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O populismo eleitoreiro (por Gaudêncio Torquato)

O candidato oferece soluções instantâneas para problemas estruturais

08/11/2026 10:00
VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
Pessoa e urna - Metrópoles

O populismo é um velho personagem da história política. Muda de roupa, troca de discurso, adapta-se aos tempos, mas conserva sua essência: a promessa de representar diretamente o povo, dispensando intermediários e apresentando o líder como intérprete exclusivo da vontade popular. Quando essa prática se concentra nas campanhas eleitorais, ganha uma feição particular: o populismo eleitoreiro, modalidade que transforma a disputa pelo voto em um espetáculo de emoções, promessas e ilusões.

Não se trata de fenômeno exclusivo da direita ou da esquerda. O populismo atravessa fronteiras ideológicas, instala-se em diferentes regimes e encontra terreno fértil nas sociedades marcadas pela desigualdade, insegurança e descrença nas instituições. Seu combustível é a insatisfação. Sua linguagem é a simplificação. Seu instrumento é a emoção. Seu objetivo imediato é conquistar o poder.

A democracia pressupõe pluralismo, negociação, respeito às diferenças e reconhecimento das instituições. O populismo eleitoreiro prefere dividir o mundo entre bons e maus, amigos e inimigos, povo e elite. O adversário deixa de ser concorrente legítimo para se transformar em ameaça à nação. A eleição deixa de ser uma escolha entre projetos e passa a ser apresentada como batalha pela salvação do país.

O cientista político irlandês Cas Mudde, um dos mais famosos estudiosos contemporâneos do populismo, identifica no fenômeno a oposição entre um povo considerado puro e uma elite apresentada como corrupta. Ernesto Laclau, filósofo e teórico político argentino, um dos mais influentes pensadores do populismo no século XX e início do XXI, destaca a construção política de uma identidade popular capaz de reunir demandas dispersas. Francisco Weffort, um dos mais importantes cientistas políticos brasileiros, ao estudar a nossa experiência, examinou as relações entre liderança carismática, massas populares e estruturas do Estado. São interpretações distintas, mas ajudam a compreender a força de um fenômeno que resiste ao tempo.

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No populismo eleitoreiro, a promessa ocupa o lugar do planejamento. O candidato oferece soluções instantâneas para problemas estruturais. Acena com prosperidade sem explicar os custos, promete segurança sem enfrentar as causas da violência, anuncia justiça social sem demonstrar como financiá-la. A complexidade é sacrificada no altar da popularidade.

A comunicação constitui peça central dessa engrenagem. O discurso é curto, repetitivo, emocional. As palavras procuram atingir mais o coração do que a cabeça. A indignação substitui o argumento. O slogan toma o lugar do programa. A imagem do candidato se sobrepõe à consistência das propostas.

As redes sociais ampliaram extraordinariamente esse mecanismo. Seus algoritmos favorecem conteúdos capazes de provocar reações intensas. A mensagem moderada encontra dificuldade para competir com a acusação explosiva. A mentira emocional pode circular mais depressa que a verdade documentada. E a inteligência artificial acrescenta novas possibilidades de manipulação, com imagens, vozes e acontecimentos fabricados.

Nesse ambiente, a política se converte em espetáculo permanente. O candidato precisa aparecer, provocar, emocionar, polemizar. Sua visibilidade passa a valer mais que sua competência. O número de seguidores transforma-se em credencial política. A popularidade digital, porém, não garante capacidade administrativa nem compromisso democrático.

Há outra característica marcante: a fabricação de inimigos. Para manter sua base mobilizada, o líder necessita apontar responsáveis pelas frustrações coletivas. Podem ser os ricos, os pobres, os políticos tradicionais, os empresários, a imprensa, os tribunais ou supostos conspiradores. O importante é construir uma figura contra a qual se possa dirigir a indignação popular.

O Brasil oferece terreno propício a essa prática. A desigualdade social, o endividamento das famílias, o custo de vida, a precariedade dos serviços públicos e a sensação de insegurança alimentam a procura por soluções imediatas. O eleitor quer respostas para suas necessidades concretas. O populista oferece certezas, mesmo quando não dispõe de respostas viáveis.

É preciso distinguir o popular do populista. Popular é o governante que conquista reconhecimento por suas realizações, capacidade de diálogo e identificação com a sociedade. Populista é aquele que procura transformar essa identificação em instrumento de dependência política, apresentando-se como salvador indispensável. A popularidade pode fortalecer a democracia. O populismo, quando hostiliza os limites institucionais, pode enfraquecê-la.

Também não se deve confundir políticas sociais com populismo. Programas de transferência de renda, investimentos públicos e medidas de proteção aos vulneráveis podem constituir instrumentos legítimos de justiça social. Tornam-se recursos de manipulação quando são apresentados como favores pessoais do governante ou utilizados para estabelecer relações de submissão eleitoral.

Nas campanhas brasileiras, o populismo eleitoreiro encontra expressão na disputa pela apropriação simbólica do povo. Cada campo procura convencer a sociedade de que representa o verdadeiro Brasil. Um reivindica a defesa dos pobres; outro, a proteção da família, da ordem e dos valores tradicionais. Ambos podem recorrer à dramatização dos conflitos e à desqualificação moral dos adversários.

O problema não está na defesa dessas bandeiras, mas na transformação de causas legítimas em instrumentos de exclusão. Nenhum partido possui o monopólio da justiça social, da moralidade, do patriotismo ou da democracia.

A polarização acentua esse quadro. Em lugar de conquistar o eleitor pela qualidade das propostas, campanhas procuram mobilizá-lo pelo medo da vitória adversária. O voto deixa de expressar esperança e passa a funcionar como mecanismo de rejeição. Vota-se menos por alguém e mais contra alguém.

O antídoto não é eliminar a emoção da política. Isso seria impossível. A política envolve sentimentos, identidades, expectativas e sonhos. O desafio consiste em equilibrar emoção e razão, liderança e instituições, promessas e responsabilidades.

Uma democracia madura exige cidadãos capazes de cobrar resultados, examinar propostas e desconfiar de soluções milagrosas. Exige também partidos comprometidos com programas e dirigentes dispostos a reconhecer que governar é mais difícil do que conquistar aplausos.

O populismo eleitoreiro floresce quando a esperança se transforma em mercadoria e o medo em instrumento de mobilização. Seu maior perigo não está apenas nas promessas que deixa de cumprir, mas na corrosão da confiança pública que produz.

Afinal, a democracia não se mede pelo tamanho das multidões que aplaudem um líder, mas pela liberdade dos cidadãos para questioná-lo.

GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político