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A guerra e a imaginação (por Gaudêncio Torquato) 

A guerra destrói primeiro a imaginação e só depois as cidades

02/08/2026 10:00
Arte Metrópoles/Lygia
Imagem colorida de arte de drones na Ucrânia - METRÓPOLES

A guerra destrói primeiro a imaginação e só depois as cidades. Antes de reduzir prédios a escombros, ela elimina a capacidade de sonhar, planejar e criar. Como observou o escritor ucraniano Andrey Kurkov, na última Festa Literária Internacional de Paraty, “a imaginação morre quando a guerra começa”. Não se trata apenas de uma frase literária, mas de um retrato preciso da violência organizada: a guerra não mata somente pessoas, mata possibilidades. O primeiro bombardeio não atinge apenas um edifício — atinge o futuro.

Desde Homero, que cantou a Guerra de Troia, até Tolstói, em Guerra e Paz, passando por Erich Maria Remarque, em Nada de Novo no Front, e Svetlana Alexievich, cronista das tragédias soviéticas, a literatura registra que toda guerra impõe uma profunda mutilação espiritual. A criatividade, que em tempos de paz constrói, inventa e aproxima, converte-se em instrumento de sobrevivência. O homem deixa de pensar no amanhã para concentrar todas as energias no instante seguinte. A pergunta deixa de ser “como viver melhor?” e passa a ser “como permanecer vivo até amanhã?”.

A imaginação é o combustível do progresso humano. Foi ela que ergueu catedrais, inspirou sinfonias, desenhou máquinas, descobriu vacinas, inventou democracias e permitiu que o homem alcançasse a Lua. É também a base da convivência social, pois imaginar significa colocar-se no lugar do outro, compreender suas dores, antecipar consequências, construir consensos. Quando a guerra se instala, essa faculdade encolhe. O medo ocupa o espaço antes reservado à criatividade.

Não por acaso, as grandes guerras do século XX produziram gerações marcadas por silêncios. Muitos combatentes voltaram incapazes de narrar o que viveram. Outros recorreram à literatura décadas depois, quando a memória já conseguia organizar o caos. Primo Levi precisou transformar Auschwitz em testemunho para que a barbárie não se repetisse. Viktor Frankl encontrou sentido na existência justamente ao descrever a devastação dos campos de concentração. A imaginação reapareceu, mas somente depois de atravessar o deserto da dor.

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A guerra altera até mesmo a linguagem. Palavras como infância, futuro, escola, concerto, teatro e festa cedem lugar a bombardeios, sirenes, drones, trincheiras, refugiados e cemitérios. A gramática da esperança é substituída pelo vocabulário da sobrevivência. As crianças aprendem a distinguir o som de um míssil antes de conhecer o canto dos pássaros. O cotidiano transforma-se numa contagem regressiva entre uma explosão e outra.

É por isso que a reconstrução de um país não termina quando cessam os disparos. Reerguer edifícios é tarefa relativamente rápida. Muito mais difícil é reconstruir a confiança, a esperança e a capacidade coletiva de imaginar um futuro comum. As cidades podem ser restauradas em poucos anos; as almas, às vezes, levam gerações.

Vivemos, neste século, uma sucessão inquietante de conflitos — da Ucrânia ao Oriente Médio, passando por guerras esquecidas na África e na Ásia — transmitidos em tempo real pelas telas dos celulares. Nunca a humanidade viu tanta guerra ao vivo. Paradoxalmente, essa exposição contínua parece banalizar a violência. A tragédia transforma-se em estatística, e as imagens repetidas anestesiam a sensibilidade. Corremos o risco de perder não apenas a imaginação dos que estão em guerra, mas também a capacidade de indignação dos que a observam à distância.

Albert Einstein advertia que não sabia com que armas seria travada a Terceira Guerra Mundial, mas a Quarta seria combatida com paus e pedras. A frase continua atual porque revela que toda guerra representa uma regressão civilizatória. Décadas de progresso podem ser destruídas em poucas semanas. O desenvolvimento humano depende da paz; a destruição depende apenas da intolerância.

No fundo, a observação de Andrey Kurkov contém uma lição política e moral. A paz não significa apenas a ausência de tiros. Significa a preservação daquilo que torna a humanidade verdadeiramente humana: sua capacidade de criar, inventar, sonhar e acreditar no amanhã. Enquanto houver imaginação, haverá futuro. Quando ela morre, a guerra já conquistou sua vitória mais devastadora, mesmo antes da última batalha.

GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político