Antes do Pix: as experiências africanas de pagamentos digitais

Experiências do Quênia (2007), da Nigéria (2011) e da Etiópia (2021) mostram que não existe um único modelo de sucesso

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O Pix foi a personagem da semana. Atacado por Trump – com ajuda de Flávio e Eduardo – , foi defendido pelo governo e aliados, que fizeram uma grande campanha nas redes sociais e obrigaram o bolsonarismo a recuar. Para completar, viralizou o vídeo em que Jair Bolsonaro, quando ainda presidente, mostrou desconhecer o lançamento do sistema de pagamento. Quando o Pix foi lançado pelo Banco Central em novembro de 2020, foi uma das maiores inovações financeiras do planeta. No entanto, muito antes do Brasil, diversos países africanos já desenvolviam soluções inovadoras para enfrentar um desafio de levar serviços financeiros a populações que sequer possuíam conta bancária.

A experiência africana demonstra que a inovação nem sempre surge nos países mais ricos ou nos mercados financeiros mais sofisticados. A necessidade de inclusão financeira impulsionou a criação de sistemas que permitiram a milhões de pessoas acessar serviços de pagamento, crédito e poupança utilizando apenas um telefone celular. O caso mais emblemático é o do M-Pesa, criado em 2007 pela empresa queniana Safaricom em parceria com a britânica Vodafone

Na época, o Quênia possuía uma população majoritariamente excluída do sistema bancário tradicional. Abrir uma conta era caro, burocrático e muitas vezes impossível para moradores de áreas rurais. O M-Pesa surgiu para resolver esse problema permitindo que usuários depositassem dinheiro em agentes credenciados e realizassem transferências por meio de mensagens de celular. O sucesso foi imediato. Em poucos anos, o sistema tornou-se parte da infraestrutura econômica do país, sendo utilizado para pagamentos de salários, compras no comércio, envio de remessas familiares e até operações de crédito.

Hoje, segundo dados da própria Safaricom e reportagens da agência Reuters, o M-Pesa conta com mais de 35 milhões de usuários ativos apenas no Quênia, em uma população de aproximadamente 55 milhões de habitantes. Estimativas frequentemente citadas por pesquisadores e organismos internacionais indicam que cerca de 90% dos adultos quenianos utilizam algum serviço de dinheiro móvel, tornando o país líder mundial nesse segmento.

O sucesso, entretanto, trouxe controvérsias. Economistas e autoridades regulatórias passaram a discutir o enorme poder de mercado acumulado pela Safaricom, responsável por uma parcela significativa das telecomunicações e dos pagamentos digitais do país. Também surgiram preocupações relacionadas à privacidade dos usuários, à proteção de dados e ao aumento de fraudes digitais. Mesmo assim, poucos especialistas contestam o papel transformador desempenhado pelo M-Pesa na economia queniana.

A influência do M-Pesa ultrapassou rapidamente as fronteiras do Quênia. Após o sucesso inicial, a Safaricom e sua parceira britânica Vodafone iniciaram a expansão do serviço para outros mercados africanos e asiáticos. O sistema foi implementado em países como Tanzânia, Moçambique, República Democrática do Congo, Lesoto, Gana e Egito, além de experiências em regiões fora da África

Se o Quênia se tornou símbolo da inclusão financeira por meio do celular, a Nigéria desenvolveu o sistema que mais se aproxima tecnicamente do Pix brasileiro. Trata-se do NIBSS Instant Payment (NIP), criado em 2011 pela Nigeria Inter-Bank Settlement System, entidade responsável pela infraestrutura de compensação bancária do país. Diferentemente do M-Pesa, que nasceu em uma operadora de telefonia, o NIP foi concebido como uma rede que conecta bancos, fintechs e instituições financeiras em tempo real.

Dados divulgados pela NIBSS mostram que, somente em 2024, o sistema processou aproximadamente 10,5 bilhões de transações, movimentando cerca de 1,07 quatrilhão de nairas, o que equivale a aproximadamente 700 bilhões de dólares. O crescimento reflete o esforço do Banco Central da Nigéria para reduzir o uso de dinheiro em espécie e acelerar a digitalização dos pagamentos em uma das maiores economias africanas.

Assim como ocorreu no Brasil após a popularização do Pix, a expansão dos pagamentos instantâneos na Nigéria foi acompanhada pelo aumento de golpes e fraudes eletrônicas. O debate regulatório passou a envolver questões como segurança cibernética, proteção ao consumidor e a competição entre bancos tradicionais e fintechs. Apesar desses desafios, o sistema é considerado um dos mais avançados do continente e uma referência para outros países africanos que buscam modernizar suas infraestruturas financeiras.

Outra experiência relevante é a da Etiópia, que lançou em 2021 o Telebirr, plataforma criada pela estatal Ethio Telecom. O projeto surgiu em um contexto de reformas econômicas e abertura gradual do mercado de telecomunicações. Em apenas alguns anos, o Telebirr alcançou mais de 50 milhões de usuários, número impressionante para um país cuja população gira em torno de 120 milhões de habitantes. Segundo informações divulgadas pela Ethio Telecom e reportadas pela Reuters, a plataforma já movimentou trilhões de birr em transações desde sua criação.

O crescimento acelerado do Telebirr tem sido visto pelo governo etíope como instrumento fundamental para ampliar a inclusão financeira e estimular a digitalização da economia. No entanto, também existem críticas relacionadas à forte participação estatal na operação do sistema, às dificuldades de integração com instituições privadas e aos riscos decorrentes da concentração de informações financeiras em uma plataforma controlada pelo governo.

As experiências do Quênia, da Nigéria e da Etiópia mostram que não existe um único modelo de sucesso para os pagamentos digitais. O M-Pesa revolucionou a inclusão financeira ao transformar o telefone celular em uma agência bancária portátil. O NIBSS Instant Payment criou uma infraestrutura nacional de pagamentos instantâneos comparável às mais modernas do mundo. O Telebirr busca repetir esse processo em uma das maiores populações da África.

Embora o Pix tenha se tornado um caso de sucesso internacional, a história dos pagamentos digitais mostra que algumas das experiências mais ousadas e transformadoras surgiram no continente africano. Muito antes de os brasileiros começarem a utilizar chaves Pix para transferir dinheiro em segundos, milhões de africanos já utilizavam seus celulares para realizar operações financeiras que mudariam profundamente a relação entre tecnologia, inclusão social e desenvolvimento econômico.

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