Samantha Canovas integra mostra Constelações Contemporâneas no DF
Artista brasiliense integra a mostra Constelações Contemporâneas com pesquisa que subverte a hierarquia entre arte e artesanato
atualizado
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O tecido, muitas vezes relegado ao universo doméstico ou ao artesanato, ganha status de protagonista nas mãos de Samantha Canovas. Graduada pela UnB e mestre pela USP, a artista é um dos destaques da exposição Constelações Contemporâneas da Cena Artística de Brasília, realizada pelo Metrópoles no Teatro Nacional Claudio Santoro.
Sua produção, que transita entre a pintura, o objeto e a performance, propõe um diálogo profundo sobre a matéria, o tempo e as questões de gênero intrínsecas às práticas têxteis.
Entenda
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Foco no material: Samantha iniciou na pintura, mas redirecionou sua pesquisa para o tecido (linho e lona) como objeto, explorando o gesto obsessivo do desfiado.
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Experiências globais: residências artísticas em Nova York (EUA) e na Islândia consolidaram sua transição da tela pintada para a matéria têxtil e a prática sustentável.
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Quebra de hierarquias: a artista contesta a visão histórica que classifica a arte têxtil como “arte menor” ou apenas artesanato devido a bases patriarcais.
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Multifacetada: além de artista visual, é curadora focada em arte têxtil e escritora, tendo publicado o livro de poesias “Estar Viva é Esquisitíssimo” em 2025.

Do chassi ao desfiado: a descoberta da matéria
A trajetória de Samantha Canovas é marcada por uma “recusa” produtiva. Embora tenha formação acadêmica clássica em artes plásticas, ela descobriu que seu interesse residia mais no ato de esticar o tecido sobre o chassi do que na fabulação de imagens sobre ele.
“Entendi a pintura a partir da perspectiva dela enquanto objeto”, revela.
Essa obsessão pelo material a levou a desenvolver um método processual lento: o desfiado. Ao retirar linha por linha do linho, Samantha cria volumes que descreve como “quase líquidos”.
Essa técnica não é apenas estética, mas uma investigação sobre o tempo e o esforço manual, características que marcam sua identidade artística desde que retornou de uma residência na School of Visual Arts (SVA), em Nova York, em 2012.

Arte versus Artesanato: uma briga histórica
Um dos pilares da pesquisa de Canovas é o questionamento das hierarquias artísticas. Para ela, a distinção entre “grande arte” (pintura e escultura) e artesanato (bordado, costura, tecelagem) é fruto de uma construção histórica europeia medieval pautada pelo gênero.
“Parte da minha crença é que não existe essa diferenciação; tudo é arte”, afirma Samantha.
Para sustentar essa tese, a artista ampliou seu “léxico de trabalho”, aprendendo técnicas tradicionais de armarinho, como crochê e bordado, e incorporando materiais inusitados como pelúcia e miçangas. Essa abordagem traz, inclusive, um senso de humor e honestidade à sua produção atual.
A poética da resistência e o retorno à cor
Na mostra Constelações Contemporâneas, o público poderá entrar em contato com obras que desafiam a percepção de fragilidade. Em sua série intitulada “Resistências”, Samantha utiliza tecidos puídos para suportar o peso de pedras.
“O material entendido como frágil mostra sua resistência justamente na junção das linhas. Isso tem um diálogo muito próximo com o que entendemos como feminino”, explica.
Outro destaque é a inclusão de registros de sua performance de um ano (Projeto 366), realizada entre 2019 e 2020, onde investigou o desgaste de uma única peça de roupa usada diariamente. Após anos focada no monocromatismo influenciado pela arquitetura de Brasília, a artista celebra agora o retorno da cor à sua paleta, fazendo as pazes com a pictorialidade após dominar as técnicas têxteis.
Diálogo no Teatro Nacional
Expor no Teatro Nacional Claudio Santoro tem um significado afetivo para a brasiliense. Após anos de fechamento do espaço, ver seu trabalho ocupando o local que frequentava na infância é motivo de celebração.
“A obra só ganha corpo e vida quando está em contato com as pessoas. O encontro com a arte é uma conversa sobre o que trazemos e o que a obra nos devolve”, conclui.
Constelações Contemporâneas da Cena Artística de Brasília
A iniciativa amplia a atuação do Metrópoles no fortalecimento da cena cultural e na defesa de uma arte acessível a todos, apostando na ideia de constelação como fio condutor curatorial — um conceito que propõe encontros, diálogos e múltiplos pontos de vista.
O projeto dá sequência à repercussão positiva da exposição É Pau, É Pedra…, que ocupou o Teatro Nacional com mais de 200 obras de Sergio Camargo e permaneceu aberta ao público de 10 de dezembro de 2025 até 13 de março de 2026.

Confira os nomes dos artistas participantes:
Andre Santangelo, Antônio Obá, Camila Soato, Capra Maia, Carlos Lin, Celso Junior, Christus Nóbrega, Courinos, Davi Almeida, Daniel Jacaré, Daniel Toys, Desirée Feldmann, Gabriel Matos, Gisel Carriconde, Gu da Cei, Helena Lopes, Iris Helena, Karina Dias, Leo Tavares, Luísa Gunther e Dupla Plus, Julio Lapagesse, Marcos Antony, Maria Porto, Marina Fontana, Nelson Maravalhas, Pamela Anderson, Paula Calderon, Patrícia Bagniewski, Raquel Nava, Raylton Parga, Rogério Roseo, Samantha Canovas, Taigo Meireles, Tamires Moreira, Valéria Pena-Costa, Victoria Serendinicki, Patricia Monteiro, Renato Rios, Bruna Zanatta e Virgílio Neto.
A exposição funciona como um manifesto da arte brasiliense, reunindo artistas de diferentes gerações, linguagens e pesquisas que ajudam a construir, diariamente, a identidade cultural do Quadradinho do DF. Com isso, ultrapassa sua herança modernista, apresentando Brasília como um organismo vivo, marcado por dinâmicas culturais, sociais e simbólicas em constante transformação.
ServiçoConstelações Contemporâneas da Cena Artística de Brasília
De 5 de maio a 5 de julho, no Foyer da Sala Villa-Lobos, no Teatro Nacional
Diariamente, das 12h às 20h, com entrada gratuita








