
O médico e o presidente (Por João Bosco Rabello)
O conflito não começou após a nomeação de Queiroga

Em campanha eleitoral aberta, o presidente Jair Bolsonaro trai a hesitação que o acompanha desde que as pesquisas de opinião estabeleceram relação de causa e efeito entre a oposição de seu governo às vacinas e a queda em sua aprovação.
No primeiro momento, o movimento do presidente foi de negar o negacionismo, ou seja, de repelir as acusações ao seu governo de patrocinar o uso da cloroquina contra a Covid em detrimento da vacinação.
Com a CPI em funcionamento, esse caminho mostrou-se ineficaz. Parece missão impossível dissociar-se da figura do líder nacional (e mundial) de oposição aos protocolos recomendados pela área científica, como uso de máscara, isolamento social e vacinação – como pretendeu ao vestir sua versão paz e amor.
Por essa razão, o discurso novo não prevaleceu. Na verdade, durou muito pouco, não mais que alguns dias. O presidente retomou os ataques às vacinas, agora questionando sua comprovação científica, e acusou hospitais e médicos de fraudarem certidões de óbito para dar volume à estatística de mortes por Covid.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesCom isso, o governo volta a conviver com discurso dúbio, como na época de Henrique Mandetta e Nelson Teich, ex-ministros da Saúde defenestrados por não conseguirem o malabarismo de defender os protocolos médicos em oposição ao presidente em campanha.
O conflito não começou após a nomeação de Queiroga. Na entrevista que o levou ao cargo, o cardiologista paraibano disse ao presidente que não poderia pregar nada diferente de isolamento social e vacinas. Ao que ouviu em resposta, “você faz seu discurso que eu faço o meu”.
E assim está posto, não sem um alerta do presidente ao ministro da Saúde para que não seja tão ardoroso na defesa de seus pontos de vista. “O tal de Queiroga”, como o presidente se referiu ao ministro após seu depoimento na CPI, teve esse objetivo.
Queiroga segue em frente, convicto do acerto da máxima de seu antecessor de que o presidente tem duas caras: uma institucional e outra para a Internet. Esqueceu-se, Pazuello, de que vale a da Internet, pois é a da campanha da reeleição, em curso sem questionamentos quanto aos seus custos públicos.
Houve rumores sobre um certo temor de que Marcelo Queiroga pedisse demissão após o pito velado do presidente. Não parece ser essa a natureza do ministro, refratário a sentimentalismos.
A questão é o limite, no tempo, para a convivência das duas posições – a do médico e a do presidente. A cada dia, Bolsonaro agrava os ataques à vacinação e ao uso de máscaras e intensifica a defesa da cloroquina.
Bolsonaro parece apostar eleitoralmente nesse script. Não foi perguntado ainda ao “tal de Queiroga” o que acha da acusação aos médicos de fraudarem atestados de óbitos por Covid.
Respaldar o presidente nesse discurso “para a Internet”, equivale a emitir para si um atestado de óbito profissional, que lhe pode impor uma escolha de Sofia. A fuga usada para outras contradições, como a de não ser censor do presidente, não vale para esta.
