Brasília 66 (por André Gustavo Stumpf)

Na década de sessenta, no século passado, Brasília era uma aspiração.

atualizado

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Divulgação/Arquivo Público do DF
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1 de 1 construcao-brasilia-1 - Foto: Divulgação/Arquivo Público do DF

O presidente Juscelino Kubitschek foi objetivo. Concluiu apenas os principais prédios da nova capital da República, na data da inauguração: 21de abril de 1960. Foram terminados o Palácio da Alvorada, o do Planalto, o Supremo Tribunal Federal, o Congresso, o esqueleto da Catedral, os ministérios, a igrejinha Nossa Senhora de Fátima, as duas asas sul e norte, o lago Paranoá e poucas superquadras. Os pioneiros terminaram de construir a cidade que hoje é a terceira maior do Brasil, depois de São Paulo e Rio de Janeiro.

Na década de sessenta, no século passado, Brasília era uma aspiração. O presidente Jânio Quadros, que governou por apenas oito meses e alguns dias, renunciou a seu cargo, fugiu para São Paulo onde ficou homiziado na base aérea de Cumbica.  Dali foi para o exílio. Quando saiu de Brasília disse que jamais voltaria a “esta cidade malsinada”. Fez uma única obra em Brasília. Ordenou a construção de um pombal na praça dos Três Poderes. João Goulart, o Jango, também não fez nada em favor da cidade. Ele governou do Palácio das Laranjeiras, no Parque Guinle, no Rio de Janeiro.

Foi naquela cidade que ele fez o famoso comício da Central do Brasil, na frente ao então Ministério da Guerra. Os generais assistiram da janela o desenrolar daquela crise política. A primeira-dama Maria Teresa Goulart passou a maior parte do governo do marido em Madri, na Espanha. Sua primeira participação em ato público foi no Comício da Central. O casal se reencontrou em Brasília, na Granja do Torto, para reunir seus pertences e viajar para Porto Alegre, onde deveria resistir ao golpe militar, junto com o chamado dispositivo do general Assis Brasil, então chefe da Casa Militar da Presidência.

O dispositivo não funcionou. O casal fugiu às pressas para uma fazenda de sua propriedade no Uruguai. Jango só retornou ao Brasil para ser enterrado em São Borja, no Rio Grande do Sul. O Marechal Humberto Alencar Castello Branco, cearense, foi eleito pelo Congresso Nacional em 1964 o novo presidente do Brasil. Juscelino Kubitschek, já senador por Goiás, votou a favor dele, pensando que o golpe teria curta duração. Ele sonhava com a candidatura a presidente da República em 1965. Tancredo Neves, ao seu lado, votou contra. Posteriormente, JK foi cassado pelo comando dos governos militares, junto com dezenas de parlamentares.

Muita gente fugiu pulando o muro das embaixadas. Eram poucas em Brasília. A dos Estados Unidos já funcionava naquela época. Mas ninguém se atreveu a buscar asilo ali. O governo dos Estados Unidos apoiou o golpe militar. A da Tchecoslováquia, país comunista que não existe mais, ao contrário foi quase invadida por parlamentares que fugiam da repressão. Os que ficaram foram presos e recolhidos no Teatro Nacional, que na época estava inacabado. Hoje ele está fechado porque o governo do DF não fez a necessária manutenção. Depois os presos foram transferidos para quarteis do Exército. Em 1964 foi um ano muito difícil para o país. A política econômica fortemente restritiva provocou uma recessão severa. O desemprego foi alto e a inflação pesada. Ninguém podia reclamar porque a repressão era implacável.

O Distrito Federal foi governado desde sua criação no Planalto Central por um indicado pelo Presidente da República. No início, seu título era de Prefeito. Depois foi promovido a Governador. Hoje, o brasiliense vota para governador, senador, deputado federal e deputado distrital. A política é semelhante à de outras capitais.

Brasília abrigava, no final de 1960, segundo o IBGE, 140 mil habitantes, os pioneiros, que aceitaram a missão de viver numa cidade de clima frio, seco, e pouquíssimas diversões. Era uma grande cidade pequena, cujos habitantes temiam o retorno da capital para o Rio de Janeiro.  A cidade assistiu rebeliões e golpes de estado. Sobreviveu a todos. Conseguiu se desenvolver e acolher bens seus hóspedes, de receber os poderes da República e mais de uma centena de embaixadas. Hoje é uma cidade grande, com os desafios inerentes ao seu tamanho, com atividade política própria. O tempo da aventura no Planalto Central terminou.

Nos anos sessenta o pessoal ia pescar e caçar pato nos primeiros quilômetros da estrada para a Bahia. Hoje a região é recortada por conjuntos habitacionais. Na saída sul, a BR 040, a situação é a mesma. Condomínios maiores ou menores. A área do Distrito Federal não ocupada pelos seus habitantes é utilizada por produtores rurais. O cerrado, antes conhecido como terra inservível, agora é utilizado para a produção de grãos. Brasília, além de ser o cérebro das altas decisões nacionais, abriu as portas do brasileiro para centro-oeste. O país moderno apareceu neste período. O país de hoje não guarda nenhuma semelhança com aquele de seis décadas atrás. Obra de um político capaz de enxergar além das picuinhas nacionais e da polarização entre ditadura militar e populismo radical.

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