Entenda o que é o como funciona o movimento Black Money

Ao Metrópoles, Nina Silva, uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil, explica iniciativa de empoderamento para população negra

Nina Silva sentada em cadeiraLuciana Prezia/Divulgação

atualizado 12/04/2020 10:18

A população negra representa 54% dos brasileiros e movimenta expressivos 1,7 trilhão de reais por ano no país. No entanto, ainda recebe em média R$ 1,2 mil a menos no mercado de trabalho, além de corresponder a 75% da faixa dos 10% mais pobres em território nacional.  Os dados são do Movimento Black Money (MBM), que tem ganhado força no país com a missão romper o contrassenso cruel entre o potencial de consumo e a falta de autonomia econômica da comunidade negra.

A ideia é promover educação, empreendedorismo e inclusão financeira, fazendo o capital circular de maneira justa entre quem precisa. Uma iniciativa importante, sobretudo diante da pandemia do coronavírus. Nos Estados Unidos e no Brasil, por exemplo, as primeiras divulgações estatísticas de contágio da Covid-19 demonstram que os negros estão entre os mais vulneráveis à doença. Em parte, pela desvantagem financeira e o cerceamento provocado por ela.

Autonomia e representatividade

O movimento, pioneiro no mundo, tem a assinatura de Nina Silva, de 40 anos, especialista em tecnologia da informação e ativista.

Com um currículo invejável, ela passou 17 anos na área, predominantemente masculina, observando homens brancos ocuparem de forma quase exclusiva posições de poder e tomada de decisões. Até que resolveu unir sua experiência a de outros profissionais para mudar a lógica discriminatória do mercado.

“Por mais que eu tivesse uma performance melhor, homens brancos recebiam salários mais altos. Havia mulheres brancas, ainda que poucas. Homens negros quase não eram vistos. Mulheres negras, nem pensar”, desabafa.

“Sentia a necessidade constante de pontuar que aquele lugar era meu por direito. Já passei por clientes duvidando de que eu fosse a gestora do projeto, perguntando se eu não era a recepcionista. Questionando porque eu trabalhava com um sistema de tecnologia alemão, quando deveria estar procurando um marido por lá. Meu currículo chegava na frente e a figura chegava depois. Quando as pessoas me viam, demonstravam seu real preconceito.”

Em parceria com o sócio Alan Soares, trader e educador financeiro, Nina lançou a marca Movimento Black Money e passou a contribuir não só com a geração de riquezas, mas com a representatividade dessa comunidade.

Em 2019, ela foi eleita pela revista Forbes uma das mulheres mais poderosas do Brasil e uma das 100 negras, com menos de 40 anos, mais influentes do mundo, no ranking da Most Influential People of Africa Descent, ligada à Organização das Nações Unidas (ONU).

“Desde consultora até gestora de projetos e gerente de portfólio, eu sempre questionava o que eu deixaria de legado além da minha carreira. O movimento veio como uma resposta à busca do meu propósito”, avalia.

Em entrevista ao Metrópoles, ela conta que seu objetivo é gerar uma cadeia produtiva própria, de fornecimento até consumo consciente e intencional de produtos e serviços de negros. “Queremos buscar oportunidades com equidade, porque sabemos que a igualdade não existe. As pessoas partem de contextos diferentes”, pondera.

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Movimento

O conceito do Movimento Black Money é similar ao pink money, estruturado pela comunidade LGBTI para apoiar empresas que tenham compromissos sólidos com a diversidade. Para disseminar o modelo dentro da comunidade negra, estabelece contato entre consumidores e empresários em várias frentes.

Entre elas, o StartBlack Up,  série de encontros realizados entre empreendedores para ajudá-los a aprimorar, iniciar seus negócios e formar redes de relacionamento. Já o Afreektech, braço educacional do projeto, oferece cursos próprios e parcerias focadas em aprendizado tecnológico.

O MBM também criou o D’Black Bank, uma fintech para conectar consumidores e empresários. A maquininha de pagamentos própria, apelidada de “Pretinha”, já está em seis cidades: Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo, Caieiras (SP), e Florianópolis.

A mais recente empreitada foi batizada de Mercado Black Money, um market place lançado no fim do ano passado com intuito de reunir empreendedores negros. Com todas as estratégias ancoradas no meio digital, a intenção é levar o projeto não só para as cinco regiões do país, mas também para o mundo todo.

O Mercado Black é uma plataforma de vendas on-line para empreendimentos comandadados por pessoas negras

“Não temos nenhuma limitação de fronteira. A ideia é popularizar o movimento para todos, inclusive fora do projeto. O que tentamos promover é uma mudança de postura, que as pessoas passem a agir intencionalmente para contribuir com negócios de pessoas pretas. Assim, conseguimos fazer mais e muito mais rápido”, diz Nina.

Ocupação de espaços importantes

Um dos cases mencionados por Nina com orgulho é a Pop Afro.  O coletivo abriu as portas no ano passado, no Shopping Madureira, localizado no bairro carioca de mesmo nome e com forte ligação com cultura negra.

As baias e araras reúnem trabalhos de 10 designers negros e cria oportunidades diretas e indiretas para outras 24 famílias, com a contratação de costureiras, estampadores, social media e outros profissionais.

Grupo reunido em frente a Pop Afro
Coletivo Pop Afro ocupa espaço em shopping no bairro Madureira, conhecido pelo empoderamento dessa comunidade no Rio de Janeiro. Os produtos são de autoria de designers negros e todos os colaboradores também são negros. Objetivo é ocupar espaços e dar oportunidades

Mesmo com pouco tempo de mercado e uma pandemia no meio dos planos, a marca tem conseguido se reinventar graças ao apoio de parceiros, como o MBM.  Por isso, para além de pensar em estratégias para o cenário atual, os planos de negócio incluem disseminação de conhecimento e suporte a outros empreendedores.

“Também realizamos um evento na Lapa todo o primeiro sábado do mês em que abrimos não só para os artistas da loja, mas para outros empreendedores que querem integrar esse espaço. O que queremos é justamente isso, ocupar espaços que antes não eram destinados às pessoas pretas”, menciona Ligia Parreira, administradora da Pop Afro.

“E Madureira é um lugar emblemático para isso, porque é ‘comprar e vender de preto'”, acrescenta.

Solidariedade diante da Covid-19

Pesquisa do Instituto Data Favela aponta que 7 em cada 10 famílias tiveram a renda diminuída desde o início das medidas de isolamento, e que 79% passaram a cortar gastos por conta da crise provocada pela Covid -19. Como a maioria dos moradores de favelas brasileiras são negros, o MBM já começou a se movimentar.

Com parte das atividades paralisadas, o movimento se debruça, agora, em uma campanha de crowdfunding para ajudar famílias que, por algum motivo, não conseguirão manter as vendas ou o sustento da família.

A iniciativa tem caráter emergencial e visa atender, preferencialmente, famílias negras lideradas por mães solos e afro empreendedores. A ideia é auxiliá-las de maneira financeira, “já que cada núcleo familiar sabe sua urgência”, explica Nina.

Empresas e pessoas físicas interessadas em conhecer mais sobre a iniciativa podem acessar o site do Movimento Black Money e obter informações.

 

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#Coronavírus mata mais #negros que #brancos Coronavírus é mais letal entre negros no Brasil, apontam dados da Saúde. Negros são 1 em cada 4 hospitalizados por Covid-19, mas 1 em cada 3 mortos. São 23.1% dos contaminados mas 32% das vítimas fatais, enquanto entre pessoas brancas o índice entre contaminação e letalidade diminui. Uma vez contaminados negros têm maior probabilidade de óbito que brancos mesmo ainda não sendo o maior grupo contaminado. O mesmo acontece nos EUA: Negros enfrentam índices alarmantes de contaminação pelo coronavírus onde comprovadamente números são frutos de desigualdades que vêm de longa data, como pobreza e segregação racial. A pandemia contaminou no primeiro momento uma elite que é branca e só chegou na comunidade negra porque o isolamento físico também se restringe a uma elite. Domésticas, seguranças e profissionais de serviços operacionais começaram a ser contaminados por seus “chefes” e a morrer em maior proporção que os mesmos. 67% da população que depende exclusivamente do SUS é negra. Não queremos ver a expansão da pandemia nas periferias pois seria fatal, por isso racializar a discussão e ações é urgente. #COLABORE com famílias lideradas por Mulheres negras e empreendedimentos negros para combate direto ao COVID-19. https://benfeitoria.com/impactandovidaspretas Link na #Bio Fonte dos números: Folha

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