia; e depois matou dezenas de milhares de pessoas, redefiniu o significado de crueldade…
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesEu escrevi — que tolo pensar que alguém podia levar em conta — que tínhamos tido muito pouco cuidado com o golpe e os golpistas. Lembrei que aqui ainda havia tempo de se definir, como na constituição americana — lá, outra lição, o tribunal constitucional rasgou a sua constituição, de modo que temos que pensar no risco de um tribunal de outros alitos, thomas, terrivelmentes e conkás — a inelegibilidade dos golpistas (§ 9º do art. 14 da CF). Por não o fazer, pagamos caro no Império, na República Velha, no interregno getulista, na República de 45 e até no regime militar de 64. Muitas vezes, demais para sermos tolos e deixar que acontecesse novamente.
Deixamos. Só condenamos pequeníssima parcela dos dezenas de milhares que arrebentaram os palácios dos Três Poderes e dos seus promotores. Deixamos soltos os parlamentares que incentivaram o golpe. Os jornalistas que promoveram o golpe. Muitos militares que apoiaram o golpe. Mais tarde, os que deram o golpe de 5 de agosto de 2025 passaram em brancas nuvens: o máximo foi o conselho de ética (?) ter dado a dois um carão com pedido de desculpas. Sobretudo deixamos os dois filhos mais velhos, evidentemente cúmplices da empreitada, promoverem todo tipo de porcaria até o chefe de sua organização criminosa definir que um fosse conspirar em Dallas e que o outro fosse candidato a Presidente da República, representando-o na campanha e no cargo.
Avisei também para o risco que o Brasil corria com os dois ministros indicados por Bolsonaro. O terrivelmente Mendonça foi indicado depois de ter, sob as ordens do criminoso chefe, intervindo na Polícia Federal para que não investigasse a “família miliciana” — designação que tornou oficial em decisão judicial. O conká já tinha a péssima reputação de corrupto que se confirma todo dia. Mas o que os desqualificava era o estado de ilegalidade em que estava o golpista quando os designou. Devia ser aplicado o princípio do fruto da árvore envenenada. Já tivemos ministros dos tribunais superiores bons e maus; mas esses são ilegítimos. Não é o Senado ter passado a mão na cabeça deles que os faz legítimos. E ter entregado o Tribunal Eleitoral em suas mãos foi um processo automático, mas que beira a demência. Decisão discutível já tivemos muitas; decisão delirante conhecemos agora. O KKK tem a cara de pau de dizer que soltará o chefe da família miliciana depois do segundo turno para não interferir com o voto, acuda-me minha Nossa Senhora da Conceição Aparecida!
Mas não adianta chorar sobre o leite derramado.
Lula não fez uma má campanha. Ele mesmo precisa se convencer disto. A mudança que a ser feita na campanha precisa levar em conta que a campanha do 1º turno deu 90% certo. Não vamos jogar fora o que se ganhou. Ótimo mostrar a cara no instagram. Mas ele teve um extraordinário governo considerando o legado bolsonarista. Saímos do fundo do poço para a planície; se seu futuro governo tiver o mesmo êxito, planaremos nas alturas.
O Brasil tem um candidato que é um vitorioso, com diploma de estadista e de democrata. Um líder de verdade. Lula tem todo o direito de sacar a fundo perdido de nossa vontade, já nos deu muito. Baste ter acabado a fome, ter tirado tantos da pobreza, ter feito vários milagres econômicos, ter restaurado nossa política externa. Ele faz e fará a parte dele.
É preciso que cada um de nós faça a sua parte para não termos que, amanhã, fazer os NoKings Days, as peregrinações para fechar campos de concentração, enfrentar com a vida uma polícia mascarada — eu sei que milhões de brasileiros fazem isso todo dia, me desculpem por não conseguir fazer mais que dar estes gritos de aflição —, ver o racismo, a misoginia, a discriminação de gênero se tornarem ostensivos e oficiais. É horrível misturar religião e política, mas justamente por isso temos todos, os católicos, os de culto afro-brasileiro, até os evangélicos, de evitar que isso aconteça sob nossos olhos: basta de bispos endinheirados.
Vamos à luta. Os jovens já estão nas ruas, são maravilhosos. Milhões de pessoas se organizam para fazer o que podem. Cada um fazer o que pode, cada um fazer a sua parte é o compromisso que todos temos que assumir.
Pedro Costa
Arquiteto e escritor.

