Negacionismo lucrativo (por Felipe Sampaio)
Casa Branca resolveu abrir fogo contra o histórico Conselho Nacional de Ciências dos Estados Unidos
atualizado
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Essa mania de negar a ciência dá lucro até hoje, mas a ideia não é nova. Antes de os nazistas chegarem ao poder, a Alemanha ainda figurava como um dos principais centros de conhecimento do mundo, apesar do estrago sofrido na I Guerra Mundial. O nível de educação era o mais elevado da Europa, cientistas de todos os campos lotavam os corredores das inúmeras universidades. Einstein mudava o mundo com a teoria da relatividade, Thomas Mann brilhava na literatura, havia a prestigiosa Bauhaus na arquitetura e design, Rudolf Steiner despontava com a biodinâmica e antroposofia. Friedrich Ebert liderava a nova república social-democrata, entre tantas outras expressões da ciência e da cultura.
O nazismo devastou todo esse capital científico germânico. Os acadêmicos eram convocados para a guerra, presos, deportados ou fugiam. Para benefício de quem? Só sobrou aquilo que interessava aos amigos do regime. Quando a II Guerra começou, os jovens hitleristas apresentavam nível intelectual e escolar vexatório. Mal davam conta da escrita e da matemática básicas. O saber foi reduzido à doutrinação ideológica e à preparação física (o sonho de qualquer ditador).
A história conta que algo parecido já acontecera na Idade Média. Voltaria no séc. XX a ocorrer em regimes autocráticos como a Espanha de Franco, o Portugal de Salazar, o Chile de Pinochet, a China de Mao e a URSS de Stalin. Democracia e ciência caminham juntas. O conhecimento (acadêmico e cultural) ilumina a verdade e, portanto, a liberdade. Não foi à toa que nos apagões democráticos aqui na Terra da Santa Cruz tantos artistas, escritores, jornalistas, professores e políticos também foram censurados ou banidos durante décadas. Sem falar que, durante a epidemia de COVID19, milhares de vidas teriam sido poupadas caso nosso governo antivacina tivesse aliado sensatez e boa fé ao tratamento do problema. Sejamos francos, normalmente falta mais boa fé do que sensatez. Houve até quem defendesse aproveitar a calamidade para passar boiadas por cima da mudança climática.
Os recursos públicos e privados economizados com o desmonte das instituições e da produção científica nunca ficam guardados no caixa. Tampouco são redirecionados para os serviços públicos e o desenvolvimento humano. Simplesmente vão parar nos bolsos que ganham com a ignorância decorrente. Agora, quem diria, foi o Tio Sam quem resolveu detonar geral a ciência.
O presidente ianque já havia negado a pandemia de 2020 e é negador reincidente do aquecimento global e seus impactos. Também tem bombardeado como pode os projetos e recursos destinados a universidades como Havard e Berkeley (abrigo de tantos ganhadores do Nobel em diferentes áreas). Nos últimos dias, Washington resolveu abrir fogo contra o histórico Conselho Nacional de Ciências dos Estados Unidos (NSB). A revista Nature relata que a Casa Brasnca demitiu (sumariamente por e.mails) todos os 22 conselheiros que, normalmente, teriam mandatos de seis anos com substituição escalonada.
Com isso, o Salão Oval desestabiliza a Fundação Nacional de Ciência dos EUA, que desde 1950 planeja e financia programas estratégicos de ciência no país. Não se sabe ainda sobre a nova diretriz desses fundos científicos, mas podemos ter uma pista. Há algumas semanas foi nomeado um Comitê de Assessores em Ciência e Tecnologia do Presidente da República. Detalhe intrigante é que, dos 13 escolhidos, apenas um é cientista. Os outros 12 são altos executivos de big techs, entre eles, 09 bilionários.
Felipe Sampaio: Cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; foi empreendedor em mineração; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; foi subsecretário de Segurança Urbana do Recife; é diretor de programas no Ministério do Empreendedorismo.


