
Indecisos e voláteis até o Dia D? (por Antônio Carlos de Medeiros)
Os brasileiros podem, até o Dia D, tomar simplesmente o rumo da alienação eleitoral: a soma de abstenções, brancos e nulos

Mesmo faltando apenas dez dias para o “Dia D”, as eleições presidenciais continuam em aberto. A Quaest cravou ainda 35% de indecisão na espontânea. E mediu a permanência de 21% dos eleitores que ainda podem mudar as preferências no final, isto é, mudar o voto. Permanece a volatilidade.
Desde 1989, quando o Brasil voltou a ter eleições diretas para a presidência da República, cada eleição teve, é óbvio, suas peculiaridades. Mas havia quase sempre engajamento e esperança. Mas essa agora de 2026, 37 anos depois, não mostra nem engajamento e nem muito menos esperança.
Sempre a maioria das decisões definitivas ficam para a última semana, para o último dia e até para a hora de votar. Agora, a julgar pelo volume de indecisos e pelo zigue-zague da volatilidade, tendem a ficar mais para o Dia D, 4 de outubro.
São eleições, já sabemos, “sui generis”. Uma guerra de rejeições entre Lula e Flavio Bolsonaro. E uma escassez de opções alternativas no campo da chamada terceira via.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO Brasil, podemos dizer, vive uma espécie de entressafra de oferta política de novos líderes de porte nacional. Ao mesmo tempo, o país vive um novo momento de nova demanda por líderes moderados posicionados no Centro do espectro político. São os chamados independentes, que chegam a 33% do eleitorado nacional. Se for considerado o centro expandido – isto é, centro-direita/centro/centro-esquerda – esta demanda é muito maior.
Dada esta realidade – escassez de oferta – os brasileiros podem, até o Dia D, tomar simplesmente o rumo da alienação eleitoral: a soma de abstenções & brancos & nulos. Alguns Institutos já preveem a superação do histórico de mediana de 20% de abstenções.
Por isto – dada a probabilidade de alienação eleitoral mais alta e, ao mesmo tempo, dada a probabilidade de alta volatilidade no final -, parece prematuro mirar o que vai acontecer no segundo turno.
É claro que é importante medir a tendência estatística para o segundo turno – e os Institutos estão fazendo isto e convergindo para resultados semelhantes. Mas ainda não temos nem previsibilidade mais segura do que vai acontecer no primeiro turno. Talvez só lá no final da semana que vem, com a inclusão da medição de votos válidos.
Por enquanto, a única previsibilidade possível é a de que numa guerra de rejeições pode crescer o voto útil e a predominância do “voto-anti”: antipetismo ou antibolsonarismo. Mas ainda assim é pouco.
Por quê seria pouco ou insuficiente? Porque nestas eleições “sui generis” pela própria natureza da escassez de oferta de novas lideranças, há também outro fato “sui generis. Refiro-me ao verdadeiro imbróglio que mistura a crise do STF com o caso Master e com o caso INSS. E, ainda, mistura tudo isto com as eleições e com as escolhas políticas do eleitorado.
As crises invadiram o terreno das eleições. Na medida em que seguem já em curso uma enxurrada de vazamentos, fatos, especulações e narrativas, os petardos provocam mudanças de decisões de votos – agora e até dia 4 de outubro.
Assim, as eleições estão ainda sob o julgo das incógnitas. São muitas.
Exercendo a dúvida socrática, listo aqui algumas incógnitas:
As abstenções podem superar muito o perfil histórico de 20%?
Os mistérios ainda não desvendados dos casos Dark Horse (Flávio Bolsonaro) e Lulinha (Lula) serão conhecidos ainda em outubro?
Há probabilidade de Lula reconhecer que pode perder as eleições e, assim, mudar de postura e anunciar antes do dia 4 de outubro que o seu provável novo ministro da Fazenda, caso reeleito, será Luiz Carlos Trabuco Cappi?
Haverá perda da influência cabal do Partido Digital Bolsonarista (PDB) no ganho de tração da campanha de Flávio Bolsonaro nas últimas semanas, principalmente depois do apoio de Michelle Bolsonaro e dos evangélicos?
É definitiva a falta de aderência dos candidatos da terceira via, depois da leve reação de Augusto Cury já estancada?
No corredor dos eleitores moderados ainda pode surgir uma onda eleitoral de última hora?
O debate final na Rede Globo será capaz de engajar o eleitorado ou revelar fato novo?
Fatos ou revelações advindas do desvendamento das incógnitas poderão mexer no tabuleiro eleitoral.
No atual ambiente político nacional de incertezas, as percepções podem mudar mais rápido do que se espera.
E pequenas mudanças podem ter impactos decisivos.
Como foi o caso de Jair Bolsonaro em 2018 (o episódio da facada). E outra vez Jair Bolsonaro em 2022 (os episódios de Carla Zambelli – com uma arma de fogo perseguindo um jornalista na rua em São Paulo – e de Roberto Jefferson – atacando agentes da Policia Federal com tiros de fuzil e granadas).
E como foi o caso de Lula em 1989, no último debate na Rede Globo com Fernando Collor. Collor exibiu um vídeo na TV com Miriam Cordeiro afirmando em público que Lula tinha lhe oferecido dinheiro para realizar um aborto quando ela ficou grávida de Lurian, filha de Lula.
Foi impactante para Lula, pois Lurian já era registrada legalmente por Lula. Denominado na época como “golpe baixo” (e foi) a acusação deixou Lula sem ação ao vivo na TV e repercutiu no resultado final: ele perdeu a eleição.
Pois bem. O improvável e o inesperado rondam as eleições presidenciais brasileiras de 2026. É muito difícil ainda desenhar cenários de primeiro turno e, muito menos, de segundo turno.
A esta altura, o que é possível vislumbrar é um cenário de dificuldades políticas, sociais e econômicas em 2027. Queda do PIB, ameaça de recessão, crise política contínua no STF e reação do Congresso Nacional eleito – principalmente o Senado enfrentando o STF.
Quanto ao cenário eleitoral, concluo recorrendo outra vez a Sócrates: “só sei que nada sei”.
*Pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.

