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Blog do Noblat - 22 anos

A floresta também tem CNPJ (por Roberto Caminha Filho)

Isso é mais uma simpática e enorme mentirinha. A floresta só ficará realmente de pé quando o povo também estiver de pés e voando

27/07/2026 10:13
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Biodiversidade da floresta Amazônica-Metrópoles

Durante muito tempo, o planeta Terra aprendeu a falar da Amazônia como se ela fosse apenas uma imensa paisagem verde. De longe, muita gente passou a tratar a Amazônia como um jardim sagrado da humanidade, onde tudo deve ser preservado, fotografado e defendido, esperando o dia em que os brancos dirão:

– Agora, saiam! Nós, os que soubemos preservar as nossas florestas, os nossos búfalos, ursos e os nossos índios, iremos mostrar como se vive no Paraíso.

Preservar é necessário. Ninguém de bom juízo deseja destruir a maior floresta tropical do planeta. Mas existe uma pergunta que quase nunca aparece com a força que merece: e as pessoas que vivem dentro dela? E os brasileirinhos?

Tem pescador, agricultor, artesão, pesquisador, professor, barqueiro, cozinheira, indígena, ribeirinho, empresário, guia de turismo, estudante, artista, cientista, extrativista e jovem querendo trabalhar sem precisar abandonar sua terra.

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Por isso, chegou a hora de dizer com clareza:

– Dentro da floresta também tem CNPJ.

A Amazônia pode produzir muito mais do que oxigênio. Durante anos, tentaram nos empurrar uma escolha falsa: ou a floresta fica de pé ou o povo trabalha.

Isso é mais uma simpática e enorme mentirinha. A floresta só ficará realmente de pé quando o povo também estiver de pés e voando.

Ninguém exige preservar melhor do que quem encontra renda, dignidade e futuro no lugar onde nasceu, trabalha e produz. Quando a floresta vira oportunidade, ela deixa de ser vista como obstáculo e passa a ser tratada como patrimônio vivo. Patrimônio que alimenta, educa, emprega e orgulha. Imaginem se o caboclo e o índio vão deixar o branco detonar um lago cheio de peixes, tartarugas e patos. Haveria uma guerra silenciosa com flechas, zarabatanas e venenos.

O Brasil e o mundo precisam parar de olhar para a Amazônia apenas como problema ambiental. Ela é também uma solução econômica. Talvez uma das maiores soluções econômicas do século XXI.

O mundo procura alimentos saudáveis. A Amazônia tem. O mundo    procura novos medicamentos. A Amazônia pode oferecer pistas. O mundo procura turismo de experiência. A Amazônia é uma aula viva. O mundo procura cultura autêntica. A Amazônia canta, dança, cozinha, conta histórias e encanta. O mundo procura uma economia mais inteligente. Isso tudo é aqui, na Amazônia!

Só precisamos de crédito, internet, energia confiável, estradas responsáveis, portos decentes, assistência técnica, universidades fortes, pesquisa aplicada, cooperativas modernas, marcas amazônicas, embalagem bonita, certificação, logística e mercado. Coisinhas que os americanos e os europeus já possuem nos seus resorts.

O brasileirinho dos barrancos conhece a floresta, os rios e os lagos. Falta o Brasil transformar esse conhecimento e dar o seu real valor. A comunidade sabe manejar. Falta o Brasil comprar com respeito. O jovem amazônida tem talento. Falta oportunidade para que ele não precise escolher entre ficar sem futuro ou ir embora, deixando que o tráfico internacional tome conta da sua terra.

A Amazônia não quer ser museu, e se for, que seja o Louvre ou o Del Prado, onde você só chega, pagando, para eles ficarem melhores…a cada dia.

A Amazônia quer ser e ter futuro. Temos que acabar com os arautos do caos na floresta, rios e lagos. Esses monstros ficam fazendo discursos, das praias e ar condicionados de Ipanema, Copacabana, Faria Lima e shoppings da belíssima Avenida Paulista.

Um futuro em que o deliciosos açaí, camu camu e buriti saiam das cuias para conquistar o mundo com valor agregado. Em que o pirarucu manejado, gere renda sem acabar com rios e lagos. Em que a castanha pague escola, saúde e internet. Em que a floresta inspire cosméticos, remédios, filmes, músicas, livros, restaurantes, aplicativos, turismo e empresas.

A grande revolução brasileira não virá de um palácio, de uma bolsa de valores ou de uma avenida cheia de prédios espelhados. Virá de uma cooperativa de mulheres que transformou óleo da floresta em cosmético. De um pesquisador de Manaus que descobriu uma nova e salvadora aplicação para o óleo da copaíba, da andiroba ou de um veneno da terrível surucucu pico-de-jaca. De um pescador que entendeu que peixe vivo, bem manejado, vale mais do que um lago vazio.

A floresta também tem CNPJ. Quando o Brasil compreender isso, deixará de perguntar apenas quanto custa preservar a Amazônia.

Passará a perguntar quanto o país pode ganhar quando aprende a fazer da floresta em pé uma economia que voa. Será exatamente, nesse dia, que os amazônidas deixarão de ser apenas os fiscais do quintal verde do mundo e passarão a usufruir do paraíso na Terra.

Roberto Caminha Filho, economista, acredita nos livros franceses onde líamos: A Riqueza vem do Solo.