Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Foto de Blog do Noblat
Coluna Blog do Noblat
Blog do Noblat - 22 anos

O motomito (por Gustavo Krause)

Bolsonaro se movimenta e funciona como mito político. Se não for enfrentado, atropelará a democracia

20/06/2021 11:59
Rodrigo Zaim/Especial Metrópoles
Bolsonaro cumprimenta apoiadores durante "motociata" em São Paulo"

As “motociatas” vêm se tornando comum nas manifestações de apoio a Bolsonaro. Trata-se de uma versão equivalente às passeatas, carreatas, bicicleatas, barquetas, estas, muito comuns nos rios que cortam o Recife.

Apesar da soberania das redes sociais, os gestores de campanhas não eliminaram mecanismos tradicionais de propaganda. Reduziram, é bem verdade, sua importância. Desapareceram, por exemplo, os comícios que, no jogo democrático, eram um espaço da teatralidade cívica aos momentos cômicos, registrados pelo folclore político.

Como fatos históricos, marcaram épocas, nem melhores, nem piores, porém diferentes e adaptadas às leis e aos costumes.

A novidade são as motocicletas, de diversos calibres, singrando avenidas e empunhando a bandeira do bolsonarismo. Não é fato trivial. E deve ser entendido como forma especial de ratificar “mito”, saudação ao Presidente pelos fervorosos adeptos.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

Na linguagem corrente, “mito” pode designar uma falsa crença; uma evocação imaginária de um demiurgo; o elemento fundador de sociedades primitivas; o sujeito de narrativa histórica, povoada de heróis, titãs, profetas, líderes religiosos, enfim, um personagem que escapa da consciência para habitar a camada profunda do inconsciente individual e coletivo.

No entanto, a expressão mito político surgiu como conceito no início do século XX e o principal teórico foi George Sorel (1847-1922) na obra Reflexões Sobre a Violência (Ed. Martins Fontes, 2020), seguindo-se vasta bibliografia.

Como ponto de partida, a compreensão do mito político parte de imagens criadas e não suscetíveis de apreensão pela razão, senão pelo processo de mistificação (propaganda/publicidade) de modo a buscar aceitação como evidência natural o que é uma construção ideológica.

O Presidente se movimenta e funciona como um mito político. A motociatas não são aglomerações barulhentas de apoiadores: é uma metalinguagem que envia várias mensagens: a relação de dominação do homem sobre a máquina, força, velocidade, desafio ao risco, poder, sexualidade, supremacia.

Engana-se quem desdenha o mito como obra abstrata do “imaginário”. O mito político é real. Importante atentar para seus elementos constitutivos: a ambiguidade (disse/não disse), os espaços dicotômicos do bem e do mal, o papel da salvação e a luta contra a conspiração.

Os ritos são dados sob a forma de “ordem unida” e a mais corrosiva função é assumir a forma política de rejeição à política.

Irracional na essência, as armas de combate ao mito político são a racionalidade, a verdade e a força motriz da indivíduo, livre, autônomo na dinâmica da sociedade democrática.

Caso contrário, o motomito atropelará a democracia.

Gustavo Krause, ex-ministro da Fazenda