
Narcoterrorismo é conversa pra boi fugir (por Felipe Sampaio)
É pura má fé tipificar juridicamente o crime organizado como terrorismo

As facções e milícias fazem festa pra essa baboseira de promover traficante a narcoterrorista. Tudo papo furado do Tio Sam e seus sócios brasileiros. Só serve pra afrouxar o laço sobre o crime organizado, sabe-se lá pra quê. É hora de acordar! Facções e milícias são máfias e não terrorismo. Não é à toa a resistência da oposição em aprovar a PEC que institucionaliza o SUSP, encaminhada pelo atual governo (há meses) ao Parlamento brasileiro. Tutti buona gente. Um candidato a presidente operava no back stage do crime há anos, amigo dos caras da pesada desde as ladeiras cariocas até a fina bandidagem do colarinho branco e rastaqueras de Hollywood.
Terrorismo não é assim. São células independentes, trabalhando a luz do dia com atentados a bomba, assassinatos de autoridades em larga escala, enfrentamentos militares a céu aberto. O objetivo é tomar o governo por vias não democráticas. É desestabilizar as instituições para inviabilizar o regime. Podem ser de esquerda, de direita, ou maníacos religiosos. Podem recorrer a assaltos a banco ou sequestros para financiarem sua atuação política, mas o objetivo central é ideológico.
Já o crime organizado são quadrilhas com administração sofisticada, piramidal, típica das máfias, com objetivo claro e específico de ganhar dinheiro fora da lei. Atuam no tráfico de drogas, contrabando, roubos diversos, armas, tráfico humano, corrupção, empresas laranja e infiltração em atividades legais como: postos de gasolina, corretoras financeiras, construção civil, empresas de ônibus, emendas parlamentares, obras públicas, shows etc. Ocupam favelas para se esconderem e extorquir cidadãos e empreendedores. Na extremidade mais frágil estão os jovens pobres negros, armados de fuzil que mal sabem usar. Na ponta lucrativa estão magnatas anticapitalistas que dominam a engenharia financeira de alto nível e ficam com a maior parte da grana, sem risco de morte nem de prejuízo.
É pura má fé tipificar juridicamente o crime organizado como terrorismo. Querem apenas desarrumar toda a estrutura de investigação criminal especializada no desbaratamento das quadrilhas e dos seus apadrinhados (do mercado e da política). Desmonta-se todo o sistema complexo de “follow the Money” baseado no Ministério Público, Polícia Federal, inteligência financeira do COAF, GAECOs, Judiciário, IBAMA, Receita Federal, especialistas das polícias civis e PMs, capaz de botar no xadrez figuras como Marcola, Vorcaro, juízes, governadores, congressistas e até candidatos a Presidente.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesDeixa-se no seu lugar um modelo antiterrorista meia boca, de enfrentamento militar, baseado em operações violentas (sempre em favelas), uso das Forças Armadas, arapongagem infralegal e super encarceramento, que só reprimem aqueles jovens pobres pretos, e cujos combates e mortes servem tão somente ao espetáculo midiático que diverte e acalma os eleitores das classes A, B e segmentos caretas religiosos da classe C. Confrontos militares que jamais chegarão aos condomínios nobres, à Praça dos Três Poderes, à Av. Paulista, à BOVESPA ou outros palácios. É um modelo que serve para fortalecer o “braço forte” sobre a população comum e passar a “mão amiga” na cabeça de quem comanda de fato o crime no andar superior dos negócios e da política. Na hora que o bicho pega, restam apenas os 120 jovens pobres pretos mortos pelo paredão do BOPE, sem que isso melhore em nada o domínio do crime no local, enquanto figurões escapam da Ilha da Vera Cruz, entre esbórnias milionárias, em jatinhos de amigos. Crime organizado é máfia. Narcoterrorismo é balela.
Felipe Sampaio: Chefiou as assessorias do Ministro da Defesa e do Ministro da Segurança Pública; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; ex-secretário executivo de Segurança Urbana do Recife; cofundador do Centro Soberania e Clima; foi diretor de programas do Ministério do Empreendedorismo; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor.

