Diabetes tipo 2: com ansiedade e culpa, pacientes lutam contra a dieta

De acordo com pesquisa encomendada pela farmacêutica Sanofi, a maior dificuldade dos pacientes da doença é a reeducação alimentar

Rodrigo Zorzi/DivulgaçãoRodrigo Zorzi/Divulgação

atualizado 01/10/2018 11:31

São Paulo – Andreia Mota, 49 anos, sempre teve dificuldade para controlar as medidas. Fez dietas mirabolantes, emagreceu, engordou. Como a maioria das pessoas com obesidade, achou que jamais conseguiria estar no peso recomendado, esperou um milagre. Até que ele chegou. Em dois meses, perdeu 10 quilos. Sem mudar a alimentação ou praticar exercícios, só bebendo um pouco mais de água em comparação ao normal.

Apesar de mais introspectiva e irritada, amava a nova silhueta e seguiu a vida. Porém, depois de ter forte dor de cabeça e acordar com a vista turva, foi atendida no ambulatório do trabalho e correu para o hospital. Com índice muito alto, foi difícil controlar a glicose. Passou o dia inteiro com tremores e formigamento no rosto e nas pernas, sob cuidados médicos.

Diagnosticada com diabetes tipo 2, condição frequentemente associada à obesidade – que já atinge 9,9% da população feminina e 7,8% dos homens do Brasil –, Andreia precisou tomar insulina para controlar os altos picos de glicose no sangue e mudar a alimentação. Mas logo nas primeiras semanas de tratamento, acordou sem enxergar, como se houvesse um tecido impedindo a visão. A chamada cegueira temporária, consequência direta da diabetes, a deixou incapacitada por 40 dias.

Atualmente, o maior desafio de Andreia é seguir a dieta. De acordo com pesquisa da farmacêutica Sanofi em parceria com a Minds4 Health, a alimentação é a principal dificuldade dos diabéticos – 80% acreditam que estão controlando corretamente a doença, mas um quarto dos 500 entrevistados admite não conseguir abrir mão de suas comidas preferidas e um terço não faz exercícios físicos. Andreia é o exemplo perfeito: até consegue se alimentar direitinho durante a semana, mas abre (várias) exceções no fim de semana.

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“Ao receber o diagnóstico, a primeira reação do paciente é perguntar o que vai poder comer agora, se nunca mais poderão se alimentar livremente. A nossa cultura é muito de agregar, de se reunir à mesa, é algo atrelado ao prazer, e as pessoas ficam preocupadas em não conseguir mais ter vida social. Hoje, preferimos não falar dieta, e sim reeducação alimentar, um planejamento para viver melhor”, explica a endocrinologista Denise Reis Franco, diretora do Departamento de Educação da Associação Diabetes Brasil.

Depois do diagnóstico, Andreia decidiu mudar de vida. Transformou a rotina, passou a se exercitar, alterar a alimentação da família inteira. “Fui me controlando, mas quando a glicemia está normal, você não sente dor ou desconforto. Acabei relaxando. Não estou me justificando, mas a impressão que a gente tem é de que, por estar tomando insulina, comer um brigadeiro ou uma carne mais gorda não vai causar muito estrago.”

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O marido e os três filhos da dona de casa (todos já emagreceram devido à mudança dos hábitos alimentares) ficam no pé de Andreia para evitar que ela coma doces – apesar de saber os riscos, a mulher não consegue resistir sempre. Nos momentos complicados, recorre a grupos de ajuda na internet, onde outros diabéticos com dificuldade compartilha suas experiências.

“Queria comer sem engordar, sem ter problemas. Luto contra isso desde a minha adolescência. Meu desejo é ter consciência de que posso estar mais doente ainda e não conseguir mudar. Tenho três filhos, não quero deixá-los para trás. Quando eles falam que não querem me perder, passo uns dias sem comer nada de errado, mas logo volto à rotina normal. É um vício”, relata. O problema de Andreia está, de fato, progredindo. Ela já tem pouca sensibilidade nos pés, nos dedos das mãos, e sente dormência nas pernas.

Consequências do diabetes
De acordo com a presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes e parte da coalizão Movimento para Sobreviver, Hermelinda Pedrosa, o diabetes é uma doença que favorece o endurecimento arterial e leva à formação de placas de obstrução – por isso, quem tem a condição corre maior risco de sofrer complicações cardíacas, como infartos, problemas nas artérias periféricas dos membros inferiores, hipertensão e derrames.

“Infartos e AVCs acontecem em 30% dos pacientes com diabetes no mundo e a uma taxa de mortalidade entre três e quatro vezes maior em relação a quem não tem a doença. O envelhecimento também é um processo que leva à alteração no metabolismo da glicose, então a prevalência de problemas cardíacos aumenta depois dos 40 anos e tem pico entre os 60 e 65 anos”, ressalta a médica.

Com base em dados da International Diabetes Federation (IDF), até 80% dos pacientes com diabetes tipo 2 morrem por causas relacionadas a disfunções do coração – e, nesse caso, homens e mulheres correm o mesmo risco. Além do perigo de morte e da baixa na qualidade de vida decorrentes das doenças cardiovasculares, esse tipo de problema ainda leva a gastos financeiros com medicamentos para ajudar a controlar as disfunções.

Para diminuir o risco de infarto, as recomendações são basicamente as mesmas indicadas quando o objetivo é manter a diabetes sob controle: praticar exercício físico regularmente, alimentar-se de modo saudável, parar de fumar, ter acompanhamento médico e tomar a medicação de forma correta.

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Tratamento na rede pública
Em 2015, três anos após o diagnóstico de diabetes, Andreia e o marido perderam os empregos. Hoje, ela busca tratamento pelo Sistema Único de Saúde. Fez exames em maio, mas até agora, final de setembro, não conseguiu vaga para se consultar com um endocrinologista. A insulina que ela toma não é disponibilizada pela rede pública, então precisou entrar em contato com a indústria responsável pelo medicamento para pedir desconto na compra particular.

“Estamos esperando ainda insulina mais ‘moderna’, que existe há 15 anos, ser disponibilizada na rede pública. Em 2005, tivemos também a criação de outro medicamento, mas só chegou ao Brasil no ano passado. Nós devemos nos orgulhar do SUS, mas é preciso melhorá-lo para que os pacientes tenham direito à prevenção de doenças e tratamento digno”, afirma a presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes.

Novo medicamento
Para alguns pacientes, não adianta ficar de olho na dieta, fazer exercícios e tomar os medicamentos. Nada parece controlar a glicemia. Neste mês, chegou ao mercado o Soliqua, da Sanofi, que combina dois tratamentos em apenas uma injeção – insulina e um agonista de GLP-1. O fármaco ajuda a controlar a glicemia em jejum e após as refeições.

Foram feitas duas pesquisas para testar a eficácia do medicamento. Em uma delas, 74% dos pacientes que tomaram Soliqua uma vez por dia atingiram a meta HbA1c menor ou igual a 7% (o ideal), em comparação aos 60% dos que fizeram uso de antidiabético oral e insulina e 33% daqueles que foram tratados com medicamento oral e lixisenatida (agonista de GLP-1).

A repórter viajou a convite da Sanofi.

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