
O penteador de gatos de Istambul (por Miguel Esteves Cardoso)
Vivemos num totalitarismo da imagem. A imagem cala-nos. Substitui-nos. Se há uma mentira nesta vida, é aquela da imagem valer mil palavras

Faça-me o favor de ver o vídeo de meio minuto em que um velho engraxador de Istambul escova um gato de rua (https://www.reddit.com/r/MadeMeSmile/comments/1sii5ox/every_morning_at_the_same_time_a_cat_visits_an/), coisa que faz todos os dias, e sempre à mesma hora.
Agora imagine que não leu o parágrafo anterior e que encontrou o vídeo por acaso, quando estava à procura de escovas turcas.
Ou, melhor ainda, esqueça o vídeo e imagine que está em Istambul, virou uma esquina, e deu com o engraxador a pentear um gato (https://www.publico.pt/2022/06/14/fugas/noticia/gatos-istambul-partefundamental-cidade-vagueiam-documentario-rtp2-2010001).
Não tem maneira de o filmar. Volta para o hotel e recebe uma chamada de Portugal. Como descreve o que viu?
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesOu então manda o vídeo a uma amiga que não tem rede e que não tem maneira de o ver. Como descreve o que viu?
Deve haver muitos outros pais que fazem isto com os filhos. Antes de olhar para um vídeo que nos querem mostrar, pedimos que nos diga em palavras o que é que o vídeo mostra, para que usem a língua portuguesa para nos dizer o que eles viram naquele vídeo.
Dizem-nos que ler e escrever estão em declínio — e isso é infinitamente discutível, de preferência por escrito —, mas o que está mesmo em declínio é o descrever.
Mesmo nos velhos telefonemas compridos que também estão em declínio, já ninguém perde tempo a descrever imagens que são mais fáceis de fotografar ou filmar.
Pergunto “Como é que estão as montanhas?”, à espera de ouvir o meu amigo a contar o que está a ver. E o que é que ele faz: fotografa e diz “Já te mandei”.
Vivemos num totalitarismo da imagem. A imagem cala-nos. Substitui-nos. Se há uma mentira venenosa nesta vida, é aquela da imagem valer mil palavras. As fotografias e os vídeos são todos do passado. Estão parados. Estão fixos. São iguais para toda a gente e para todo o sempre. Estão mortos.
Já a tua descrição, feita em cima do momento, com as tuas palavras, na tua voz, está viva. Está a ser feita. Está a ser feita só por ti, só para mim. É rica. É original. E pode ser alterada por mim: diz-me mais sobre a escova que esse engraxador está a usar.
Está calor?
Cheira a bolos?
Estás feliz?
(Transcrito do PÚBLICO)

