O que significa Desenvolvimento no século XXI? (por Felipe Sampaio)

Percebe-se uma queda do prestígio do Estado democrático e um esgarçamento do tecido globalizado costurado a partir do final da II Guerra

atualizado

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Mario Tama/Getty Images
assembleia da ONU
1 de 1 assembleia da ONU - Foto: Mario Tama/Getty Images

O maior desafio para os formuladores de políticas públicas daqui para frente passará obrigatoriamente pelo esforço de se encontrar uma definição para o que venha a ser “Desenvolvimento”, adequada às necessidades e expectativas das sociedades na era do boom tecnológico e da desglobalização, notadamente no que diz respeito aos países do chamado Sul Global.

Não precisa ser um observador muito atento, nem especialista profundo, para reconhecer que, lá pelo século XVIII, a revolução industrial, juntamente com a inauguração da democracia moderna, foi um divisor de águas marcante para a conquista de níveis de qualidade de vida e prosperidade humanas inéditos na caminhada da humanidade até então.

Nos campos da infraestrutura, da indústria, transportes, comunicações, medicina, educação e alimentos, a evolução da sofisticação e eficiência dos bens e serviços foi decisiva para o salto de desenvolvimento humano e a redução das privações em todo o planeta, mesmo em algumas daquelas regiões onde ainda persiste acentuado nível de pobreza e insegurança. É bem verdade que os avanços tecnológicos e científicos também alcançaram as máquinas de destruição em larga escala, resultando em matanças colossais desde o século XIX, com seu auge nas guerras dos séculos passado e atual, com o número de vítimas atingindo, nesse período, a casa das centenas de milhões de almas, sem falar dos prejuízos econômicos.

Ao mesmo tempo, a disparada da produção e do consumo acertou em cheio o equilíbrio da natureza, provocando um aquecimento atmosférico – associado às emissões de gases efeito estufa e outras modalidades poluentes – que resultou em mudanças climáticas com dimensões desastrosas para as espécies vivas do planeta, inclusive para nós humanos. De quebra, como nada está tão ruim que não possa piorar, percebe-se uma queda do prestígio do Estado democrático e um esgarçamento do tecido globalizado costurado a partir do final da II Guerra Mundial com o patrocínio econômico, político e militar dos Estados Unidos, e com o suporte e a mediação de organismos multilaterais como a ONU, OMC, OCDE, G7, G20 (e até mesmo a OTAN, em seu campo de propósito).

Nesse modelo econômico ainda predominante, o conceito de desenvolvimento adotado nos quatro cantos da Terra tem considerado dimensões e desafios relacionados com as conquistas de uma vida confortável, com a redução das formas de violência, com saúde física e mental, cultura, convívio, entretenimento, entre outras expressões do direito e da liberdade.

Contudo, o redesenho geopolítico internacional, somado aos impactos crescentes da mudança climática descontrolada, recoloca nas mesas de debate questões como a desigualdade social, o colapso dos sistemas vitais do planeta, as transformações demográficas, o desemprego estrutural tecnológico, a democracia, o acesso e propriedade dos recursos naturais, imigrações, crime organizado, o avanço da Inteligência Artificial, a consolidação da influência política e financeira das big techs e, como sempre, guerras por motivação econômica e religiosa. É exatamente nesse ponto que se dá a necessidade de reflexão sobre o que se entende neste século XXI por Desenvolvimento e quais estratégias estarão aderentes a essa definição atualizada, especialmente no que se refere aos interesses e perspectivas dos países do Sul Global.

 

Felipe Sampaio: Cofundador do Centro Soberania e Clima; atuou em grandes empresas, no terceiro setor e organismos internacionais; foi empreendedor em mineração; dirigiu o sistema de dados e estatísticas do Ministério da Justiça; ex-diretor do Instituto de Estudos de Defesa no Ministério da Defesa; foi subsecretário de Segurança Urbana do Recife.

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