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Desastre no Nepal: quando ajuda já não basta (por Mariana Caminha)

Governo nepalês decidiu mudar o vocabulário. Não está pedindo apenas ajuda internacional. Está reivindicando compensação climática

04/09/2026 13:03
Reprodução/X
Enchente no Nepal - Metrópoles

Depois que uma avalanche de gelo, rochas e lama desceu pelas montanhas do Nepal, em 26 de agosto, arrastando vilarejos, pontes, escolas, casas e usinas hidrelétricas, o governo nepalês decidiu mudar o vocabulário usado para falar da catástrofe.

Não está pedindo apenas ajuda internacional. Está reivindicando compensação climática.

A diferença não é semântica. A ajuda depende da generosidade de quem oferece. A compensação parte do reconhecimento de que existe uma dívida.

O desastre começou na região fronteiriça com o Tibete e avançou pelos vales dos rios Bhote Koshi e Trishuli. Em pouco mais de uma semana, mais de 1.200 mortes já haviam sido confirmadas e milhares de pessoas continuavam desaparecidas. Cerca de 20 mil casas precisarão ser reconstruídas. Famílias foram levadas para abrigos, comunidades ficaram isoladas e trabalhadores permaneciam soterrados em túneis de usinas hidrelétricas.

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Os prejuízos podem chegar a US$ 5 bilhões – mais de um décimo de toda a economia do Nepal. A conta não fecha.

É difícil compreender o tamanho dessa perda. Para um país rico, uma tragédia dessa proporção seria devastadora. Para uma nação pobre, pode comprometer anos de desenvolvimento, aumentar a dívida pública e consumir recursos que deveriam financiar escolas, hospitais, saneamento e redução da pobreza.

O ministro das Relações Exteriores, Shisir Khanal, resumiu a posição de seu país: o Nepal praticamente não contribuiu para o aquecimento do planeta, mas está pagando um de seus preços mais altos. Segundo o Banco Mundial, o país responde por apenas 0,1% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Por isso, o governo pediu recursos à China, aos Estados Unidos e à Índia, três dos maiores emissores do mundo, e recorreu ao Fundo para Resposta a Perdas e Danos, criado no âmbito das Nações Unidas para apoiar países particularmente vulneráveis aos impactos climáticos.

Ao chamar esse dinheiro de compensação, e não de caridade, o Nepal toca no ponto mais sensível das negociações climáticas: quem deve pagar pela destruição provocada por um problema que não foi criado igualmente por todos?

Durante décadas, os países ricos construíram sua prosperidade queimando carvão, petróleo e gás. Agora, comunidades que pouco se beneficiaram desse desenvolvimento perdem casas, lavouras, infraestrutura e vidas para secas, inundações, ondas de calor e outros desastres agravados pelo aquecimento global.

Os que menos produziram a crise não deveriam ter de se endividar para sobreviver a ela.

Mas é justamente aí que a palavra “compensação” incomoda. Ao criar o Fundo de Perdas e Danos, os países fizeram questão de registrar que o mecanismo se baseia na cooperação e não implica “responsabilidade ou compensação”. Em outras palavras: aceitaram contribuir, mas não aceitaram admitir formalmente que estão pagando uma dívida.

Essa ambiguidade ajuda a explicar por que o fundo ainda está tão distante das necessidades reais. Mesmo que todos os compromissos anunciados sejam cumpridos, os recursos disponíveis representam uma fração das perdas enfrentadas anualmente pelos países em desenvolvimento. Uma única tragédia no Nepal pode consumir várias vezes o dinheiro mobilizado pelo mecanismo internacional.

Há ainda uma cautela importante. Cientistas já identificaram que a inundação foi desencadeada por uma avalanche de gelo e rochas, mas ainda não estabeleceram que o aquecimento global tenha causado diretamente aquele desabamento específico.

Sabemos que o aumento das temperaturas acelera o derretimento de geleiras, desestabiliza encostas e amplia os riscos associados ao gelo nos Himalaias. Sabemos também que as populações das montanhas estão expostas a uma combinação cada vez mais perigosa de eventos em cascata. Atribuir um desastre específico às mudanças climáticas, portanto, exige investigação.

A força da discussão levantada pelo Nepal está justamente em não depender de uma relação simplista entre uma tonelada de carbono emitida em um país e uma pedra que se desprende em outro. A responsabilidade climática também se mede pela exposição acumulada ao risco, pela capacidade desigual de recuperação e pela origem histórica do aquecimento que torna essas regiões progressivamente mais instáveis.

A tragédia do Nepal mostra que a avalanche não destruiu apenas casas e pontes. Abalou também o vocabulário confortável com que o mundo costuma tratar as vítimas da crise climática.