
A saga do petróleo brasileiro (por Luiz Paulo Vellozo Lucas)
Sempre importante lembrar que nem tudo que é bom para a Petrobrás é bom para o Brasil.

O Plano de Governo do segundo governo Vargas (1950) foi orientado pelo acordo Brasil-Estados Unidos na esteira da reconstrução da economia mundial depois da segunda guerra. A criação da Petrobrás e os investimentos estatais na exploração e produção de petróleo em território brasileiro eram pontos de total convergência entre o desenvolvimentismo brasileiro de Getúlio Vargas e os interesses das multinacionais norte americanas.
O nacional desenvolvimentismo, liderado pelo governo Vargas, fez convergir todo o espectro político brasileiro na campanha do “Petróleo é nosso”, que tentou esconder esta convergência afim de alimentar uma narrativa nacionalista heroica para o esforço brasileiro em descobrir e produzir petróleo. Walter Link, geólogo norte americano, oriundo da Standard Oil , liderou as equipes de exploração e produção da Petrobrás nos primeiros anos. Com uma produção anual pequena, o relatório Link, divulgado na segunda metade dos anos 60, era pessimista em relação `as possibilidades de descobertas importantes (“Bonanza Oil” ) em campos terrestres. Sugeria que a Petrobrás passasse a atuar no exterior e no “off shore”.
Nos anos setenta o panorama do mercado internacional se altera radicalmente com os dois choques do petróleo: Em 1974 na criação da OPEP e em 1979 com a queda do Xá do Irã. No Brasil vivíamos a aposta dobrada pelos militares na substituição de importações, com o II PND- Plano Nacional de Desenvolvimento. A criação do Pró-álcool e a exploração de petróleo e gás “off shore” na bacia de Campos, foram duas decisões estratégicas acertadas e muito importantes deste período.
Em 1995, Fernando Henrique Cardoso lidera, no setor de petróleo, uma reforma fundamental para consolidar a estabilização da moeda e o equilíbrio macroeconômico do Brasil. Tirou o monopólio da Petrobrás da Constituição e com a Lei 9478/97 criou um marco regulatório novo para a economia do petróleo mantendo a propriedade da União e criando um ambiente concorrencial. Em dez anos, entre 1997 e 2007, o setor petróleo passou de 2% para 10% do PIB; a produção de óleo dobrou e as participações governamentais saíram de 0,2 para 15 bilhões de Reais.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA Petrobras América, subsidiaria integral sediada em Huston, foi criada para explorar no Golfo do México e a internacionalização da empresa foi um sucesso inclusive com o lançamento de ações na Bolsa de Nova York. A motivação principal não era mais a autossuficiência e o balanço de pagamentos. Os combustíveis e demais derivados teriam tratamento de mercado como toda a estrutura produtiva do país. O crescimento e o sucesso internacional da maior empresa brasileira com capital aberto, seriam orientados para gerar riqueza para o Brasil.
A descoberta do pré-sal confirmou o acerto da estratégia adotada para aumentar o investimento, a produção e a economia do petróleo no Brasil, representada pela Lei 9478/97. Depois da descoberta do pré-sal em 200 , o segundo governo Lula aderiu `a narrativa sindicalista, enciumada pelo sucesso de empresas privadas, nacionais e estrangeiras no setor petróleo no Brasil, e empreende uma contra reforma pseudonacionalista afim de restaurar a propriedade estatal da Petrobrás em todas as atividades “do poço ao posto”. Uma nova campanha do “Petróleo é nosso” embala o marketing do governo para aprovar e implantar a contra reforma em 2010.
Dilma Roussef foi eleita em 2010 no embalo da euforia do petróleo do pré sal. O PIB cresceu 7,5% no ano e onze estaleiros controlados pelas grandes construtoras e distribuídos pela costa brasileira atendiam as encomendas do plano de investimento da Petrobrás que chegou a 400 bilhões de dólares. O plano de investimento em novas refinarias não era menos ambicioso, afinal teríamos que processar os bilhões de barris do pré-sal e não poderíamos nos conformar em sermos meros exportadores de óleo bruto.
Os governos do PT desmontaram a estratégia de fazer a Petrobrás ser uma “corporation” sem dono, com atuação global e governança corporativa, com capital aberto nas bolsas de valores do mundo e tendo os trabalhadores brasileiros como acionistas privilegiados através do uso do FGTS para aquisição de ações da empresa. Querem gerir a empresa como uma repartição, intervir nos preços de combustíveis e obter resultados de curto prazo positivos no barateamento do custo de vida e também aprovação em pesquisas de opinião. O governo Bolsonaro também agiu assim.
Não tenho dúvida que o governo Lula vai acabar autorizando a pesquisa e a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas, a chamada margem equatorial entre os estados do Amapá e Rio Grande do Norte. A entrada do Brasil na OPEP está indicando o inicio de uma nova etapa, um novo protagonismo com novas responsabilidades do setor petróleo, no Brasil e no mundo.
Acho essa decisão acertada ainda que seja sempre importante lembrar que nem tudo que é bom para a Petrobrás é bom para o Brasil.
*Engenheiro, Mestre em Desenvolvimento Sustentável, ex-prefeito de Vitória-ES , Membro da ABQ- Academia Brasileira da Qualidade.

