
E o sonho continua (por Marcos Magalhães)
A suada vitória contra o Japão

E o sonho continua. A suada vitória contra o Japão iluminou de otimismo o Brasil. Dentro e fora do campo. O país vai precisar: se na Copa do Mundo teremos fortes adversários, o cenário internacional também está cheio de obstáculos.
A vitória, que chegou no fim do jogo, premiou a equipe que tomou a iniciativa desde o primeiro momento. Foi um exemplo de dedicação, de esforço conjugado a talento. Começa a desfazer na memória coletiva um time preguiçoso e pouco inspirado.
Antes da partida, jogadores japoneses disseram que o Brasil não era mais aquele. Não é mesmo. Nem aquele que brilhou nas cinco copas, nem aquele que derretia em momentos decisivos. É um outro Brasil.
Não foram só os jogadores japoneses. A imprensa internacional nunca colocou a equipe brasileira entre as favoritas à Copa do Mundo. Na verdade, quase ignorou a seleção. Os holofotes foram reservados a Argentina, Espanha, França e Inglaterra.
Ainda há muito chão pela frente. Muitas partidas difíceis. Não existe espaço para ufanismo barato, mas também não se deve ignorar um país como o Brasil. Especialmente quando se une – pelo menos até agora – apesar das diferenças.
Na verdade, seria muito bom que um mínimo de união nacional extrapolasse o futebol e se expandisse ao momento político. Depois da Copa vêm as eleições e, claro, as emoções estarão mais uma vez à flor da pele. Mas alguns temas bem que mereceriam – e aqui vai um pouco de desencanto – de consenso nacional.
Um desses temas é a soberania. O Brasil está agora quase cercado por governos de direita e de extrema-direita, com visível apoio de Washington. Resta-nos, no caminho da independência, o pequeno vizinho Uruguai.
São visíveis, também, as manobras, dentro e fora do país, para que o governo dos Estados Unidos plante sua interferência nas eleições brasileiras. Assim como ficam mais evidentes os esforços da extrema-direita para estender um tapete vermelho à influência norte-americana.
O clã Bolsonaro que o diga. Primeiro foi o ausente deputado Eduardo, que trabalhou pela imposição de tarifas comerciais mais altas ao Brasil, sob a alegação de que seu pai seria vítima de um governo autoritário.
Agora é a vez do senador Flávio, candidato à Presidência da República. Em carta enviada ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, ele colocou à disposição dos Estados Unidos uma “equipe de transição” caso vença o pleito.
Uma “oferta generosa”, agradeceu Rubio. Mais do que isso, secretário. Nenhum candidato ao Palácio do Planalto jamais deslizou para tal subserviência. Um movimento bizarro, especialmente para quem se vê como líder dos “patriotas”.
O Brasil, nesse momento, tem poucos aliados dispostos a ajudá-lo em um possível confronto com Washington sobre tarifas ou interferência nas eleições. Até porque muitos de seus potenciais aliados ou foram cooptados, como na América do Sul, ou estão preocupados com as ameaças que também sofrem.
Por exemplo: a ameaça de Donald Trump de impor uma tarifa de 100% a países que impuserem impostos sobre serviços digitais prestados por empresas americanas. Como vêm cogitando os países europeus, por exemplo.
O Brasil sempre foi defensor do multilateralismo e da solução negociada de controvérsias. Porém, o jogo mudou. Trump é fã do unilateralismo mais radical. Do tipo faça o que digo ou vou punir você. É a regra do mais forte.
A seu favor, Trump diz que faz apenas o que prometeu a seus eleitores. Ele pratica aquilo que seu acadêmico conterrâneo, o cientista político Stephen Walt, chama de “mais perigosa” forma de nacionalismo: carregada de narrativas de vitimização nacional e xenofobia.
Em recente artigo para a revista Foreign Policy, ele descreveu também o que intitulou de melhor forma de nacionalismo: “um poderoso sentido de unidade nacional que possa unificar a população, encorajar os cidadãos ao sacrifício pelo bem comum e tornar o país menos propenso a uma derrota ou subjugação militar”.
Até aqui, as guerras estão fora de nosso radar. Espera-se que assim permaneçam por muito tempo. Mas existem formas mais sutis de uma nação impor sua vontade a outra. Para evitar que isso ocorra, é preciso falar mesmo mais de soberania.
Não se abre a equipe de transição a um outro país, por mais poderoso que seja. Não se deve trabalhar por mais tarifas externas sobre produtos brasileiros. Nem se deve buscar apoio de uma potência estrangeira para ganhar eleições no Brasil.
Parece estar claro quem defende essas posições. O tempo vai se encarregar de levar essas questões ao debate eleitoral.
E, independentemente de pressões atuais e futuras, também se torna mais claro que o Brasil precisa, aos poucos, buscar sua afirmação política, econômica, tecnológica e militar.
Não se trata de nacionalismo à moda antiga, mas daquilo que Walt chamou de “melhor forma” de nacionalismo. Sem xenofobia, sem ataques, sem gritos. E com a certeza de que se procura construir um novo caminho para o Brasil, em meio a grandes obstáculos. Como procura agora a quase esquecida seleção brasileira,
