Ideologia move Bolsonaro na América do Sul (Por Marcos Magalhães)
Jair Bolsonaro foi ao Equador para participar da posse do presidente conservador Guillermo
atualizado
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Após liderar, garboso, uma passeata de motocicletas no Rio de Janeiro, no domingo, Jair Bolsonaro foi ao Equador para participar da posse do presidente conservador Guillermo Lasso. Ao voar de volta a Brasília, na segunda-feira, o presidente do Brasil deixou no ar uma pergunta: a ideologia continuará a ser a sua bússola na relação com os demais países da América do Sul?
Ex-banqueiro, Lasso teve uma vitória apertada no segundo turno. Venceu por 52,3% a 47,6% o candidato apoiado pelo ex-presidente Rafael Correa. E terá apenas 12, das 137 cadeiras da Assembleia Nacional. Na posse, disse que governará “para todos” e que fica no passado a “era dos caudilhos”.
Ou seja, Lasso aposta em uma guinada rumo ao centro para governar um país radicalizado. Não será fácil. Ele prometeu vacinar metade da população em 100 dias, como meio para retomar a economia e reduzir o desemprego. Mas até hoje apenas 2% dos equatorianos receberam as duas doses.
Ele defende uma relação especial com os Estados Unidos, principal sócio comercial de seu país. E tudo indica que também terá em Bolsonaro um apoio importante no momento em que se redesenha o cenário político da América do Sul.
Seletivo
Bolsonaro tem sido seletivo em suas viagens pelo subcontinente. Quase cirúrgico. Passou ao largo da posse do peronista Alberto Fernández, na Argentina. Mas compareceu à inauguração do mandato do conservador Luis Lacalle Pou em Montevidéu, do outro lado do Rio da Prata.
Sua primeira viagem ao exterior, depois de tomar posse, foi ao Chile do presidente de direita Sebastián Piñera. Bolsonaro preferiu não comparecer, porém, à posse do novo presidente de centro-esquerda da Bolívia, Luis Arce.
Agora resolveu comparecer à posse do novo presidente do Equador. De máscara, ao contrário da véspera, quando liderou os motoqueiros pelas ruas do Rio em ritmo de campanha eleitoral antecipada. O presidente parece querer montar um time de líderes com quem poderia contar em uma região marcada atualmente pela incerteza política.
Pode ser que consiga montar esse time de aliados políticos. Tudo dependerá dos resultados das próximas eleições em países da região. Mas parece uma aposta arriscada para um país, como o Brasil, que durante décadas apostou em um relacionamento harmonioso com todas as demais nações da América do Sul.
Já não existe diálogo com a Venezuela há algum tempo. As relações com a Argentina, principal sócio brasileiro no Mercosul, ainda estão em fase de lento degelo. Os próximos meses definirão os aliados preferenciais do atual governo brasileiro.
Calendário
Pelo menos três eleições importantes estarão no radar do Palácio do Planalto nos próximos 12 meses. A mais distante é a da Colômbia, que escolherá em maio de 2022 o sucessor do conservador Iván Duque.
As manifestações que tomaram as ruas das principais cidades colombianas nas últimas semanas, com pelo menos 42 mortos e milhares de feridos, desenham um cenário no mínimo incerto para um país antes considerado uma ilha de estabilidade neoliberal.
As eleições mais próximas ocorrerão no Peru. No início de junho, os eleitores peruanos terão pela frente uma escolha antes improvável. Disputam o segundo turno das eleições presidenciais a conservadora Keiko Fujimori – filha do ex-presidente Alberto Fujimori – e o professor de esquerda Pedro Castillo.
É muito difícil prever quem vai ganhar. Diferentes institutos de pesquisa publicam (muito) diferentes resultados de suas prévias eleitorais. O Peru pode manter-se à direita com Fujimori. Ou pode optar por uma guinada (radical) à esquerda. Não por uma centro-esquerda como a de outros países da região, mas por uma esquerda à moda antiga.
