Especialistas mostram como estimular a criatividade e crescer no trabalho

A criatividade é requisitada em processos seletivos como uma das habilidades comportamentais mais importantes de um profissional

atualizado 19/10/2020 11:08

Yanka Romão/Metrópoles

Ser criativo é ter coragem de desenvolver novas ideias, mesmo sabendo que as antigas são eficazes. Segundo o dicionário on-line da língua portuguesa, a definição do termo é a “capacidade de inventar, de criar, de compor a partir da imaginação”. No entanto, não se trata de um dom, mas de uma habilidade que pode ser aprimorada (ou adormecida, quando não exercitada) ao longo da vida.

De acordo com o psicólogo clínico e organizacional Jales Silva Barreto, ela é uma característica presente na personalidade humana desde a infância e desenvolvida conforme o incentivo. “Todos nós somos criativos em alguma medida e, se a criança foi educada num ambiente onde o pensamento imaginativo, a motivação e a competição são estimulados, desenvolverá este lado como mais facilidade”, explica.

No âmbito do trabalho, a criatividade é requisitada em processos seletivos como uma das soft skills de um profissional. O termo em inglês é usado para definir competências subjetivas intelectuais. Dados do Google Trends mostram que pesquisas de expressões relacionadas ao assunto, como “seja criativo no trabalho”, aumentou até 650% nos últimos 12 meses.

Medo de errar

Depois de anos na mesma carreira, cargo, empresa e até na mesma mesa, é comum que o potencial de criação não esteja em sua melhor fase. Isso ocorre porque, normalmente, a pessoa se acostumou a sempre escolher as mesmas opções cotidianas e a evitar os riscos.

Segundo o humorista, empreendedor e professor de criatividade Murilo Gun, para findar essa situação e reacender o espírito criativo, sobretudo na vida adulta, é essencial deixar a imaginação fluir e não se contentar com a primeira resposta certa. “O oposto do medo é o amor. Então, o primeiro passo para despertar a criatividade é o abastecimento de amor no coração. Quando a gente age a partir do coração, surge a coragem”, garante.

Sob a visão psíquica do sentimento, Jales Silva Barreto ressalta que o receio de vivenciar críticas, reprovação, vergonha e outras situações constrangedoras bloqueia o processo criativo. “As crianças são quase todas criativas, porque elas não têm medo de serem criticadas, salvo quando o ambiente no qual convivem não permitem a expressão espontânea”, afirma.

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“Focar em apontar exclusivamente os erros cometidos, com base em metodologias inflexíveis e estereotipadas, mantendo uma atitude distante em relação a outros, impede o respeito pela singularidade dos indivíduos”, define Jales.

Sendo assim, dispensar comentários que repreendem ou julgam ideias alheias colaboram com a sensação de “capacidade criativa” do outro. Conforme exemplifica Murilo, às vezes, críticas disfarçadas de brincadeiras ou “zoeira” machucam tanto quanto ofensas escancaradas.

Silenciar a mente, dar voz ao coração

O professor de criatividade explica que, para seguir o coração e não sentir mais medo, é preciso desligar o barulho mental criado pelo excesso de informação e de preocupações com o futuro. Uma das formas é silenciando a mente por meio da meditação, que, conforme o Metrópoles já mostrou, traz inúmeros benefícios para a saúde.

O coração em primeiro plano proporciona a escuta efetiva da intuição. Segundo Murilo, é a “vozinha” que nos diz o que devemos e queremos fazer, mas que nem sempre é levada a sério. “Quando vivemos com uma mente julgadora, sentimos no coração uma vontade, a intuição, mas a evitamos pois pensamos saber a resposta certa. O medo é uma criação da mente para evitar os riscos”, salienta.

“Estando livre, ao vir uma ideia no seu cérebro, você não vai precisar pensar ‘será se digo isso’. Esse é o grande bloqueio. Se você se sente seguro, esse pensamento não vem, porque não existem barreiras”, completa o professor de criatividade.

Murilo criou e ministra o curso on-line Reaprendizagem Criativa. Acesse gratuitamente com o cupom metropolis, minúsculo e sem acento, até o dia 31 de dezembro de 2020.

Fórmula da criatividade

Conforme define Murilo, ser mais criativo, depois de adulto, exige a muito mais a limpeza do ser do que a adição de novos conceitos.

