Corregedoria apura se delegada deixou de investigar João de Deus

Segundo assessoria do MPGO, a policial também teria permitido que a vítima sofresse constrangimento dentro da delegacia

atualizado

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Filipe Cardoso/Especial para o Metrópoles
Brasília(DF), 12 e 13/12/2018, João de Deus é acusado de asse
1 de 1 Brasília(DF), 12 e 13/12/2018, João de Deus é acusado de asse - Foto: Filipe Cardoso/Especial para o Metrópoles

A Polícia Civil de Goiás informou nesta sexta-feira (25/1) que a Corregedoria instaurou uma investigação preliminar contra uma delegada de Abadiânia (GO) e outros servidores da corporação. O objetivo é apurar se eles teriam deixado de investigar uma denúncia contra João de Deus, em 2016. O pedido de investigação foi feito pelo Ministério Público local (MPGO).

De acordo com as denúncias, a policial também teria permitido que a vítima fosse constrangida dentro da delegacia por Sandro Teixeira de Oliveira, filho do médium. O homem foi denunciado nessa quinta (24) por corrupção de testemunhas.

Em 2016, conforme explicado por promotores da força-tarefa criada para investigar as denúncias de violência sexual na Casa Dom Inácio de Loyola, uma mulher abusada por João de Deus compareceu à delegacia de Abadiânia na companhia de uma testemunha para registrar boletim de ocorrência. No dia seguinte, o denunciado teria sido informado do registro policial de forma extraoficial.

O médium e seu filho foram até a testemunha em um município localizado do norte de Goiás, onde ela residia. A mulher teria sido coagida por meio do uso de arma de fogo para que se calasse acerca dos fatos e retirasse a ocorrência. Além da coação, segundo o MPGO, houve a tentativa de comprar o silêncio dela com pedras e cristais preciosos.

Para a força-tarefa, esse fato não foi devidamente apurado. O inquérito policial foi instaurado apenas dois anos depois, em decorrência de uma requisição feita pelo Ministério Público à Diretoria-Geral da Polícia Civil.

“O que chama atenção não é apenas o fato de o relato não ter sido apurado, mas uma série de constatações que comprovam a existência de uma rede de proteção em torno do líder espiritual, não se limitava apenas a funcionários da Casa Dom Inácio de Loyola”, afirma o promotor Augusto César Souza. “Essa blindagem é o que permitiu que ele cometesse os crimes de maneira impune por tanto tempo.”

Nova denúncia
João de Deus foi denunciado mais uma vez nessa quinta-feira (25) por abusos sexuais supostamente cometidos durante os atendimentos em Abadiânia. A denúncia partiu do Ministério Público de Goiás, que também acusa o líder religioso e sua esposa de posse ilegal de arma de fogo, além de corrupção de testemunhas.

“Essa corrupção e coação reforçam a necessidade de proteger as testemunhas durante os depoimentos e na fase processual”, disse, na denúncia, a promotora de Justiça Gabriella Clementino.

Uma das denúncias enviadas ao Poder Judiciário é composta por cinco casos de estupro de vulnerável, sendo que uma das vítimas é do Distrito Federal, e as demais, de São Paulo. Os abusos teriam acontecido de março de 2010 a julho de 2016.

Na denúncia, constam relatos de outras seis mulheres que dizem ter sido abusadas pelo médium. Os casos aconteceram entre 1996 e 2009. Na época dos abusos, as vítimas tinham entre 23 e 53 anos. Apesar de esses crimes já terem prescrito, servem para embasar o relato das demais denunciantes.

Neste 2019, o Metrópoles inicia um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país. Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.

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