O PT é Centro (por Cristovam Buarque)

O PT é um partido mecânico e analógico, ainda não captou a economia e a sociedade do futuro baseadas no conhecimento na era digital e global

atualizado 19/06/2021 4:14

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Nesta semana, alguns partidos se reuniram com o propósito de encontrar um candidato à presidência para sair da polarização. Mas se fosse para reunir forças de Centro, o PT deveria ser chamado, porque foi de esquerda no tempo em que o futuro estava na industrialização mecânica protegida nacionalmente, o capital não estava no domínio do conhecimento que vem da educação e o equilíbrio ecológico não estava ameaçado.

Para ser de esquerda hoje, é preciso defender modelo de crescimento subordinado ao equilíbrio ecológico. O PT é um partido do aumento do PIB, não defende um novo indicador de progresso. Prova disto são os projetos de grandes represas para gerar energia elétrica, tanto quanto o fascínio pela indústria automobilística e a adoção de subsídios fiscais e financiamentos públicos para setores econômicos antiquados do ponto de vista ecológico, social e tecnológico.

Outra característica de esquerda é a visão de que o vetor do progresso econômico e da justiça social está na máxima qualidade da educação de base de toda população. O PT não assume o propósito de fazer nossa educação de base estar entre as melhores do mundo e com a mesma qualidade para todos. “O filho do pobre em escola com a mesma qualidade da escola do filho do rico” não é um lema do PT.

O PT é um partido mecânico e analógico, ainda não captou a economia e a sociedade do futuro baseadas no conhecimento na era digital e global.

Uma terceira característica da esquerda é não ser negacionista, nem em relação às ciências exatas, nem em relação às ciências econômicas. Apesar de o governo Lula ter tido responsabilidade fiscal durante seus primeiros cinco anos, o PT tem a mesma posição histórica dos governos de direita populista no passado: preferem a ilusão negacionista de usar emissão de moeda e tomar empréstimos do que fazer uma política de equilíbrio fiscal graças à taxação dos ricos e do consumo superfluo. Nega que os déficits públicos financiados por empréstimos ou por emissão de moeda tendem a provocar desequilíbrios na economia e empobrecimento da população, tanto quanto caminhar na beira de um precipício tende a provocar quedas fatais. O PT não é de direita, porque tem prioridades com gastos sociais, mas defende financiá-los com o mesmo estilo da direita populista: pela inflação, pelo endividamento e aumento na taxa de juros, sem tocar nas grandes fortunas, nem promover política fiscal progressiva. Nega também a realidade da globalização e a consequente importância da Confiança, interna e externa,

como fator para o bom desempenho da economia; e que Confiança exige estabilidade monetária, além de educação saúde, desconcentração de renda, condições sanitárias, transporte público eficiente, segurança.

Por estas razões, o PT é um partido de centro e deveria ter sido chamado para a reunião desta semana, porque o propósito não era formular um projeto para o Brasil, apenas unir forças para impedir a continuidade do atual governo que ameaça a democracia, sacrifica a população pobre, destrói o meio ambiente, degrada a imagem do Brasil no exterior. Deveria ter sido chamado também porque Lula é o candidato mais forte, e dificilmente um candidato chega ao segundo turno sem o apoio do PT e dificilmente o PT ganha de Bolsonaro no segundo turno sem os votos dos eleitores dos outros candidatos. Isto aconteceu em 2018, quando muitos preferiram votar nulo, viajar ou se abster.

Por sua força e por sua posição centrista, o PT deveria ter sido convidado. Salvo se aqueles que fizeram a reunião se consideram de direita, onde realmente o PT não se situa.

Cristovam Buarque foi senador, ministro e governador