O cenário econômico tem seu papel na indefinição política. Depois de 20 anos de crescimento, a economia peruana teve uma queda de 11% em 2020, por causa da pandemia. Segundo números oficiais, agora 30% dos peruanos vivem na pobreza. E tornou-se ainda mais difícil o acesso a serviços como saúde, educação e saneamento.
Para superar esse cenário, Castillo propõe a convocação de uma Assembleia Constituinte e a adoção, pelo Estado, dos papéis de planejador, regulador e investidor. Pede ainda a “nacionalização das riquezas”, para que estas sirvam aos peruanos com novas regras tributárias.
As mudanças propostas levaram o escritor Mario Vargas Llosa, um ácido crítico do ex-presidente Alberto Fujimori, a pedir votos para a filha Keiko. “Um governo de Castillo seria uma verdadeira catástrofe”, previu Llosa.
Na opinião do escritor, a vitória do candidato de esquerda levaria o Peru a seguir a trilha aberta na Venezuela por Hugo Chávez, que, como observou, “obrigou mais de cinco milhões de venezuelanos a emigrar para os países vizinhos para não morrer de fome”.
Emblemática
A situação mais emblemática do atual momento de mudanças, na região, parece ser a do Chile. Logo depois da escolha pelo voto popular dos integrantes da nova Assembleia Constituinte, em sua maioria independentes e de esquerda, começou a corrida para as eleições presidenciais de novembro.
Considerado por muitos anos como o país mais bem sucedido na América do Sul, com altas taxas de crescimento econômico e acordos de livre comércio com nações de todo o mundo, o Chile vive um momento de reflexão.
Em outubro de 2019, um aumento de 30 pesos na tarifa do metrô – o equivalente aproximado a R$ 0,20 – foi o estopim que levou centenas de milhares de pessoas às ruas do país. “Não é por 30 pesos, mas por 30 anos”, diziam os manifestantes, em referência à herança econômica do regime do ditador Augusto Pinochet, que privatizou serviços como educação e saúde.
A avalanche de manifestações no outrora paraíso neoliberal levou o governo de Piñera a consultar a sociedade se deveria convocar uma Constituinte. O voto sim venceu, e o resultado das eleições constituintes tomou de surpresa todo o mundo político.
A direita de Piñera não conseguiu, é verdade, sequer os 30% dos votos necessários a vetar algum dispositivo da nova Constituição. Mas a centro esquerda tradicional, que esteve no governo com líderes como Ricardo Lagos e Michelle Bachelet, também perdeu espaço.
Agora os líderes de uma nova esquerda despontam como potenciais favoritos. Entre eles, Daniel Jadue, do Partido Comunista (que acaba de conquistar a prefeitura de Santiago) e Gabriel Boric, da Frente Ampla.
Apesar de comunista, Jadue procura demonstrar independência. Durante reunião com pequenos empresários em abril, disse que não gostaria de repetir o que chamou de “capitalismo de Estado” da antiga União Soviética. “Um fracasso brutal”, definiu.
A psicóloga Paula Narváez, que foi ministra de Bachelet, procura reanimar o outrora poderoso Partido Socialista. Enquanto isso, o candidato conservador Joaquín Lavín admitiu o “risco teórico” de a direita ficar de fora do segundo turno, embora ainda procure demonstrar otimismo com a possibilidade de vitória.
Por enquanto é muito difícil prever quem estará no Palacio de la Moneda a partir de março de 2022. Assim como são ainda imprevisíveis os resultados das eleições presidenciais de países como o Peru e a Colômbia.
Seja como for, cada um dos novos eleitos conviverá por pelo menos alguns meses no poder com Jair Bolsonaro. E o futuro dirá se o presidente do Brasil manterá a decisão de se aproximar apenas dos colegas de direita. Ou se ele retomará a linha de pragmatismo e de boa vizinhança que por muito tempo marcou a diplomacia brasileira.


