
Eles não são farinha do mesmo saco (por Mary Zaidan)
Presentes desde sempre nas eleições brasileiras, escândalos acabam por beneficiar quem tem passado turvo como Flávio Bolsonaro

Um curioso mantra se repete em todas as eleições presidenciais. Fala-se muito da importância dos programas de governo, mas eles não passam de meros coadjuvantes, não raro figurantes que mal chegam a dar as caras. Um script que facilita a vida de candidatos sem história ou com passado turvo, e sem propostas. Neste ano, o espaço eleitoral foi ocupado pelos escândalos do Banco Master, pela guerra aberta entre supremos ministros e até pela Santa Padroeira do Brasil. Por óbvio, Flávio Bolsonaro foi o principal beneficiário disso.
Mesmo enrolado para além do pescoço com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, a quem pediu e recebeu R$ 60 milhões supostamente para a cinebiografia do pai Jair, o senador tem lucrado com a balbúrdia que tende a colocar todos no mesmo saco. Sempre que dá, inclui em suas falas denúncias sobre o suposto tráfico de influência do filho do presidente Lula, como se o filho e não o pai fosse o candidato. Culpa Lula pelas impropriedades de juízes do Supremo, sem dar um pio, claro, sobre as malversações dos seus togados de estimação.
Com diferentes e graves imbróglios ocupando a mídia, Flávio conseguiu fazer campanha sem precisar de explicar seus desvios – das rachadinhas ao enriquecimento súbito -, tampouco a sua intimidade com milicianos. Dada a rasura de pires de suas propostas, afogadas em generalidades, ele não convenceu nem mesmo a Faria Lima, que nutre desprezo por Lula.
As análises sobre a baixíssima qualidade desta campanha são quase unânimes. Mas, em maior ou menor grau, tem sido quase sempre assim. Desde 1894, na Velha República, quando o voto ainda não era secreto, passando pelo período de Getúlio Vargas a Juscelino Kubitschek. Em 1921, “a crise das cartas falsas”, tida como uma das maiores fake news do século passado, insuflou militares e quase levou Artur Bernardes à derrota.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA opção por explorar escândalos e temas morais – da desumana exposição da filha de Lula, Lurian, pelo adversário Fernando Collor de Mello, em 1989, ao criativíssimo boato bolsonarista da “mamadeira de piroca” dentro de um “kit gay” que o PT iria distribuir nas escolas – comprova a escolha das campanhas em se apoiar em baixarias e mentiras, mais eficazes para os candidatos do que propostas.
Do pós-ditadura para cá, à exceção da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, todos os pleitos foram incendiados por escândalos reais ou falsos. Em 1998, FHC teve de enfrentar o Dossiê Cayman, invenção sobre uma empresa fantasma composta pela improvável sociedade com o então governador de São Paulo Mario Covas e os ministros José Serra e Sérgio Motta. Mentira das grossas.
Na disputa de 2002, Roseana Sarney (PFL), líder nas pesquisas, foi derrubada quando a Polícia Federal encontrou R$ 1,3 milhão em espécie na empresa do seu marido, Jorge Murad. O caso Lunus – verdadeiro – selou a inimizade do clã Sarney com FHC, que teria autorizado a ação da PF. Nessa mesma eleição, primeira vencida por Lula, corria solto o boato de que o candidato petista iria estatizar todas as atividades econômicas do país e criar casas multifamiliares. Era a tal teoria do medo, que, após a Carta aos Brasileiros, resultou no mote vitorioso “a esperança vai vencer o medo”.
Quatro anos depois, Lula se reelegeu a despeito do Mensalão, tema que só não dominou a campanha porque o adversário e hoje vice-presidente de Lula, Geraldo Alckmin (PSB), à época candidato pelo PSDB, caiu em uma armadilha. Era mentira, mas Alckmin literalmente vestiu a carapuça de que iria privatizar o Banco do Brasil e a Petrobras, abusando de chapéus com as marcas das estatais. Em 2010, Lula fez sua sucessora, Dilma Rousseff, mas o segundo turno foi inundado por temas morais e religiosos, em especial sobre o direito ao aborto.
A reeleição de Dilma, em 2014, foi por um triz. Com a trágica morte de Eduardo Campos em um acidente aéreo, Marina Silva assumiu a cabeça da chapa do PSB e velozmente alcançou números expressivos nas pesquisas, abalando a polarização PT versus PSDB. A campanha de Dilma desconstruiu Marina com vídeos bem produzidos (antes da IA) em que a comida sumiria da mesa caso a ex-ministra de Lula vencesse.
A prisão de Lula pela Lava Jato ampliou a repulsa do eleitor ao petismo. Desaguou na vitória de Jair Bolsonaro, cujo impulso veio após a facada sofrida em Juiz de Fora, dominando a reta final. Uma campanha construída em cima do truque da antipolítica e do falso moralismo, com rechaço à ideologia de gênero – mentiras a rodo e muitos robôs alimentando redes sociais. Aqui se consolidaram as fake news digitais e uma nova era de polarização.
O Bolsonaro da pandemia, que por negacionismo e descaso deixou morrer quase 700 mil brasileiros, não conseguiu se reeleger. Contribuiu para desacreditar as vacinas e as urnas eletrônicas, consequentemente, o voto. Facilitou a aquisição de armas de fogo, incentivando a cultura da violência. À época, o país que o derrotou não sabia da trama golpista que ele armava, pela qual foi condenado a mais de 27 anos de prisão. Agora em 2026, o pano de fundo é semelhante – e talvez pior. O país corre risco de eleger o filho do golpista, com fortes e inegáveis vínculos com a milícia.
Cabe aqui reproduzir a parte final do editorial “Flávio e a sombra dos milicianos”, do jornal O Estado de S. Paulo, porta-voz de uma ala conservadora da sociedade brasileira.“Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela Constituição para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na Justiça Eleitoral. Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República.”
O Brasil chega hoje à décima eleição presidencial pós-Constituinte de 1988, com o voto livre, direto e secreto, virtudes da democracia roubadas pela ditadura. Muitos podem torcer o nariz para Lula, mas entre o joio e o trigo não dá para tergiversar.
Votem bem.
Mary Zaidan é jornalista

