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“Como assim não tem café? Que tragédia!” Essa foi uma das primeiras frases que escutei ao chegar a uma chácara perto do Setor de Mansões do Lago Norte. Eu estava lá para mergulhar em um retiro de meditação a convite do Instituto Mindfulness.

Sob o comando do professor Pedro Lôbo, um dos principais nomes do método no Brasil, fiquei imersa, em um sábado, de 9h30 às 17h, em mim mesma. Tudo bem natural, nada de café para ligar os motores. O objetivo é o contrário: desligá-los um pouco e sair do piloto automático.

Tenho alguma experiência com meditação. Descobri o Mindfulness há alguns anos e pratico esporadicamente com a ajuda de um aplicativo. Mas somente nos últimos meses, a técnica vem se popularizando e virando objeto de estudo em faculdades.

O Mindfulness como conhecemos hoje foi criado pelo médico Jon Kabat-Zinn, em 1979, na Escola de Medicina da Universidade de Massachusetts. O cientista, praticante de meditação zen budista, adaptou os princípios do método e o desvinculou da religião. O objetivo era ajudar pacientes com dor crônica e doenças relacionadas ao estresse. Jon criou um programa de oito semanas, usado até hoje.

Definição
É difícil conceituar o Mindfulness. A tradução costuma ser “atenção plena”, mas a técnica não pode ser definida exatamente dessa maneira. A meditação deve ser encarada como um “treino” e usada no cotidiano.

Em uma parte da prática, o paciente passa por um estado onde se percebe tudo o que acontece ao redor, sem de fato se envolver. Na segunda, permite agir da melhor maneira no dia a dia, controlando os sentimentos.

Segundo especialistas, passamos 45% das nossas vidas perdidos em pensamentos. Lembrando do passado ou imaginando o futuro. Mas o Mindfulness pode ser definido como estar atento no agora.

“O momento presente é subestimado. Parece ordinário, mas passamos tão pouco tempo nele que devemos considerá-lo tudo, menos comum”, explica, em sua palestra no Ted Talks, Andy Puddicombe, um ex-monge budista que se tornou uma das principais vozes do Mindfulness na atualidade. Ele também é idealizador do Headspace, o aplicativo.

Meditação é dar um passo para trás, conseguir ver o pensamento claramente, enxergar as emoções indo e vindo sem qualquer tipo de julgamento, com uma mente relaxada e focada"
Andy Puddicombe

Várias pesquisas de instituições conceituadas, como a Universidade de Harvard, por exemplo, ligam a prática da meditação Mindfulness ao controle da dor, aumento da produtividade no trabalho, tratamento contra a depressão, à diminuição do estresse e até ajuda a portadores de diabetes.

Tudo maravilhoso. Mas, de acordo com um grupo de pesquisadores, que inclui especialistas das universidades americanas de Stanford e Princeton, é preciso tomar cuidado. A dificuldade em definir o Mindfulness e a falta de metodologia em estudos antigos podem levar o público a uma decepção.

Voltando ao curso
Durante a manhã, escutamos um pouco de conteúdo sobre o Mindfulness e meditação. Aprendemos que, apesar da fama recente, a técnica não tem nada de nova. Depois, apresentamo-nos. Das 15 pessoas presentes, a maior parte procura uma forma de diminuir a ansiedade, melhorar as relações interpessoais, ser mais gentil consigo mesmo e ter um pouco mais de foco.

Alguns curiosos decidiram começar o ano procurando maneiras de viver melhor. Uma psicóloga descobriu a prática de forma acadêmica e tenta incorporá-la ao dia a dia. Outra moça sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo, um rapaz tem Transtorno de Déficit de Atenção.

A mulher que senta ao meu lado foi diagnosticada com depressão e conheceu o Mindfulness em uma internação psiquiátrica. A senhora no início do círculo de cadeiras é a mais experiente, já foi taoista e pratica meditação há muitos anos. Mas está um tanto cética, ela não entende como o método pode funcionar no dia a dia, fora do momento de concentração e silêncio.

A meditação acontece entre dois pensamentos, conta Pedro. Não se trata de interrompê-los, mas de usar foco e concentração para aumentar os espaços entre eles. Nesse silêncio, aparecem emoções que não costumam ter vez na rotina agitada. Os medos colocados, insistentemente, debaixo do tapete, os quais evitamos encarar.

O professor conta que, com experiência, não só os percebemos mas podemos chegar ao ponto de sentar e tomar um chá com nossos problemas para resolver as diferenças.

