
Biografias (por Mary Zaidan)
Independentemente de gostar ou não de Lula ou de Flávio, é obrigatório reconhecer a diferença abissal entre o histórico de cada um

Mario Covas, um gigante da política brasileira, dizia que a biografia era o melhor cartão de visitas de um homem público. Nas disputas eleitorais das quais participou, antes e depois da ditadura militar, convidava o eleitor a comparar o histórico de vida dos candidatos, evidenciando a coerência e o compromisso com a democracia. Acreditava que o cidadão preferia ouvir um não “verdadeiro” a promessas vazias. Tinha ojeriza à mentira. Eram outros tempos e a política de hoje não tem qualquer semelhança com aquela época. Biografias, então, contam-se nos dedos quem pode exibi-las.
Depois de um debate na Band em que as ausências dos primeiros colocados nas pesquisas foram mais expressivas do que as presenças, a semana de entrevistas no horário nobre da TV Globo talvez tenha sido o primeiro momento em que o público pode juntar elementos comparativos dos principais candidatos à Presidência. Da curtíssima biografia apresentada no início de cada rodada ao comportamento do postulante diante de perguntas incômodas. Lula tropeçou na resposta sobre a lobista amiga de seu filho, Flávio Bolsonaro abusou das mentiras. Como era previsível, a torcida de cada time vangloriou seu ponta de lança e execrou os jornalistas Renata Vasconcelos e César Tralli. Tudo dentro do script. Mas entre denúncias daqui e dali, o que o eleitor ficou sabendo da história dos candidatos?
Romeu Zema, do Novo, governou Minas Gerais por dois mandatos. Sabe-se que ele é um empresário bem sucedido. E pronto.
O médico Ronaldo Caiado tem mais história. Direita assumida, ganhou dimensão nacional como presidente da União Democrática Ruralista (UDR), entidade que demonstrou vigor durante a Assembléia Constituinte. Em 1989 disputou a eleição presidencial pelo antigo PSD, que nada tem a ver com a sigla que lhe dá guarida hoje. Governou o estado de Goiás por dois mandatos, deixando o Palácio das Esmeraldas com aprovação recorde de 84,7%. Uau! Mas é um oportunista de carteirinha. Já se postou ao lado de Jair Bolsonaro, rompeu com ele diante do negacionismo sobre vacinas e o perdoou quando precisava de apoio. Tentou ser ungido como candidato do bolsonarismo. Como não deu certo busca se equilibrar entre acenos e críticas ao ex.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesRenan Santos (Missão) é o outsider da vez. Ninguém sabe direito de onde veio, a não ser pela liderança exercida no MBL, que mobilizou as ruas contra a ex Dilma Rousseff. É articulado, mas com ideias mirabolantes demais para ser levado a sério. Augusto Cury, do Avante, é psiquiatra e, como fez questão de constar em seu registro de candidato, é escritor. Tem mais de 80 títulos de autoajuda publicados.
O que chama mais a atenção são os candidatos da dianteira. Independentemente da simpatia pessoal ou do apoio a um ou ao outro, é obrigatório reconhecer a diferença abissal entre a biografia de cada um deles.
Ainda que possa ser piegas repetir que Lula é o operário que virou presidente, esse é um fato inegável. Sua trajetória aponta para um animal político que venceu sucessivas etapas entre a infância pobre e o comando do país, eleito por três vezes, a última delas depois de passar 580 dias preso e ter sua condenação anulada. Goste-se ou não dele, Lula está associado à base da pirâmide, programas sociais consistentes, com redução da miséria e da fome.
Advogado sem a pós-graduação que enfiou “erroneamente” em seu currículo, Flávio é só o filho do ex, e sua motivação maior como candidato é livrar o pai, condenado e preso por tentativa de golpe contra a democracia. Entrou para política ainda garotão pela mão paterna e nela se segura até hoje. Em 2002, aos 21 anos, se tornou o deputado estadual mais jovem do Rio, cargo renovado por duas vezes. Em 2018, chegou ao Senado surfando na onda do pai. Está lá há mais de sete anos com baixa performance. O único projeto de sua autoria que vingou foi o PL 3.190 sobre o Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado. Curiosamente, a proposta foi aprovada em 2023, no governo Lula. Isto é, nenhuma iniciativa de Flávio virou lei durante o período em que seu pai presidiu o país.
Sobre ambos pesam acusações. Do Mensalão ao Petrolão até as recentes suspeitas de tráfico de influência de seu filho, quando o alvo é Lula. Da prática de rachadinha aos imóveis comprados com dinheiro vivo e acelerado enriquecimento, do conluio com o crime organizado às tretas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, no caso de Flávio. São questões cravadas na biografia de cada um, e que têm transformado a eleição em uma competição de malfeitos. Não deveria ser assim.
Voltando a Mario Covas. Candidato à Presidência derrotado em 1989, ele brigou dentro do seu partido, o nascituro PSDB, para que a sigla apoiasse Lula contra Fernando Collor de Mello. Defendeu o petista publicamente, fez campanha, foi às ruas. O argumento do engenheiro Covas era cartesiano: coerência histórica, compromisso democrático e rejeição ao que Collor representava. De novo, é o que está em jogo.
Mary Zaidan é jornalista

