
O ressentimento vai às urnas (por Marcos Magalhães)
O peso político do ressentimento ainda é grande, mas também tem seus limites. Isso vale para os dois lados do Atlântico Norte

Era uma manhã de sexta-feira, na estação de metrô junto ao Terminal Tietê, em São Paulo. Em meio a trabalhadores agasalhados para se proteger do frio das seis horas, um homem comenta com o amigo: “agora é que vão mesmo ficar em casa sem fazer nada, só recebendo o auxílio”.
Era uma referência ao recente reajuste de 15% da Bolsa Família, cujo valor mínimo por unidade familiar havia passado para R$ 691. O comentário foi feito em tom indignado e em voz alta, para que todo o vagão pudesse ouvir.
O homem estava revoltado por acreditar que R$ 91 a mais por mês na conta de uma família pobre estimulariam a preguiça. Ou tornaria os beneficiários, especialmente das regiões mais pobres, sanguessugas do país.
Em algum momento, o sentimento de solidariedade – que levou o programa Bolsa Família a ser reconhecido como exemplo de política pública de combate à pobreza – começou a ser, pelo menos parcialmente, substituído por uma espécie de ressentimento.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesSegundo um raciocínio típico da direita mais radical, ajudar os mais pobres a sobreviver – especialmente aqueles do distante Nordeste – seria como aceitar a pura vagabundagem.
No Brasil, especialmente no Sul e no Sudeste, o argumento ganha tons de desprezo regional. Algo como se o Brasil rico tivesse que sustentar os pobres nordestinos. Nos países mais ricos do Ocidente, o preconceito vai mais longe: a culpa é dos imigrantes de suas periferias.
O ressentimento que toma conta de trabalhadores desempregados em locais como o Cinturão da Ferrugem, nos Estados Unidos, alimenta a aderência a discursos de um populista de direita como o presidente Donald Trump.
América primeiro, repetiu Trump durante a sua campanha. Ao chegar à Casa Branca, com o apoio entusiasmado dos ressentidos, iniciou sua ofensiva contra os imigrantes e acionou sua metralhadora comercial até contra tradicionais parceiros.
A alguns meses de completar metade de seu segundo mandato, Trump tem apoio de apenas 32% dos eleitores, a mais baixa taxa de sua carreira política. E vai enfrentar em breve eleições legislativas que poderão mudar o cenário político dos Estados Unidos.
Na Europa, tomada pela sensação de decadência econômica acompanhada da perda de peso político, o ressentimento se virou contra imigrantes africanos, árabes e mesmo aqueles provenientes do leste do Velho Continente.
No meio de uma intensa competição entre Estados Unidos e China, muitos europeus desanimados com seu futuro também se tornaram presas fáceis do discurso xenófobo. Não aceitam pagar benefícios a estrangeiros mais pobres e os culpam pelo desemprego.
A ascensão da Aliança pela Alemanha, partido habitado por neonazistas, mostra o tamanho do ressentimento. No início de setembro, os eleitores da Saxônia deram 44% dos votos à agremiação. No último domingo, foi a vez de os eleitores da Pomerânia lhe concederem 38% dos votos.
Em nenhum dos dois estados, porém, a AfD deve chegar ao governo. Isto porque o partido precisaria de aliados para alcançar maioria nos parlamentos regionais. E as demais agremiações ainda formam uma espécie de “cordão sanitário” para evitar que os neonazistas cheguem ao poder.
O peso político do ressentimento ainda é grande, mas também tem seus limites. Isso vale para os dois lados do Atlântico Norte.
A insatisfação com as medidas radicais de Trump abriu espaço para o crescimento da ala esquerda do Partido Democrata. A eleição para prefeito de Nova York do socialista Zohran Mamdani, que na segunda-feira recebeu a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é exemplo disso.
Depois da capital do mundo, a esquerda conquistou também a capital do maior país da União Europeia. A socialista Elif Eralp tem boas chances de se tornar a nova prefeita de Berlim, depois de seu partido obter 25% dos votos dos eleitores da cidade.
A carismática Elif não vem de um partido tradicional da social-democracia europeia. Ela integra o Die Linke, ou A Esquerda, movimento herdeiro dos antigos comunistas da Alemanha Oriental. E deve buscar apoio dos Verdes e do Partido Social-Democrata para se tornar prefeita.
A ascensão meteórica do populismo de direita estará com os dias contados?
A recente vitória dos social-democratas na Suécia, por estreitíssima margem, pode indicar uma tendência na Europa. Os trabalhistas estão de volta ao governo do Reino Unido. E a batalha mais importante está por vir na França, que, em 2027, elege o sucessor de Emmanuel Macron.
E no Brasil? A imprevisível eleição de outubro é acompanhada de perto pela administração Trump. Há indícios de que o presidente dos Estados Unidos poderá não reconhecer uma possível vitória de Lula, na disputa contra seu preferido Flávio Bolsonaro.
Pois, em vários outros países da América do Sul, essa mesma possível vitória de Lula é vista com esperança por movimentos políticos em desacordo com a ascensão quase unânime da direita radical no subcontinente.
Não será fácil, como alertam as pesquisas. Assim como nos ricos países ocidentais os populistas de direita culpam os imigrantes pelos problemas na economia, por aqui a mesma direita ainda insufla ressentimentos como o do passageiro do metrô de São Paulo.
Os mais pobres que se virem, parecem dizer, e que não contem com auxílios como a Bolsa Família. Os auxílios mudam de nome e de endereço. Em Nova York e Berlim, onde os aluguéis são muito altos e a esquerda se saiu vitoriosa, terão a forma de subsídio à moradia popular.
De qualquer forma, o discurso raivoso da direita mais radical pode começar a perder seu encanto. Não será da noite para o dia, não será fácil. Mas a oferta de soluções mais generosas e solidárias pode, em algum momento, reencontrar o seu charme.

