
Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)
Em Distrito da Confusão publico crônicas (ou extratos de crônicas) de meu Pai, Odylo Costa, filho. Nem todas datam de tempos de censura

O padrezinho de São Luís (Tribuna da Imprensa — 5/7/1952)
Se me perguntarem o que vi de mais comovedor na minha última viagem ao Maranhão, não direi que sejam sobrados de azulejos, nem as pretas minas dançando tambor e chamando seus deuses na noite, nem as conversas em que se falava de Pindaré-Mirim, onde as cercas são feitas de mourões de cedro, nem os juçarais da Ilha e as areias da praia do Olho d’Água. Creio que foi a conversa de um pequeno padre, humilde no jeito, modesto nos trajes, conversa sem ênfase, mas daquele mesmo fervor que jogou pelas estradas da Úmbria, há 7 séculos, o pobrezinho de Assis.
Deu-lhe a igreja universal o título de Monsenhor, e o admirável pastor que é o atual Arcebispo de São Luís fê-lo vigário geral da Arquidiocese. Mas para os pobres da cidade ele continua a ser simplesmente o padre Chaves.
Há algum tempo, São José me intimou para arranjar umas telhas quebradas. As telhas eram para a casa que o padre fez no Lira, num dos bairros mais pobres de São Luís. Fez toda com material usado, condição que impôs aos doadores. E não aceita esmola grande. Antes disso, o que faz é determinar o valor da esmola. Foi vendendo tijolos da casa, tijolos simbólicos, de papel: ninguém pode dar mais de dez tostões. Mas em cada casa quem tem um cruzeiro dá. E é aos próprios operários do Lira que pede, para que, na paredes que se erguem, possam ver um pouco de seu sofrimento e sua força.
Eu visitei a casa paroquial, e parei assustado. Na pequena sala funcionam quatro turmas de ensino primário, divididas pelos quatro cantos. E de um lado estão os altares, com os seus santos; e de outro o palco, com seus atores. E no meio de tudo aquilo a presença do padre, respirando amor pelos pobres. Amor e respeito. Às futuras mães, distribui roupas, mas não de graça: exige em troca um dia de trabalho que seja, um pagamento qualquer. Não dá esmola. Esmola quem recebe é ele, para os pobres. E, de preferência, dos próprios pobres. Não implora pelo comércio as grossas espórtulas. E quando no governo, durante a greve, o sr. César Aboud lhe oficiou que tinha sessenta sacos de farinha à sua disposição, respondeu que não as receberia. Se o fizesse, demonstraria confiar mais nos poderes do governador temporal do Maranhão do que na providência d’Aquele de quem era ministro. Mandasse duas sacas, o gasto de um dia. Deus proveria depois.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesE ele me diz: “Se Deus existe (e ele crê que existe) tem que cuidar dos pobres, que a Ele pertencem.”
É no nome de Deus que ele zela pelos pobres, no nome d’Aquele que disse: “Eu sou o Pobre”. E zela com a fé mais pura, mais limpa, passando telegramas à gente em nome de São José. O tema de suas palestras na igreja do Lira é a caridade fraterna. Ele reconhece quanto é urgente e forte a mensagem da igualdade, e sabe que acima dela só é possível erguer a caridade fraterna. Somente quando todos os homens forem, realmente, irmãos, deixará a revolta dos igualitários de inflamar o coração humano.
Também seu prestígio é indescritível. Durante a greve e os incêndios, há um ano, no momento do maior desespero, o Lira fechou-se, com barricadas, a qualquer presença estranha, mesmo para os socorros. Não houve líder popular que conseguisse passar, nem dama nobre nem autoridades. Tiveram que recorrer ao padre. E o pessoal do bairro, ainda chorando sobre as suas casas incendiadas, escorregando na lama, levantando os olhos da miséria:
— Só entraram porque trouxeram o padre.
Odylo Costa, filho

