Milícia, chacina, samba: o Rio de Bolsonaro e Paes (Mirian Guaraciaba)

O Capitão saúda a chacina do Jacarezinho, comandada pelo governador do Rio de Janeiro, e o prefeito burla restrições impostas por ele, e cai

atualizado 11/05/2021 9:43

Manifestantes seguram faixa escrito Não foi operação, foi chacina Foto: Fábio Vieira/Metrópoles

Na semana em que o mundo assistiu à chacina mais letal da nossa história, na semana em que perdemos Paulo Gustavo, o humorista mais talentoso de sua geração, aos 42 anos, literalmente por falta de vacina, na semana em que a pandemia continua matando brasileiros sem dó nem piedade, o prefeito da Cidade Maravilhosa foi para o samba.

A repercussão de Paes “cariocando” teve gosto de vingança. É do prefeito a proibição de rodas de samba no Rio de Janeiro. Ele estava sem máscara, aglomerado, cantando. Comemorando exatamente o que? Não há o que comemorar, prefeito. Estamos tristes. A cidade está triste. O País está triste.

O pedido de desculpas – dispensável diante do desaforo – não apaga a cena. Perdemos, Eduardo Paes, o respeito pela autoridade. Perdemos a alegria de levantar todos os dias num Pais ensolarado e generoso para ver o seu povo adoecendo e morrendo nas mãos dos senhores governantes.

Não perdemos a capacidade de indignação, de entender a dor do outro. A chacina do Jacarezinho é um soco na alma. Ainda que se passem anos, décadas, nunca vamos superar a atrocidade cometida pela policia do Rio de Janeiro, sob o comando de Claudio Castro, governador por acaso, desconhecido até pouco tempo. Bolsonarista de carteirinha.

Castro mantém vinculo estreito com a família Bolsonaro. Na véspera da chacina, por coincidência, o Capitão esteve com o governador, no Rio, em inusitada visita para discutir investimentos no Estado. Tema relevante, tomou 50 minutos de sua agenda. Bolsonaro chegou às 16h40 e saiu do Palácio Laranjeiras às 17h30.

No dia seguinte à tragédia, desafiando ordens do STF, nem Castro nem Bolsonaro se mostraram indignados com a matança no Jacarezinho. Não se compadeceram da dor que tomou conta do Brasil. Ao contrario. A “operação” foi resultado de trabalho de “inteligência”, disse Castro. Dizimaram 29 vidas, comemoraram Castro e Bolsonaro.

Números frios dão a dimensão do que a policia teima em chamar de operação, e nós chamamos de massacre, fuzilamento, matança, carnificina: das 29 pessoas assassinadas, apenas quatro eram alvo de prisão. Nunca execução. E mais: dois dos homens executados pela policia não tinham sequer antecedentes criminais.

Em nome da lei, o Estado não tem autorização para invadir comunidades e fuzilar pessoas. Relatórios “secretos” da policia insiste em dizer que houve confronto. Não é verdade. Um dos homens assassinados foi encontrado com o corpo cravado de balas sentado numa cadeira de plástico. Impossível não lembrar práticas milicianas que aterrorizam nossa população.

Os pecados de Claudio Castro – e de Bolsonaro – não se resumem à ausência do espirito cristão – o Governador canta e reza todos os domingos numa igreja católica da Barra da Tijuca. Vão além. Castro é traíra. Quando o impeachment de Witzel começou a ser articulado, Castro acenou para a bancada do PSOL, prometendo romper com a política de confronto defendida pelo governador cassado.

Castro faltou com a palavra. Preferiu a matança, o “tiro na cabecinha”. Escolheu o lado mais funesto da política, mergulhou fundo no bolsonarismo. Mais um governador com destino certo: o desprezo do eleitor. Desafortunado Estado do Rio de Janeiro. Desventurada Cidade Maravilhosa. Sua gente não merece esse mórbido triunvirato.

Mirian Guaraciaba é jornalista

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