
Eleições 2026: menos braço forte, mais mão amiga (por Felipe Sampaio)
A carreira militar não reúne as capacidades para formulação e liderança de um projeto de país

Nos quartéis brasileiros o clima é de serenidade na pré-campanha eleitoral de 2026. Tudo indica que permanecerá assim, o que demonstra o grau de resiliência da nossa democracia e a maturidade do nosso sistema de freios e contrapesos democráticos. Em 2018 foi diferente. Prevalecia um frenesi entre setores fardados saudosos dos anos de chumbo.
A vitória de Jair Messias naquele ano esquentou ainda mais a chapa na caserna, disseminando uma aparente euforia golpista entre a uma certa parcela militar menos qualificada para o serviço público da Defesa nacional. Eram segmentos despreparados para compreender o significado de governar, de democracia, soberania, meio ambiente, sociedade e outros campos do conhecimento humano que pressuponham a leitura de algum livro ou uma reflexão mais sofisticada de qualquer conjuntura. Por isso mesmo, essa minoria fez sucesso em um governo com o perfil de então.
Em 2022 o tempo quase fechou de vez, com o destempero de oficiais e suboficiais isolados turbinado por fake news digitais. Felizmente, predominou nas Forças Armadas a comprovação de compromisso com a Constituição e com o Estado de direito. Passadas as eleições e superado o processo que culminou no quebra-quebra vergonhoso do 08 de janeiro, a lucidez institucional mostrou-se majoritária entre comandantes e comandados das três Forças. Em 2026, ainda não se teve notícias de bravatas e ameaças. Ao que parece, teremos eleições livres de assombrações caducas.
Justiça seja feita, na escola de oficiais do exército (AMAN), pode-se ler no pátio em letras garrafais “Ides Comandar, Aprendei a Obedecer”. Mais claro, impossível: em tempos de guerra, mantenha a disciplina, aplique a técnica e respeite a hierarquia; em tempos de paz, fique na sua, aproveite para estudar e respeite a Constituição. Aluno que não entender o recado pode desistir da profissão logo na largada. Contudo, a frase que melhor define a noção de Forças Armadas em um regime democrático está nos muros dos quartéis país a fora: “Braço Forte, Mão Amiga”. A expressão ‘mão amiga’ contém um valor primordial, tão sutil quanto importante, muito além das operações de ajuda humanitária – é no conceito de ‘mão amiga’ que está abrigada a proteção da Constituição Federal e da Democracia. O ‘braço forte’ dispensa explicação.
Sendo mais uma entre tantas carreiras do funcionalismo público, os militares sabem que não precisam ter um ‘projeto de Brasil’. Primeiro, porque seria injusto esperar que consigam apresentar um projeto para o desenvolvimento econômico e humano do País (não é sua atribuição constitucional). Segundo, porque essa matéria não está prevista na sua formação acadêmica nem na sua instrução diária. Portanto, a carreira militar não reúne as capacidades para formulação e liderança de um projeto de país. Afinal, o Brasil tem 200 milhões de habitantes, um PIB de um trilhão e meio de dólares, um sistema financeiro colossal, agronegócios e mineração em escala global e um meio ambiente com importância planetária, tudo isso ligado por redes cada vez mais complexas de serviços e infraestrutura.
Democracia é uma construção coletiva e permanente. Por isso, em 2026, apenas 137 anos após o nascimento da nossa República, é preciso elegermos governantes e parlamentares que compreendam o significado do Estado democrático para a verdadeira Soberania e o Desenvolvimento de fato.
Felipe Sampaio: cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; sócio da Terra Consultoria e Inovação; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; ex-secretário-executivo de Segurança Urbana do Recife; foi secretário-executivo substituto no Ministério do Empreendedorismo.
