Janja Lula da Silva, Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (Por João Miguel Tavares)
A condecoração de Janja por serviços relevantes prestados à cultura portuguesa é aquilo a que tecnicamente se chama uma “marcelice”
atualizado
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Como se não bastasse ter enfiado Lula da Silva a martelo nas comemorações do 25 de Abril, criando a polémica que se conhece, Marcelo Rebelo de Sousa [presidente de Portugal] resolveu aproveitar a visita do presidente do Brasil para agraciar o casal Lula com duas condecorações.
Lula da Silva recebeu o Grande-Colar da Ordem de Camões, por promover as relações “entre os povos e as comunidades que se exprimem em português” – o que me parece apropriado.
Rosângela Lula da Silva recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, atribuída a quem promove a “expansão da cultura portuguesa e dos seus valores” – o que me parece ridículo.
Rosângela Lula da Silva – uma socióloga de 56 anos que começou a namorar com Lula em 2018, tinha ele enviuvado há alguns meses da segunda mulher e quando ainda se encontrava na prisão – casou-se com o presidente do Brasil em maio de 2022. Foi há menos de um ano, e ainda se sente um certo entusiasmo de lua-de-mel.
Todos conhecem Rosângela por Janja, o que dá um toque de familiaridade popular, e a sua ascensão mediática foi fulminante. Janja não desgruda de Lula; adora ser primeira-dama; é uma das suas principais conselheiras; e foi uma das grandes estrelas da campanha eleitoral.
E pergunta o caro leitor: mas o que é que isso tem que ver com o fato de ela ter sido condecorada com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique? O ponto é mesmo esse: não tem nada que ver.
A condecoração de Janja por serviços relevantes prestados à cultura portuguesa é aquilo a que tecnicamente se chama uma “marcelice”. “Marcelices” são gestos gratuitos ou insensatos, em que o sentido de Estado nem sempre abunda, e que só mesmo Marcelo se lembraria de fazer. Por que raio é que a mulher de Lula da Silva foi condecorada com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique?
Que “serviços relevantes” prestados a Portugal e à “expansão da cultura portuguesa” é que ela praticou nos últimos 11 meses? Ninguém sabe e, até agora, nada foi explicado – talvez porque a única explicação seja esta: as “marcelices” expandiram-se imprudentemente até às ordens honoríficas.
Graças à condecorada Janja, a pátria descobriu que o gesto não só não é inédito, como está à beira de se tornar tradição: Marcelo passou a atribuir condecorações por osmose e partilha de leito. Em 2017, condecorou o Presidente de Cabo Verde e a primeira-dama de Cabo Verde. Em 2018, condecorou o Presidente de Angola e a primeira-dama de Angola.
As condecorações masculinas vão variando; a das mulheres é sempre a mesma: Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Atribui-se uma comenda como quem oferece um conjunto de pratos Vista Alegre.
Saloio, não? Desde a sua eleição, Lula da Silva já foi a muito lado, e Janja foi atrás dele. Os dois foram à Argentina – e Janja não foi condecorada. Foram ao Uruguai – e Janja não foi condecorada. Foram aos Estados Unidos – e Janja não foi condecorada. Foram à China – e Janja não foi condecorada.
Vieram a Portugal – e pimba, uma banda a tiracolo e uma placa dourada para Janja, que, segundo a sua página de Wikipédia, é a primeira que recebeu até hoje. Grande Marcelo.
Parece um episódio irrelevante? Sim, se não levarmos nada a sério. No seu convite para o 25 de Abril, Marcelo desvalorizou a questão da corrupção, ignorou a guerra na Ucrânia e ainda resolveu brincar à endogamia honorífica. Lula é um grande amigo de Portugal, donde Janja também deve ser. É o novo provérbio de Belém: por trás de um Grande-Colar, há sempre uma Grã-Cruz.
(Transcrito do PÚBLICO)


