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De Belém a Antalya: a reeleição de Lula e o futuro ambiental do Brasil

O país precisa incorporar o risco climático às decisões sobre moradia, saúde, infraestrutura, agricultura e desenvolvimento econômico

30/10/2026 11:10
Freepik
Imagem colorida mostra cidade com sol no fundo - Metrópoles

Por Mariana Caminha

A primeira viagem internacional prevista para Luiz Inácio Lula da Silva depois de sua reeleição tem um destino simbólico: Antalya, na Turquia. É lá, às margens do Mediterrâneo, que líderes mundiais se reunirão, entre 9 e 20 de novembro, para a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP31. Poucas semanas depois de conquistar mais quatro anos no Palácio do Planalto, Lula deverá voltar ao palco da diplomacia climática internacional. Desta vez, porém, encontrará um cenário em que discursos e compromissos já não são suficientes.

A viagem carrega um significado que ultrapassa a agenda presidencial. Há um ano, o Brasil recebia o mundo em Belém, no coração da Amazônia, para a COP30. Agora, o país se prepara para entregar a presidência da conferência à Turquia, levando na bagagem tanto os avanços quanto as pendências de uma agenda climática que se tornou parte importante de sua política externa.

A reeleição de Lula representa, antes de tudo, continuidade. Desde seu retorno à Presidência, em 2023, o governo recolocou o combate ao desmatamento, a proteção da Amazônia e a cooperação internacional no centro de seu discurso ambiental. Reativou instrumentos de governança, retomou relações com parceiros internacionais e procurou reconstruir a imagem do Brasil como um ator relevante nas negociações sobre o clima.

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Mas continuidade não significa ausência de contradições. Ao mesmo tempo que defende a preservação das florestas e a transição energética, o governo mantém planos de expansão da exploração de petróleo, inclusive em áreas ambientalmente sensíveis. É uma tensão que não desaparece com a vitória eleitoral. Ao contrário: ganha mais quatro anos para ser enfrentada.

A COP31 chega em um momento decisivo para a diplomacia climática. Depois de três décadas de conferências, tratados, metas e declarações, o desafio central já não é apenas convencer os países de que precisam agir. É fazer com que aquilo que foi negociado se traduza em políticas públicas, investimentos e mudanças concretas na economia.

Isso significa transformar metas de redução de emissões em projetos financiáveis, acelerar a substituição dos combustíveis fósseis, preparar cidades para eventos climáticos extremos e garantir recursos para que países em desenvolvimento possam se adaptar a uma crise para a qual contribuíram proporcionalmente menos.

A conferência também terá uma configuração inédita. A Turquia exercerá a presidência e sediará o encontro, enquanto a Austrália conduzirá as negociações. Essa parceria aproxima simbolicamente o Mediterrâneo do Pacífico, duas regiões expostas a impactos cada vez mais severos do aquecimento global.

Para o Brasil, a COP31 será também um teste do legado de Belém. Entre as prioridades deixadas pela presidência brasileira estão os caminhos para a transição para longe dos combustíveis fósseis, o combate ao desmatamento, a ampliação do financiamento climático e a aceleração da adaptação.

A vitória eleitoral oferece a Lula a possibilidade de trabalhar com um horizonte político mais longo. Isso importa especialmente para a agenda ambiental, cujos resultados dificilmente cabem nos ciclos curtos da política.

O próximo mandato também precisará aproximar a política climática da vida cotidiana dos brasileiros.

Para uma família que perde a casa em uma enchente, pouco importa quantas declarações internacionais foram assinadas. Para o trabalhador exposto a temperaturas perigosas, a crise climática não é uma discussão diplomática. Para o agricultor que enfrenta secas sucessivas, adaptação não é um conceito abstrato: é a diferença entre produzir ou perder a safra.

É justamente nessa dimensão que a agenda ambiental brasileira ainda precisa avançar. O país precisa não apenas reduzir emissões e proteger seus biomas, mas incorporar o risco climático às decisões sobre moradia, saúde, infraestrutura, agricultura e desenvolvimento econômico.

Há ainda uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. A transição climática exige investimentos em escala trilionária, e países como o Brasil precisam mobilizar recursos públicos e privados para financiar infraestrutura resiliente, energia limpa, agricultura de baixo carbono e proteção dos ecossistemas.

O debate sobre financiamento climático, portanto, não pode continuar restrito às salas de negociação. Ele precisa chegar ao orçamento público, às decisões dos bancos, aos investimentos das empresas e às prioridades de estados e municípios.

A COP31 oferecerá ao Brasil a oportunidade de mostrar como pretende transformar seu potencial ambiental em uma estratégia de desenvolvimento. O país reúne condições singulares: uma matriz elétrica predominantemente renovável, enorme biodiversidade, capacidade de produção agrícola e possibilidades de expansão de tecnologias de baixo carbono. Mas potencial, por si só, não equivale a resultado.

De Belém a Antalya, a diplomacia climática brasileira atravessa uma passagem importante. A primeira etapa foi recuperar espaço nas negociações internacionais. A segunda foi receber o mundo na Amazônia. A terceira, e talvez a mais difícil, será transformar compromissos em entregas.