No intervalo de almoço, Pedro propõe um experimento. O retiro acontece no spa natural Bálsamo, em um setor rural perto do Lago Norte, onde só se serve comida vegetariana. No local, é costume degustar a salada e esperar 15 minutos antes de seguir para a parte quente da refeição. Nada de líquidos.

O professor nos sugere tentar passar toda a hora da alimentação em silêncio. Prestando atenção nas cores da comida, nos sons da natureza, na movimentação das pessoas ao redor. Em seguida, cerca de uma hora de descanso também sem falar nenhuma palavra ou mexer no celular.

Ampla, a chácara oferece local para caminhadas, sofás e redes para descansar. Quem quiser, pode dormir. Quem não conseguiu lidar com a gritaria interior, que surge no silêncio, deve conversar em um local afastado para não atrapalhar.

Algumas pessoas não passaram dos primeiros 15 minutos de experiência. Não conseguiram esperar o tempo necessário para a segunda parte da refeição, muito menos permanecer em silêncio todo o tempo. Eu consegui.

Os primeiros minutos foram chatos, decorei quase todos os detalhes do refeitório. As plantas suculentas que decoravam a entrada, as telhas com toques brancos, o enfeite pendurado em uma parede. Mas, depois, ficou fácil. Fui quietinha até uma rede, tirei os sapatos e fiquei olhando a natureza. E comecei a escutar tudo."

Ouvi os passarinhos cantando perto e longe, o barulho do vento balançando as folhas das árvores. O passo dos inquietos que andavam para cima e para baixo. As moças da cozinha cortando frutas e conversando, alguém roncando, a música tocando distante, em outro terreno. Meu celular vibrando dentro da bolsa a cada mensagem recebida.

Ao mesmo tempo, não pensava em quase nada, como se estivesse à parte de tudo. Depois, descobri que esse é o chamado estado de awareness, a consciência plena. Só voltei ao normal quando Pedro tocou o sino no fim do intervalo.

Na segunda etapa, a da tarde, foi a hora de praticar. Começamos com uma meditação em pé, sentindo o peso do corpo. Achei difícil concentrar – era muita coisa para pensar. Nos pés, na dor nas costas, no queixo erguido, no abdômen contraído. Sentados, nos saímos melhor.

Pedro diz que a meditação clássica, no chão em posição de lótus, com um incenso aceso e um mantra tocando, não é o único jeito de praticar. Uma cadeira confortável em um espaço calmo é suficiente. Experimentamos várias métodos em exercícios de 10 minutos.

A ideia é fazer um escaneamento do corpo. Começamos pelo topo da cabeça e acabamos na ponta dos dedos do pé. Com muita atenção, observamos o peso do bumbum na cadeira ou no chão, nas sensações das mãos que se encostavam, no subir e descer do peito quando respirávamos. Depois de algumas práticas, passamos para a mente. Você está ansioso? Calmo? Nervoso? Com raiva? Em paz? Por quê?


Tentamos também uma meditação ativa, andando. Nela, nada deu certo para mim. A ideia era prestar atenção na sensação dos passos no chão, sem olhar para cima ou para os olhos dos outros participantes. Concentração total na caminhada lenta. Mas acabei me perdendo, fui parar em uma parte de compostagem da chácara, cheia de moscas e frutas podres.

Quando voltamos, começou a cair uma chuva pesada, com direito a raios e trovões. Duas senhoras, ansiosas com a tempestade e com um compromisso que aconteceria duas horas depois, desculparam-se e foram embora. A natureza falava alto, então tentamos uma meditação silenciosa, sem guia. Eu pratico eventualmente, com a ajuda de um aplicativo. Consegui escutar a voz de Andy, meu instrutor virtual, toda vez que me perdia em pensamentos: “Agora volte a sua atenção para o corpo”.


No fim, Pedro sugeriu um desafio de meditação com a ajuda de um grupo de WhatsApp. A ideia é que a gente faça a prática 21 dias seguidos. É consenso entre os instrutores de Mindfulness: não é preciso ficar muito tempo treinando, bastam cinco minutos. O importante é exercitar diariamente, com consistência, para usufruir dos benefícios da técnica.

Falo por mim: saí da experiência mais calma, atenta, focada e menos ansiosa. Até minha postura estava melhor. Para quem já pratica meditação e aos que nunca se aventuraram mas têm curiosidade, recomendo dar uma chance ao Mindfulness.