
Cidade sitiada (por Mirian Guaraciaba)
O Rio de Janeiro sofreu nessa terça a operação policial mais letal de sua história, no combate ao narcotráfico e ao crime organizado

Retrato de uma cidade tomada por criminosos que, numa escalada jamais vista, usaram drones e mecanismos sofisticados para lançar granadas contra forças policiais, o Rio não pôde poupar sua população de um estado de pânico absoluto. Foram 2500 policiais civis e militares avançando contra o Complexo do Alemão e a Penha. E o medo instalado em todas as zonas cariocas. Medo dos tiros. Medo dos bandidos. Medo da polícia. Tudo junto e misturado.
64 mortos. 4 policiais mortos. Um delegado em estado de coma. 81 presos. Poucas armas apreendidas (91 fuzis) para o tamanho da operação. Os moradores apavorados viram ônibus incendiados, vias interditadas, e muito tiro. O governador Claudio Castro perde-se no campo de guerra em que se transformou a cidade maravilhosa. Não tem comando. Devia pedir o chapéu diante de tanta incompetência.
Hoje, no rescaldo da guerra declarada contra o narcotráfico, os governos do Rio e Federal devem se unir. É o que prometeu Alckmin, presidente em exercício. O Ministério da Justiça vai criar ações integradas entre as policias do Rio, o Exercito e Policia Federal. No morro, bandidos do Comando Vermelho, contra os quais atacaram os policiais, estão aparentemente acuados. Esperar para ver.
Químicas trocadas
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO ataque à cúpula do CV no Rio mal permitiu comemorarmos o resultado positivo da viagem do Presidente Lula à Ásia, e seu encontro com Donald Trump. Extremismos superados, renasceu naquele continente a amizade que sempre existiu entre Brasil e Estados Unidos. Pintou não só química, disse Lula. “O ser humano é 80% química e 20% razão e emoção. E eu acho que é isso que pintou entre mim e o presidente Trump”.
Lula espera que “a química dê frutos ao povo brasileiro e ao povo americano, porque nós dois queremos o mesmo: resolver as diferenças e fazer as coisas andarem.” Trump aproveitou o momento ternura e pediu à imprensa, no dia seguinte, que transmitisse a Lula votos de feliz aniversário. E se disse “impressionado” com o “vigor” do presidente brasileiro. Lula fez 80 anos nesse 27 de outubro.
A amizade entre os dois presidentes pode ser classificada como de “utilidade”, segundo Aristóteles. Há mais duas categorias definidas pelo filósofo, de prazer e bom caráter, aliás, diz ele, fundamentais para a felicidade. Outras formas de amizade são a “social de Dunbar”, que relaciona o tamanho do cérebro e as interações sociais. Platão falava da “predisposição recíproca”, Freud explorou a amizade a partir da perspectiva psicológica.
Teses não faltam. O que anda em falta é a tal da amizade. Estudo recente (fevereiro de 2025) publicado pela Harvard Business Review, mostra a “recessão das amizades”, ou “tendência de declínio de amizades significativas lentamente se aprofundando em nossas vidas”. A pesquisa American Perspectives indica que o número de adultos americanos que relatam não ter qualquer amigo próximo foi multiplicado por quatro desde 1990, chegando 12%. No Brasil, o velho hábito de puxar conversa com o vizinho, em cafés ou bares, está desaparecendo. Hoje, as pessoas sentam-se sozinhas, ombros curvados, olhos fixos nas telas do celular.
Cada vez mais pessoas estão em completa desconexão da realidade a sua volta. Desconectadas de outras pessoas. Nos Estados Unidos, o número de comensais sozinhos aumentou em 29% somente nos últimos dois anos. O alerta do estudo de Harvard deve ser levado em conta: este não é apenas um problema social, mas uma crise cultural. “Reservar um tempo para a amizade não deve ser um luxo, mas uma prioridade”, ensinam os estudiosos do comportamento humano.
Diz mais o artigo da Harvard Business Review: a solidão não é mais uma escolha, está se tornando um hábito. Olha só o perigo: não só está se tornando mais difícil fazer novos amigos como estamos perdendo conexões antigas. Uma das razões apontadas seria o desinteresse por reuniões religiosas, clubes, esportes e organizações voluntárias. Esses “escapes” fomentavam amizades.
Cada vez mais limitados às mídias sociais, às responsabilidades familiares, e aos cuidados com os pets, a amizade deixou de ser parte da vida cotidiana, trazendo problemas poucas vezes identificados com o novo estilo de vida, com a solidão e a falta de amigos. O isolamento social aumenta o risco de doenças cardíacas, demência e mortalidade, diz o estudo de Harvard.
Isolar-se pode ser tão prejudicial quanto fumar 15 cigarros por dia. A amizade, por outro lado, indica o estudo de Harvard, é a maior fonte de felicidade e saúde. Não é a carreira, nem o sucesso, é a proximidade das pessoas. Ensinam os entendidos: a verdadeira amizade é investimento: perdoe, ligue, crie memória e passem tempos juntos.
Mirian Guaraciaba é jornalista

