
O sufoco de Lula (por Hubert Alquéres)
Bons números da economia não necessariamente traduzem aquilo que o cidadão sente no cotidiano

O empate entre Lula e Flávio Bolsonaro na pesquisa Genial Quaest mostra uma mudança do quadro político, com o favoritismo de Lula cada vez mais ameaçado. A pesquisa BTG/Nexus confirma a alteração do cenário e é a primeira a apontar uma vantagem de Flávio no segundo turno, de um ponto.
É um quadro completamente diferente do início de agosto, quando a candidatura de Flávio parecia ter perdido a expectativa de poder, a ponto de ter enfrentado enormes dificuldades para encontrar um vice-presidente para compor sua chapa. Esnobado pelos partidos do Centrão, que lhe deram as costas, o candidato se via baleado por uma rixa com Michelle Bolsonaro, que lhe fazia perder tempo na campanha e apoio em parte dos evangélicos.
Em contraposição, tudo era só sorrisos para a candidatura de Lula. A expectativa de poder do incumbente atraiu apoio de lideranças do Centrão, ainda que formalmente os partidos desse campo tenham optado pela neutralidade. Era tudo que Lula queria, pois a neutralidade do Centrão significava, na prática, um não à candidatura do clã dos Bolsonaros. A joia da coroa do arrastão pró-Lula veio com o apoio à sua candidatura pelo presidente da Câmara e pelo presidente do Senado, com quem selou a paz, em um movimento articulado e sacramentado em um jantar na residência de Alexandre de Moraes.
Quanto mais se aproximava o início da campanha, mais este céu de brigadeiro ia se desmanchando. Vieram à tona as relações de seu filho Lulinha e de seu então chefe de gabinete, Marcola, com a lobista Roberta Luchsinger. A proximidade de Lula com o ministro Alexandre de Moraes também passou a cobrar seu preço quando vieram à tona as mensagens de Vorcaro com o ministro. Quanto mais o presidente age para preservar Moraes, mais aproxima de si as repercussões do escândalo Master.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesEstes fatos trouxeram de volta a questão da corrupção para a agenda eleitoral. Segundo a mais recente pesquisa Quaest, este é o segundo tema que mais preocupa os brasileiros, atrás apenas da segurança. Como há um passivo do PT em escândalos pretéritos, qualquer novo caso reacende as desconfianças do eleitor quanto à conduta ética de governos do partido. Esse passivo ajuda a explicar por que, apesar do escândalo “Dark Horse”, a candidatura de Flávio tenha sido menos afetada do que a de Lula, como as pesquisas têm detectado.
Lula tem encontrado enormes dificuldades em atrair novos eleitores, especialmente no segmento que pode decidir a eleição: os indecisos. A estratégia de sua campanha baseava-se na atração desse segmento pela inércia, acreditando que, como aconteceu em 2022, o eleitor indeciso, ao final, votaria nele, dada a rejeição ao bolsonarismo. Só que as pesquisas indicam que a alta rejeição aos dois principais contendores é praticamente a mesma.
Para agravar, o eleitor independente provocou o único fato novo desta eleição, a candidatura de Augusto Cury, já situada na faixa de 8% das intenções de voto. Há um limite para esta onda, em função da calcificação da polarização que tem dividido o país ao meio. Para onde esse eleitorado irá no segundo turno ainda não está esclarecido. Mas é justamente essa disputa que pode decidir a eleição.
Quando se leva em consideração a tendência dos eleitores dos outros candidatos do campo da direita, tem-se uma visão melhor do sufoco que será para o presidente a disputa do segundo turno. Um dado da pesquisa Quaest chama a atenção: do primeiro turno para o segundo turno, a intenção de voto de Lula cresceu cinco pontos, já a de Flávio cresceu 12 pontos. Mais importante do que a fotografia da pesquisa é o que esse movimento sugere: neste momento, Flávio parece ter mais espaço para arrebanhar votos de outros candidatos do que Lula.
É possível reverter essa tendência, mas o arsenal de Lula já não tem muita munição. Apostou fortemente no retorno eleitoral do pacote de bondades de cerca de R$ 200 bilhões para irrigar a economia e melhorar o humor dos brasileiros. Partia da premissa de que isto criaria no eleitorado o sentimento de que sua vida voltou a melhorar. Fica claro agora que essa expectativa não se concretizou na proporção imaginada.
A percepção dos brasileiros é de que sua vida piorou da porta de casa para dentro, nos últimos quatro anos. É aí que está o descompasso que os números da economia não conseguem explicar. Bons números não necessariamente traduzem aquilo que o cidadão sente no cotidiano. O preço da comida, o custo do aluguel, a dificuldade para fechar as contas no fim do mês são mais concretos do que qualquer índice econômico.
Para uma parcela expressiva do eleitorado, a pergunta não é se a economia melhorou, mas se a sua vida melhorou. E aí está uma das dificuldades de Lula. A desaprovação de seu governo chegou a 50%.
Mas a dificuldade não se resume à economia. Há também um cansaço com o lulismo e com seu partido, que estiveram no poder durante a maior parte deste primeiro quarto do século. Depois de tanto tempo no centro da vida política brasileira, Lula já não representa para uma parcela do eleitorado a expectativa de mudança que representou no passado.
O presidente usou a força da incumbência, recompôs sua relação com o Congresso, aproximou-se de lideranças do Centrão e apostou na rejeição ao bolsonarismo para atrair o eleitor de centro. São instrumentos poderosos e que ajudam a explicar por que continua competitivo. O problema é saber de onde virão os votos adicionais de que precisa para ampliar seu eleitorado.
É esse o sufoco de Lula. O presidente precisa conquistar eleitores novos justamente quando boa parte das cartas que tinha para jogar já está sobre a mesa.
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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação

