O outsider da vez (por Mary Zaidan)

Com polêmicas que rendem engajamento nas redes, candidato do Missão é terceiro em pesquisa e promete infernizar adversários

atualizado

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O Maranhão é “uma bosta” que precisa de intervenção federal, o “sistema político brasileiro é podre”. Defesa de prisão perpétua e pena de morte legal ou oficiosa (executada por policiais) e até da produção de bomba atômica. Com ideias e falas absurdas, que rendem engajamento nas redes sociais, Renan Santos, do novíssimo partido Missão, é o outsider da vez. Imagina se tornar competitivo com discurso antissistema, lançando farpas para todos os lados e infernizando a vida dos favoritos na disputa presidencial. Filmou-se jogando sal grosso em frente da casa em que Lula morou na infância, em Caetés (PE), e promete “acabar com a raça” de Flávio Bolsonaro – “O traíra tem de morrer”.

Com vídeos em série nas redes – boa parte deles de dentro do carro no qual ele diz estar percorrendo o Brasil, sem a grana dos políticos -, Renan tem planos populistas para todos os gostos. Afirma que vai acabar com todas as favelas do Brasil a partir de um programa que inclui repressão (e mortes) de bandidos, urbanização, construção de habitações e emissão de títulos de propriedade, além de cadeia para invasores e prefeitos que deixarem surgir novas comunidades. O futuro das favelas que ele exibe, com prédios de seis andares, ruas largas e arborização, lembra os alucinados e chocantes vídeos veiculados por Donald Trump sobre a “nova Gaza”, com bulevares, shoppings e praias, enquanto bombas arrasavam as cidades e as vidas dos palestinos.

A exemplo de um outro outsider, Pablo Marçal, que foi candidato a prefeito de São Paulo em 2022, Renan tem um pé na teoria da prosperidade, que sustenta o coach. Navega também na linha bolsonarista, defendendo as ações do Bope, inclusive as mais violentas, e prometendo escolas cívico-militares.

Assim como a maioria dos que se apresentam como outsiders, a persona de Renan também é uma criação oportunista. Não surgiu do nada ou por obra do acaso. Fundador do Movimento Brasil Livre (MBL), um dos eixos da mobilização popular pró-impeachment da presidente petista Dilma Rousseff, era próximo dos ex-presidentes da Câmara Aécio Neves, que governou Minas Gerais, e de Eduardo Cunha, cassado e preso em 2016. Declarando-se, inicialmente, como desvinculado da política tradicional, o MBL recebeu apoio, inclusive financeiro, da maioria dos partidos de direita para as suas campanhas anti-PT.

Definindo-se como direita liberal, o MBL endossou Bolsonaro no segundo turno de 2018, rompendo com o capitão no ano seguinte. Para participar do processo legislativo, aliou-se ao Podemos, enlace dissolvido em 2022, depois do vazamento de áudios machistas e abusivos do deputado estadual Arthur do Val – um dos líderes do movimento – sobre refugiadas ucranianas logo após a invasão russa. O parlamentar, que pretendia disputar a prefeitura paulistana naquele ano, renunciou ao mandato, mas continuou ativo nas redes.

Hoje, o grupo conta com o deputado federal Kim Kataguiri, ex-União Brasil e único parlamentar do Missão, sigla homologada pelo TSE em novembro do ano passado. Para a disputa deste ano, o partido diz contar com mais de mil candidatos a deputados estadual e federal e postulantes para os governos do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Santa Catarina.

Presidente do Missão e ainda pouco conhecido se comparado aos demais candidatos, Renan surgiu na terceira colocação na última pesquisa Atlas/Intel para Presidência da República. O índice é baixo, de apenas 4,6%, mas ele aparece à frente de toda a penca de governadores do PSD  – Ronaldo Caiano (GO), Eduardo Leite (RS) e Ratinho Jr (PR), que desistiu de competir – , e também do mineiro Romeu Zema. Só perde para Lula e Flávio. E, para desespero de ambos, tem crescido de forma rápida e consistente entre jovens de 16 a 24 anos. Contaria com votos de 24,7% nessa faixa etária, um salto de 8,8% em relação ao levantamento anterior.

A baixa credibilidade do eleitor na política e nos políticos, que não conseguem oferecer soluções mínimas para as suas agonias cotidianas, associada aos privilégios de uns poucos e à série de escândalos, alimenta o discurso anti-tudo, abrindo portas para todo tipo de “salvadores da pátria”.

Bolsonaro, político com quase uma dezena de mandatos legislativos que se vendia como antipolítica, venceu a disputa do Planalto em 2018 explorando esse figurino. Marçal, hoje inelegível, não chegou a ganhar na capital paulista, mas ameaçou. Renan tenta repetir a trilha. É perigo à vista.

 

Mary Zaidan é jornalista 

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