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Entre inquietação, garfadas rápidas e cabeça cheia de preocupações, muitas pessoas esquecem de estar presente na hora da refeição. A comida passa despercebida e vira aliada para lidar com o estresse e a ansiedade. Descontar as frustrações em alimentos pode indicar problemas sérios, inclusive compulsão alimentar e outros distúrbios mentais.

Uma vertente do mindfulness, técnica de meditação, pode ajudar a mudar esse quadro. O mindful eating envolve ser consciente e usar os sentidos para dar atenção total ao momento. Sem distrações com celular, televisão ou livro, explica o instrutor do método Pedro Lôbo. 

Devemos observar o que e o quanto estamos ingerido. Portais como o Centro Brasileiro de Mindful Eating espalham pensamentos e encorajam sair do automático na hora de comer. Existem cursos e workshops com profissionais para conhecer melhor a técnica e aprender a aplicá-la na rotina.

“A comida tem cheiro, cor, sabor, textura e barulho. O indivíduo deve questionar-se: estou me alimentando ou pensando no dia de amanhã? O corpo precisa se alinhar com o momento da alimentação”, afirma. Se comer sem distrações parece impossível, Pedro indica começar bebendo água ou saboreando uma fruta com maior atenção.

 

“Ao fazer uma refeição, a pessoa não percebe a ansiedade ou o nervosismo, porque não está conectada a si mesma. É uma fuga do momento e dos sentimentos”, diz. Segundo o instrutor, quem toma consciência do estado mental reage melhor às angústias e aos desconfortos de autoimagem. “A partir disso, a pessoa passa a olhar de uma nova forma para os problemas”.

A compulsão alimentar é um distúrbio mental caracterizado pela falta de controle do quanto e do que é ingerido. “A comida tem uma função nutricional, mas também afetiva, emotiva e prazerosa. Depois de um tempo você para de ter satisfação e a obsessão aumenta. É uma válvula de escape e uma forma de compensar algo interno”, esclarece o psicólogo Pedro Paulo Vieira.

A antropóloga, terapeuta e instrutora de mindfulness e mindful eating Daniela Araújo sentiu na pele a técnica. Ela conheceu o método em 2009 e, agora, aos 40 anos, chama a prática de transformadora em seu relacionamento com a alimentação e o corpo. “Já tinha superado meu distúrbio alimentar, mas ainda estava muito presa a regras externas sobre o que era comer ‘corretamente’. Passei a ouvir e a confiar no meu organismo, parei de viver lutando contra ele e a minha fome. Aprendi a cuidar de mim com mais carinho, gentileza e respeito”.

Segundo Daniela, a compulsão alimentar é uma resposta violenta às restrições de dieta e à fome. “Quando praticamos consciência nas refeições, aprendemos que o nosso corpo é capaz de dizer para comermos um pouco de tudo. Alimentar-se com prazer é importante para a saúde e a felicidade do organismo”, fala. 

 

“A proposta de estar presente funciona muito com disfunção alimentar, porque quem sofre disso come por conta de outras coisas, como ansiedade, depressão, solidão, mágoa”, comenta o psicólogo Pedro Paulo. “A pessoa precisa estar focada no processo da refeição e o mindfulness te traz para o momento presente, te desconectada de outras questões”.

O instrutor Pedro vê a prática de comer com atenção um presente diário. “Estamos muito fora de nós e alimentar-se é algo feito pelo menos três vezes ao dia. Poder parar nesses momentos para se cuidar é um grande benefício”. Além disso, o especialista acredita que o método melhora a qualidade dos alimentos e ajuda na ansiedade e na perda de peso.

Daniela indica a técnica para qualquer pessoa, mas ressalta ser especificamente importante para quem sofre com distúrbios alimentares, efeito “sanfona” e obsessão por dietas. “Nossa cultura tem uma relação muito complicada com a comida. Aprender o mindful eating permite recuperar nossa capacidade de escolher por nós mesmos o que é bom e o quanto é bom. Dá liberdade e autonomia”, afirma.



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