Entenda o que acontece no cérebro da criança durante uma brincadeira
No Dia das Crianças, é importante lembrar que brincar é coisa séria! É nas brincadeiras que as crianças entendem como o mundo funciona
atualizado
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Ao lembrar da infância, é fácil se ver sonhando com tempos mais simples, quando, depois da escola, a única obrigação era brincar. Mesmo quando não era bem assim, quando existiam os deveres de casa, cursos extracurriculares e tarefas domésticas de acordo com a idade, o que ficou marcado na memória foram os momentos de diversão.
Jogar queimada e bete até ficar suado e com o rosto vermelho de tanto correr, ralar os joelhos caindo da bicicleta e a adrenalina de conseguir escapar sem ser visto durante o pique-esconde. Da mesma forma que os adultos pensam nas brincadeiras da infância, as crianças de hoje vão lembrar no futuro. E por isso é necessário reforçar: brincadeira é coisa séria. No Dia das Crianças, é importante entender por que brincar é tão importante, sendo, inclusive, um direito garantido por lei.
“Brincar não é opcional, é essencial para o desenvolvimento da criança. Mais do que passatempo, é uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento físico, emocional, social e cognitivo — em outras palavras, é parte indispensável do crescimento saudável e integral da criança”, afirma, categoricamente, a psicóloga Laís Mutuberria.
Com mais de uma década de experiência em psicoterapia clínica atendendo adultos, casais e adolescentes e ministrando cursos, palestras e eventos voltados ao bem-estar e à saúde mental, a especialista lamenta que muitas pessoas ainda enxerguem a brincadeira como um extra na vida da criança. “Alguns adultos encaram como se fosse quase um luxo, só disponível depois das tarefas cumpridas. Mas os estudos são claros: a brincadeira faz parte de uma vida saudável”, comenta.
Ao afirmar a importância do ato como um dos pilares para uma infância saudável, Laís explica que a brincadeira não é apenas uma diversão. Cada estímulo recebido durante esses momentos contribui para a formação e o fortalecimento das conexões cerebrais.
“Assim, o que é ou não vivenciado nessa fase pode impactar tanto a estrutura do cérebro — em termos de volume e organização — quanto o seu funcionamento – velocidade e processamento”, ensina.
O que acontece quando uma criança brinca
Laís explica que é por meio das brincadeiras que as crianças compreendem o mundo, ampliam a linguagem e exercitam a criatividade. O aspecto lúdico é também um dos aspectos que fortalece as redes neurais que sustentam a aprendizagem e desenvolvem habilidades motoras.
Segundo a especialista, as brincadeiras estimulam diferentes áreas do desenvolvimento, favorecendo a criação de novas redes neurais relacionadas à linguagem, cognição, planejamento, expressão emocional, autorregulação emocional, psicomotricidade e interação social.
É também nesses momentos que a criança encontra um espaço seguro para testar limites, expressar sentimentos, elaborar emoções e aprender a lidar com frustrações — “passos fundamentais para a construção da identidade e da autonomia”.

Jean Luca Lunardi Laureano da Silva, docente do Centro Universitário Módulo e psicólogo clínico, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, Neurociência, Comportamento e Psicopatologia, comenta ainda que o comportamento de brincar é mais complexo do que parece ou demonstra ser.
“São frequentes as demonstrações deste comportamento em outros mamíferos, mas há indícios de que outras classes de animais, como aves, répteis e invertebrados, exercendo comportamentos análogos ao brincar que vemos em crianças humanas”, comenta.
Essas observações, junto a diversos estudos na área são mais uma comprovação de que o brincar está associado ao desenvolvimento de habilidades sociais e de resolução de problemas, bem como da linguagem e cognição.
“Devido ao prazer associado ao brincar, acaba sendo um importante aliado na regulação do estresse e melhora do humor e ansiedade, marcadores psicológicos importantes para as patologias psicológicas e psiquiátricas”, acrescenta.
Os tipos de brincadeira
Os especialistas explicam que cada tipo de brincadeira traz um conjunto próprio de aprendizados. Brincar em grupo fortalece vínculos e habilidades sociais, ao passo que o brincar sozinho pode ensinar a criança a capacidade de se autorregular e ser mais criativa.
- Jogos, empilhar blocos e montar quebra-cabeças
Estimulam o raciocínio lógico, o foco e o autocontrole. Jogos com regras ensinam estratégia, negociação, convivência e tolerância à frustração. Também possibilitam treinamentos de como se adequar às regras e de autocontrole. “Desempenham um papel no desenvolvimento da cognição em geral”, comenta Jean Luca.
Laís reforça: “Ao perder um jogo, a criança aprende a lidar com a frustração. Ao esperar sua vez, desenvolve paciência. Essas situações constroem maturidade emocional. São lições que servirão para toda a vida”.

