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Insônia, ansiedade e depressão. A tecnologia que ajuda a melhorar a vida de milhares de pessoas pode ser também motivo de problemas de saúde e de relacionamento. Há pelo menos 4 anos, especialistas já lidam com o novo transtorno mental: a dependência de tecnologia.

Uma pesquisa da Microsoft apresentada no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), afirma que para 74% dos brasileiros a tecnologia tem impacto positivo nas artes e na cultura; para 80%, cria oportunidades de emprego; e para 72% ajuda a reduzir diferenças econômicas.

Apesar das melhorias que os avanços tecnológicos trouxeram, os sintomas da dependência de tecnologia já são comparados por especialistas aos traços que uma dependência química gera na vida de alguém.

“Sociedade excitada”
A chegada dos smartphones no Brasil, nos anos 1990, foi responsável pela disseminação das redes sociais e intensificou o uso de jogos eletrônicos. O especialista em educação pela Universidade de Brasília Lúcio Teles ressalta que pessoas lidam todos os dias com “injeções tecnológicas” — vídeos, fotos, animações e mensagens que bombardeiam a mente quase 24 horas por dia.

Os avanços tecnológicos têm causado mudanças significativas no comportamento da sociedade e, segundo Teles, os pais devem ficar atentos e controlar a vida virtual dos filhos. “É preciso evitar que as crianças cresçam sem desenvolver habilidades importantes de socialização”, pontuou.

Há clínicas que já se especializam em tratamentos de dependência de tecnologia. A psiquiatra Mila Santiago, do Instituto Brasiliense de Psiquiatria, é responsável pelo tratamento em parceria com psicólogos.

Ela desenvolve o atendimento há pouco menos de 2 anos e, desde então, a procura por ajuda se intensifica. “É raro que o paciente procure o médico por conta própria. Quando as pessoas se queixam de insônia, irritação, depressão e mudança de hábitos geralmente está associado ao uso de smartphones, redes sociais ou jogos eletrônicos”, pontuou.

No futuro, o vício pode levar não somente a problemas de comportamento e de relacionamento como também a alterações cerebrais. Há risco de demência precoce e perda de memória. “Jovens de até 18 anos podem sofrer com perda de estatura, pois dormir mal devido ao uso das tecnologias prejudica as atividades dos hormônios de crescimento (GH)”, alertou a psiquiatra.

Um estudo da Flurry, consultoria do Yahoo, revelou que há 280 milhões de “viciados” em aplicativos para celular no mundo.

A doença ainda é pouco discutida, de acordo com a psicóloga Marleide Borges, responsável pelo tratamento na clínica Viva, em Brasília. Ainda há dificuldade em diagnosticar o problema, que geralmente é reconhecido pelos danos que o vício causa na vida do paciente.

“Quando adultos estão viciados, eles desaprendem habilidades básicas de socialização. As crianças costumam ficar muito imediatistas, desenvolvem comportamentos antissociais e ansiedade”, explicou.

Segundo a especialista, redes sociais e jogos geram falsas interações, realidades paralelas e frustrações relacionadas à vida real e à vida virtual.

Transtorno do Controle de Impulsos (TCI)
Caminhando lado a lado à dependência da tecnologia, está o Transtorno do Controle do Impulso (TCI). A patologia está relacionada à incapacidade de resistir a impulsos.

Um dos grandes desafios da medicina tem sido definir quando um hábito relacionado à tecnologia é ou não patológico"
Mila Santiago

O “Phantom ringing” é uma nova definição para pessoas que ouvem o celular tocar a todo instante, mesmo sem isso ter ocorrido de fato. A psiquiatra Mila estima que 10% dos jovens sofrem com o uso problemático dos smartphones. “A nomofobia — medo de ficar sem smartphone — já é um problema identificado com frequência nas clínicas de psiquiatria”, pontuou.

Tratamentos em Brasília
O diagnóstico ainda é recente e estudos estão sendo desenvolvidos para aprofundar os métodos de cura da doença do futuro. Há ainda clínicas de tratamento de dependência química, como a clínica Recanto, que oferecem cuidados às pessoas viciadas em tecnologia.

Em São Paulo, os casos são ainda mais comuns e a variedade de tratamento é maior. A Secretaria de Saúde do DF confirmou ao Metrópoles que ainda não existem iniciativas públicas voltadas para o tema.