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Blog do Noblat - 22 anos

O Brasil e o mundo rejeitam Trump (por Mary Zaidan) 

Nova rodada de pesquisa deve apontar o perde-ganha de Flávio e Lula diante da interferência trumpista nas eleições brasileiras 

02/08/2026 09:00
Arte Metrópoles/Carla Sena
Presidente dos Estados Unidos - Donald Trump - EUA - Dia da Independência

Donald Trump é o ocupante da Casa Branca menos confiável na História. Tem avaliação negativa de 76% dos 42 mil entrevistados em 36 países pelo Pew Research Center, instituição independente norte-americana, referência global em dados demográficos e tendências de políticas públicas/sociais. No Brasil, a aprovação das práticas trumpistas é baixíssima, com 81% rejeitando as tarifas (não só contra o Brasil), 76% contrários à guerra no Irã e só 33% apoiando a captura do ditador Nicolás Maduro na Venezuela. Números impactantes que tiveram pouca repercussão por aqui, mesmo com Trump sendo um dos principais eixos da campanha de Flávio Bolsonaro (PL).

Raramente colocada em primeiro plano no debate eleitoral brasileiro, a política externa tem angariado audiência desta vez não pela importância que deveria ter, mas pelas trapalhadas dos Bolsonaros. Seja na tietagem explícita a Trump ou nos aplausos às malcriações do argentino Javier Milei. Em ambos os casos com perdas para Flávio, candidato do clã, e ganhos para o presidente Lula.

“Nunca antes nesse país”, como costumava dizer Lula em seus dois primeiros mandatos, se falou tanto de soberania e interferência externa nas eleições. Também nesse item, a Pew traz números expressivos: 76% dos brasileiros acham que Trump interfere muito nos negócios do Brasil, número semelhante aos 75% da Argentina de Milei, vassalo fiel de Trump. Em ambos os casos, a intromissão é criticada.

As influências ou não de Trump e Milei nas eleições estarão entre as questões formuladas pela Genial/Quaest na rodada iniciada sexta-feira, dia 31, com previsão de resultados na quarta, 5, último dia para a realização de convenções partidárias. Além da intenção de votos e da avaliação do governo Lula, os questionários devem medir os impactos da “reconciliação” da ex-primeira-dama Michelle com o enteado candidato, da aparição via IA do ex-presidente Bolsonaro na convenção nacional do PL, palco dos xingamentos de Milei a Lula e ao ministro do STF Alexandre de Moraes. Cabe enfatizar que os impropérios do argentino roubaram a festa.

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O fator Trump consignado em posturas políticas em favor do detento Bolsonaro, anti-STF e anti-Brasil, até mesmo com acusações contra o Pix, e em especial as tarifas impostas ao país com vivas do deputado cassado e autoexilado no Texas, Eduardo Bolsonaro, já foram medidos em pesquisas anteriores. Mas Trump reincidiu na fúria tarifária, anunciando novas alíquotas dias depois de receber Flávio e se deixar fotografar ao lado dos irmãos Zero Um e Zero Três. Como o novo tarifaço começou a valer na semana passada, só agora terá seu impacto político avaliado.

A estagnação e queda de Flávio nas pesquisas nos últimos campos são atribuídas a reveses quase simultâneos, a maior parte autoprovocados pelo próprio candidato. Do fator Master – em que ele pede R$ 61 milhões a Daniel Vorcaro para o filme do papai, nega peremptoriamente o ocorrido e é desmentido pelas mensagens trocadas com o ex-banqueiro -, ao efeito Michelle e à proximidade de Trump que, mui amigo, transformou o Brasil no terceiro país mais tarifado do mundo.

Nesta fase, pesquisas podem ser crueis ou alavancar ânimos. A quarta-feira dirá.

Em 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro aparecia sempre atrás de Lula, mas aproximou-se muito na linha de chegada. Venceu Lula com larga margem nos dois maiores colégios eleitorais do país – São Paulo e Rio de Janeiro – e praticamente empatou em Minas Gerais, onde a diferença em favor do petista foi de tímidos 0,4%. Lula lavou a alma no Nordeste, perdeu nos demais estados do Sudeste e no Sul. Ao final, passou raspando, com diferença a seu favor de 1,8%, pouco mais de 2 milhões dos 118,5 milhões de votos válidos.

O filho Flávio está longe de repetir tal performance. Pelos levantamentos da Quaest nos estados, sobe um pouco no Nordeste, sem ameaçar o favoritismo de Lula, e perde fôlego no Sudeste e até no Sul, região considerada bolsonarista de primeira hora. Na quinta-feira, viu sua frente diminuir até no Rio Grande do Sul, registrando 32% x 30% de Lula. Lá, há quatro anos seu pai fechou as urnas festejando a distância de 12,7 pontos percentuais.

Diferentemente das pesquisas eleitorais, que capturam a intenção de voto no momento, portanto imediata e volátil, a Pew mensura tendências estruturais. Além da avaliação das políticas públicas norte-americanas, neste último levantamento, realizado entre fevereiro e maio, aferiu a visão do mundo sobre os Estados Unidos, com resultados jamais vistos em rodadas anteriores. Sob Trump, a potência norte-americana perdeu liderança, confiança e admiração e, pela primeira vez na História, sucumbiu frente à China, vista de forma mais positiva do que os Estados Unidos em 25 dos 36 países pesquisados.

Saindo das pesquisas para resultados reais pós-eleições, o apoio de Trump tem sido, na maioria das vezes, tóxico. Sua natureza imperial e o tipo de interferência agressiva que promove em diferentes países, incluindo aliados de longa data, têm provocado reação inversa à pretendida por ele. Foi assim no Canadá e na Hungria. Pode se repetir no Brasil. Flávio e os seus sabem disso. Só que agora é tarde para esconder o boné do Maga (Make America Great Again) ostentado com entusiasmo por quase toda a direita brasileira.

Mary Zaidan é jornalista