
Barbie envolvida em escândalo! (por Eduardo Fernandez Silva)
A Warner Bros. não revela a cifra, mas concorrentes estimam em mais de US$150 milhões a quantia gasta em propaganda do filme

Quem diria, a boneca tão “certinha” envolvida em escândalo global! Aliás, não é a primeira pessoa “acima de qualquer suspeita” envolvida em escândalo! A boneca é “certinha” – será? – porque é loura, tem mansão, iate, avião particular, milhares de roupas e sapatos e, como dito em diversas publicações sobre o filme, promove um “estilo de vida”. Não se trata de escândalo sexual, ou político, ou roubo. Ou, talvez, seja tudo isso, ainda que muitos o achem “normal”, confundindo frequência com normalidade.
Meu primeiro choque foi quando li num jornal: “o que vestir para assistir ao filme Barbie?” Eu jamais vira um periódico discutir qual roupa usar para ir ao cinema. Curioso com a extensão das manifestações acerca do filme e com a profusão da cor rosa nas vitrines, pesquisei sobre sua campanha de marketing.
A Warner Bros. não revela a cifra, mas concorrentes estimam em mais de US$150 milhões a quantia gasta em diversas formas de propaganda, valor superior ao custo do próprio filme: US$145 milhões. Tudo se justifica, dirão muitos, já que na semana do lançamento o faturamento global alcançou US$337 milhões. Se der lucro tudo se justifica, certo?
O vice-presidente de marketing da Warner Bros. afirmou em entrevista que utilizou uma estratégia de “migalhas de pão”, na qual se dava às pessoas pequenos elementos sobre o filme para estimular a curiosidade e gerar conversas. Disse ainda: “em todas as campanhas há elementos de mídia ganhada (comentários em redes sociais, por exemplo), e mídia paga (como anúncios). Algumas das escolhas que fizemos estimulavam a mídia ganha”. Na sequência, informa que “as marcas de moda pularam na nossa carruagem. Elas queriam participar porque viam que o filme estava se tornando parte da cultura de forma dinâmica. Esta deixou de ser uma campanha de marketing para se tornar um movimento.”
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA estratégia de “migalhas de pão” lembra a estória de João e Maria, que se perderam após os pássaros comerem as migalhas com as quais pretendiam marcar o caminho para o retorno à segurança. Embora no conto o final seja feliz, nem sempre é assim.
Como a campanha da Warner Bros. é uma espécie de música composta e executada com o objetivo de ganhar dinheiro mediante o “encantamento” das pessoas, lembra também a estória do flautista de Hamelin, aquele que com sua flauta conduziu os ratos à extinção e, depois, tendo sido enganado pela promessa não cumprida pelo prefeito, deu às crianças daquela cidade o mesmo destino dos roedores.
O escândalo está em que o episódio do marketing do filme confirma a ideia proposta por Edward Bernays, autor de “Propaganda”, livro de cabeceira de Joseph Goebbels, o marqueteiro de Hitler. Segundo Bernays, em nossa sociedade somos conduzidos por desconhecidos – quem sabe quem é o marqueteiro da Warner Bros.? – que, mediante técnicas de manipulação das emoções humanas, nos levam a agir conforme os objetivos daqueles desconhecidos/conhecidos.
Como se sabe, o “estilo Barbie de vida” aquece o planeta e destrói a biosfera; o flautista de Hamelin não faria melhor! Há escândalo, também, em que, nessa altura do processo de destruição das bases da vida, praticamente inexistam comentários que questionem a ética dessa propaganda!
Eduardo Fernandez Silva. Mestre em Economia. Ex-Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados

