Na régua: barbeiro do DF viraliza com cortes cheios de personalidade

Mateus Kili, o Barbeiro da Favela, chama atenção das redes sociais com releituras do flat-top dos anos 1980 e projeta salão na Ceilândia

Raimundo Sampaio/Esp. MetropolesRaimundo Sampaio/Esp. Metropoles

atualizado 22/07/2019 0:34

Cabelos esculpidos à perfeição com muito estilo e criatividade são especialidade do Barbeiro da Favela, marca pessoal que Mateus Kili adotou ao encontrar-se no ofício. Embora seja filho de cabeleireira, ele não imaginava seguir carreira no mercado da beleza. No entanto, apaixonou-se pela profissão e abraçou o apelido ao descobrir que podia fugir dos padrões e contribuir com a autoestima de homens e mulheres da periferia.

A originalidade e o perfeccionismo das criações logo foram notadas na internet. Depois de publicar o resultado de um dos seus cortes mais habilidosos, um flat top em formato de escada, o morador do DF viu seu talento ganhar projeção nacional,  assim como o primeiro empreendimento, recém-inaugurado em Ceilândia, em sociedade com os amigos.

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Mateus Kili viralizou nas redes sociais quando publicou a imagem do corte que fez no modelo Luís Davi (foto)

Com mais de 1,1 mil compartilhamentos (e contando), a publicação arrancou elogios à inventividade do cabeleireiro. Também despertou a nostalgia de quem  associou o style ao eternizado por Will Smith na icônica série The Fresh Prince of Bel-air. Ou Um Maluco no Pedaço, como foi traduzida na adaptação da TV aberta brasileira.

A publicidade gratuita veio em boa hora. Há menos de um mês, ele reuniu os amigos e deu início a um projeto antigo: montar um negócio especializado em cabelos afro para preencher a lacuna desse mercado na região. Apesar de 65% da população da Região Administrativa ser negra, a oferta de salões especializados em Ceilândia é escassa.

“Por muito tempo, o preto não frequentou o salão de beleza para cultuar o seu cabelo. Esse era um espaço onde éramos obrigados a abaixar, cortar, alisar. Isso mudando”

Mateus Kili

Com o viral, o espaço de aproximadamente 25m² foi notado até mesmo por perfis estrangeiros. E se os posts chamam atenção nas redes, a identidade visual estampada nas paredes convidam quem passa pelo local para uma espiadinha.  “As pessoas ficam curiosas, entram, perguntam o preço. Também tem um lance de representatividade, do impacto que tem para a galera ver uma mulher negra, empoderada, com um black todo rosa”, exemplifica.

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A família do Under Family Studio: Luan Oliveira, Mateus Kili, Tânia Sarah e Moisés Pretinho

A mulher de cachos pintados é Tânia, colorista, visagista, especialista em cabelos afros e sócia do empreendimento. Além dela, integram a sociedade Luan Oliveira, tatuador e body piercing, e  Moisés Pretinho, responsável pela parte administrativa. A oito mãos, eles conseguem abarcar no Under Family Studio um número razoável de procedimentos. Mas, depois do sucesso, o flat-top deve passar um bom tempo na lista dos mais pedidos.

 

Resgate e resistência

O visual que Mateus tem difundido nas redes sociais foi inspirado no estilo militar dos anos 1940 e 1950 e teve seu auge na era de ouro do Hip-hop. Embora tenha voltado como trend para cabelos masculinos, tudo indica que a primeira pessoa a desfilar um autêntico flat-top por aí tenha sido uma mulher.

Radicada nos EUA, a cantora jamaicana Grace Jones apresentou o layout quadrado ao mundo antes que ele fizesse a cabeça de outros artistas na capa de um álbum lançado em 1980.

Mais tarde, os rappers Big Daddy Kane, Doug E. Fresh, MC Rakim, Jazzy Jeff e Fresh Prince adotaram o visual e deram ao corte o tom de rebeldia associado ao estilo musical – máxima seguida ainda hoje.

 

Assim como as rimas que falam sobre a invisibilidade  negra,  a altura e o estilo empregado no flat-top reverberam a essência política do estilo.

“Por muito tempo, a população negra esteve condicionada ao uso contido do cabelo crespo (bem curto para homens e alisado para as mulheres) a fim de comportarem um padrão estético brancocêntrico abafado pela insígnia da ‘boa aparência’”, explica a historiadora e coordenadora de Políticas de Promoção e Proteção da Igualdade Racial do GDF, Marjorie Chaves.

Nesse sentido, o movimento de transição capilar e de redescoberta do cabelo crespo extrapola o campo da beleza para tornar-se um encontro com a identidade,  uma resposta ao racismo e um símbolo de resistência.

Jovens negros têm falado de autoestima, de autocuidado, de afeto… E contribuído para que outros jovens repensem sua autorrepresentação, ainda que as novelas, os programas de TV e as revistas não representem a diversidade da nossa população

Marjorie Chaves

“A opressão por um padrão estético europeu produziu graves efeitos na nossa autoestima. Mesmo com toda a mudança recente na forma de manipulação do cabelo crespo como resgate de uma história que nos foi negada, ainda é persistente a ideia de que o cabelo volumoso, com tranças ou dreadlocks é feio.”

Foto: Raimundo Sampaio/Esp. Metrópoles
Na publicação que popularizou seu trabalho,  Mateus também notou comentários que classifica como racistas. “O racismo existe, ele tá ali. Ainda temos que lidar com os olhares tortos, com as chacotas”, comenta
Preconceito no mercado

As ponderações de Marjorie fazem todo sentido nas experiências pessoais dos adeptos do visual. O próprio modelo do viral, Luis Davi, 18 anos, lembra que o mercado de trabalho é um dos locais onde a intolerância aos cabelos afro é mais presente. “Já tive medo de ser demitido por isso, sempre levava bronca e era aconselhado a abaixar o cabelo. Tento levar no bom-humor.”

Nesse cenário, as redes sociais não entraram na história de Mateus ao acaso. Segundo a pesquisadora, o debate propiciado nas plataformas digitais auxilia em uma representação positiva do corpo negro e do cabelo crespo. Esse espaço tende a mudar justamente pela popularização dessas mídias como um ambiente de disseminação de ideias.

“As redes sociais foram e têm sido um poderoso disseminador de ideias. Jovens negras (os) têm falado de autoestima, de autocuidado, de afeto e contribuído para que outras (os) jovens repensem sua autorrepresentação, ainda que as novelas, os programas de TV, as revistas brasileiras não representem a diversidade da nossa população.”

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