
A falta que um sonho faz (por Marcos Magalhães)
A um mês de eleições cheias de hostilidade e desencanto, soa raro falar de utopia

A um mês de eleições cheias de hostilidade e desencanto, soa raro falar de utopia. Mas a palavra que hoje ganha uma roupa quase pejorativa inspirou no início da semana um raro debate sobre as possibilidades do país no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.
Na ampla, branca e futurista sede do museu projetado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, inaugurada há 10 anos à beira da Baía de Guanabara, especialistas em ciências e humanidades apresentaram suas perspectivas no Brasil Futures Forum.
Entre eles, o professor de Ecologia Fábio Scarano, curador do Museu do Amanhã e titular da cátedra Unesco de Alfabetização em Futuros.
Ele lembrou que as cartas escritas no Brasil pelo navegador italiano Américo Vespúcio em 1502, reunidas no livro Mundo Novo, inspiraram o filósofo inglês Thomas Morus a escrever o seu mais famoso livro, A Utopia.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesTopos, recordou o professor, significa lugar. E a palavra derivada utopia poderia significar um não lugar ou um bom lugar. De qualquer forma, um lugar que se confunde com um ponto de chegada, ali onde finalmente a sociedade viveria em harmonia.
Como esse futuro perfeito nunca vai existir, tornou-se lugar comum desclassificar como utópicos projetos de um mundo melhor. Mas utopia, lembrou Scarano, tem mais a ver com o percurso do que com um imaginário ponto de chegada.
“Utopia é o caminho, o desejo por um mundo melhor”, definiu o professor.
Em conexão por internet, o professor inglês Rob Hopkins prosseguiu o debate ao dizer que evita a palavra utopia porque ela sempre lembra alguma coisa tão perfeita que sempre parece estar muito longe de nós.
“As histórias de que precisamos nós devemos iniciar agora”, disse Hopkins, autor do livro Como se apaixonar pelo futuro. “E a regeneração tem que começar com a imaginação”.
Imaginar futuros nasce de algum tipo de otimismo. Não aquele otimismo cego, mas o que se dispõe a ver o presente e imaginar como aquilo que hoje vemos pode se transformar. E esse otimismo, como lembrou Hopkins, se alimenta da imaginação de um mundo melhor.
Aqui desse lado do Atlântico, no esquecido Hemisfério Sul, a imaginação está em falta. O momento seria perfeito para apresentar novas ideias. Os próximos quatro anos dependerão do desempenho dos que serão escolhidos em outubro para comandar o país.
Até aqui, porém, o mundo político está muito mais envolvido em ataques do que na elaboração e na apresentação de propostas para um futuro mais promissor.
Tudo isso se reflete em desinteresse e ceticismo. O país permanece visto como um lugar de grande potencial. Grandes recursos naturais, vasto potencial em riquezas do futuro, como terras raras. Mas um potencial desperdiçado por políticos de curta visão e grandes ambições.
Vai demorar para superar a apatia e o desencanto, depois de vários anos dominados por uma estéril cilada política. Uma armadilha que nos prende a uma guerra verbal sem vencedores.
Faltam sonhos ao Brasil. Sonhos que tivemos no passado recente e que foram atropelados pela guerrilha eletrônica política movida por quem imagina um passado perfeito que nunca existiu.
Os reacionários buscam esse passado imaginado. Não vai funcionar. Também não podemos cair na armadilha do futuro perfeito, como o debate no Museu do Amanhã nos fez lembrar.
Mas a imaginação está aí para nos mostrar que, sim, novos futuros são possíveis. E esses futuros dependem das escolhas que fazemos todos os dias.