- Brincar livre (faz de conta e jogos simbólicos)
Expandem a imaginação, a empatia e a capacidade de resolver problemas de forma criativa. “Nesses momentos, a criança se experimenta em diferentes papéis: médico, cozinheiro, herói, mãe ou pai. Ao imitar o mundo adulto, ela não apenas reproduz, mas compreende e reelabora os papéis sociais, encontrando seu lugar no mundo”, acrescenta Laís.
No espaço lúdico, a criança descobre como negociar, compartilhar, superar desafios e criar soluções diante de imprevistos. A especialista comenta que, quanto mais variadas e ricas forem as experiências lúdicas, maiores serão as habilidades que a criança levará para a vida adulta, influenciando sua capacidade de aprender, se relacionar e lidar com diferentes desafios.
Os impactos de não brincar
Além de ser extremamente importante por todos os motivos elaborados pelos especialistas, o brincar é garantido por lei. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), pela lei nº 8.069 de 13 de julho de 1990 em seu artigo 16º inciso III, “o brincar, bem como a prática esportiva e o divertir-se são direitos fundamentais das crianças e adolescentes”.
A instituição da lei, de acordo com Jean Luca, vem relacionada “à mudança histórica da concepção de criança, que era tida como um ‘adulto em miniatura’ e passar a ser um indivíduo com direitos estabelecidos e que deve ser protegido e cuidado. Parte deste cuidado passa pela disponibilidade do brincar”, diz o psicólogo.
A criança que tem esse direito negado enfrenta consequências que podem se estender por toda décadas, afetando negativamente toda a vida adulta. A cognição e linguagem ficam subdesenvolvidas se comparadas ao que poderiam ser e há aumento dos níveis de estresse e ansiedade.
Ela pode desenvolver problemas emocionais e crenças sobre si e sobre o mundo com teor negativista, o que frequentemente traz comportamentos agressivos. “Apesar de atividades pedagógicas formais desenvolverem algumas destas capacidades, o lúdico é indispensável pela leveza que traz no desenvolvimento dessas capacidades”, completa Jean Luca.

Crianças que não brincam têm menos oportunidades de exercitar a paciência, a empatia e o respeito ao outro, o que pode resultar em dificuldade de socialização, baixa flexibilidade emocional e pouca criatividade.
Laís explica que o adulto privado de brincar na infância pode se tornar uma pessoa rígida, com dificuldade de adaptação, baixa tolerância à frustração e propensão ao esgotamento emocional. “É o adulto sistemático, que sofre diante de mudanças e que frequentemente experimenta uma sensação de vazio — o chamado ‘furo no desenvolvimento’”, comenta.
Em um outro oposto, a terapeuta comenta que a falta de vivência plena da infância pode gerar o fenômeno da infantilização na vida adulta. “Tende a buscar, já crescido, formas de compensar o que não viveu: pode apresentar comportamentos imaturos, dificuldade em assumir responsabilidades ou uma necessidade excessiva de aprovação e acolhimento”.
“A ausência do brincar não compromete apenas a infância, mas todo o percurso de vida. A infância é a base de tudo. Brincar não é apenas direito da criança: é uma forma de preparar indivíduos mais criativos, empáticos, resilientes e capazes de lidar com as inevitáveis frustrações e desafios da vida adulta”, completa Laís.