“Nascemos criativos, ou seja, não é algo que temos que colocar para dentro. É algo que temos que descobrir, tirar o que está obstruindo a visão criativa de nós mesmos”.

Além do medo de errar, o empreendedor cita os hábitos que minam a curiosidade e o interesse pelo novo. “Quando nos limitamos a uma área, deixamos de querer saber de tudo. Nossa área tem que ser o mundo. Aquela frase ‘a curiosidade matou o gato’ é um condicionamento de que a curiosidade é ruim, sendo que muito pelo contrário, é algo profundo do ser”, esclarece.

Sendo assim, ser um profissional criativo é, basicamente, manter-se atualizado e curioso. Jales acrescenta que, neste processo, é primordial a busca pela informação. Quanto mais diversificado for seu repertório de conhecimento, maior a probabilidade de combinar coisas. “Faça o seu networking. Desta forma conseguirá apresentar as suas ideias e escutar as das outras pessoas. O contato com indivíduos de áreas diferenciadas ajuda no processo de conhecimento para a criatividade”, diz.

Confira dicas dos especialistas para reacender o espírito criativo:

  • Silencie o barulho da mente e dê importância ao que diz a intuição;
  • Não se contente com a primeira resposta certa. O mundo é uma vastidão de possibilidades, portanto, certamente existem mais opções do que “a certa e a errada”;
  • Busque pessoas com a mesma vontade de desbravar o mundo que você;
  • Não desanime ao receber críticas ou comentários negativos;
  • Conheça tudo o que sentir vontade e não se prenda a uma única área. Especializar-se em algo é bom para o posicionamento inicial no mercado de trabalho, porém, a curiosidade e a busca por novas experiências evitam a paralisação na zona de conforto;
  • Fomente espaços de troca de ideias com os colegas sem julgamentos ou críticas. Todas as ideias são válidas, até mesmo as que não parecem corretas de imediato. “Separe um tempo do dia para se informar, os seus insights ficarão mais assertivos”, orienta Jales;
  • Anote os pensamentos em blocos de notas, digitais ou em papel, para quem uma grande ideia não seja perdida.
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A habilidade criativa, por outro lado, não está estritamente ligada com a economia de mesmo adjetivo. Todas as profissões permitem o crescimento pessoal fora dos eixos, de acordo com variantes como nicho, complexidade, conservadorismo, entre outros. No caso dos empreendedores criativos, por outro lado, a tendência é que a afloração desse aspecto seja mais nítida. 

Segundo o Miguel Galvão, um dos criadores do Picnik e do espaço Infinu, o que diferencia os empreendedores criativos dos demais é como ele oferece e cria o próprio produto. Em geral, trata-se de algo inovador. “Ele tem como principal insumo um conjunto habilidades que o permitem oferecer conteúdos e criações próprias, valiosas e únicas, que podem servir também de insumo para atender outros mercados e produções”, diz o brasiliense.

Pandemia

As mudanças causadas pelo novo coronavírus no mundo não estavam programadas no calendário de ninguém. Isolar-se para evitar o contágio com uma doença letal aumentou o número de quadros de ansiedade entre a população de 8,7% para 14,9%, entre março e maio deste ano. O dado é de estudo feito pelo Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Embora silenciar a mente e aceitar riscos tenha ficado ainda mais difícil nesse contexto, os especialistas afirmam que é o momento para ousar nas escolhas, apesar das imensas dificuldades pelas quais estamos passando. “É um choque de realidade que está fazendo as pessoas reavaliarem tudo na vida. É a hora de seguir o coração. Se o advogado tributarista quiser ser terapeuta holístico, essa é a hora, porque todo mundo viu como a vida é rápida. Precisamos nos libertar, viver sem apego e seguir a intuição”, exemplifica Murilo.

A criatividade se relaciona com o bem-estar do indivíduo, conforme evidencia estudo publicado no periódico The Journal of Positive Psychology, em 2018.

A pesquisa mostrou que o gasto de tempo e energia em atividades criativas, como se expressar de modo original ou ter novas ideias, impactam positivamente o humor diário. Isso aumenta o bem-estar no dia seguinte que, por sua vez, também leva à criatividade, produzindo um ciclo vantajoso à saúde mental.

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