#GoodVibesOnly? Nada disso. Conheça seis formas de encarar aquela bad

Em corrente contrária à onda de mensagens positivas, psiquiatras ensinam como acolher e saber lidar com tristeza, frustração e perdas

atualizado 04/10/2019 13:50

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Recentemente, redes sociais como o Instagram se tornaram terreno para autoproclamados coaches. Olhando superficialmente, a intenção até parece boa. Com mensagens de cunho #GoodVibesOnly (apenas boas vibrações, em tradução literal), perfis e influencers disseminam as novas leis sociais. Aos seguidores, recomendam que deem um chega para lá nos maus sentimentos. O problema, alertam psiquiatras, é um distanciamento nocivo da realidade – que, bem se sabe, é repleta de altos e baixos. E tudo bem.

O pensamento positivo virou palavra de ordem. Expor sentimentos como tristeza, frustração e luto diante de perdas, nessa comunidade, é quase um crime inafiançável. Mas coisas ruins acontecem e, nesse momento, muitas pessoas têm se visto emocionalmente despreparadas para encarar a tal onda diferente. Negar emoções não é saudável, independente de quais sejam elas.

“Uma criança, por exemplo, não pode ficar exposta a vivências além da capacidade emocional de absorção. Mas, em determinado momento, precisa entrar em contato com a realidade. Nem todo mundo é bom. Existe maldade. Há quem cresça nessa bolha, na tentativa de fugir disso. Entram em um processo de negação para se ‘defender’ da realidade. Fazer de conta que problemas não existem não é saudável”, diz o psiquiatra Fábio Aurélio Leite.

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Onda de pensamento positivo pode ser prejudicial à saúde mental

Para o especialista, trata-se de um comportamento geracional facilmente percebido nos millennials, nascidos entre 1979 e 1995. Não por desejo ou capricho, mas porque foram criados por pais que viveram momentos de repressão política, econômica e cultural (como a Ditadura Militar) e, por isso, possam ter sido alvos de uma criação mais afrouxada. É como se, para compensar os excessos da geração anterior, os tutores desses adultos os mantivessem alheios aos problemas – do mundo e os individuais.

“Pense em si mesmo como uma empresa. É preciso fazer um balanço, uma avaliação. A mesma regra vale para a vida: eu melhorei minha capacidade de ceder? Consigo perceber e ultrapassar minhas dificuldades? Do que as pessoas reclamam de mim?”, sugere Leite. “A sociedade atual, entretanto, é narcisista, não aceita qualquer possibilidade de questionamento”, critica.

Segundo ele, o processo de luto, ou de perda, precisa ser treinado ao longo de toda a vida. Vale como antídoto para, lá na frente, aprendermos a lidar com dor e sofrimento. São os sentimentos “negativos”, aliás, que validam os positivos. Mesmo filosofias “namastê”, como a yoga, entendem a importância desse equilíbrio.

Abaixo, os médicos comportamentais ensinam alguns caminhos a quem quer acolher a “bad vibe” e fazer dela uma mola propulsora para transformações mais profundas.

1 – Se quer ser feliz, esqueça a “grama do vizinho”. De vez

“É o que acontece nas redes sociais. As pessoas se comparam o tempo todo, isso pode gerar um sentimento de tristeza e frustração. É quando o foco se volta ao que está faltando e não ao que se tem. Assistindo apenas ao ‘palco’ das pessoas, acontece essa distorção de imaginar que ninguém tem os desafios que só você enfrenta”, pondera o hipnólogo Romanni Souza.

“O que frustrava nossos antepassados era pensar se, ao sair para caçar, encontrariam comida. O que nos frustra hoje, muitas vezes, é algo como ‘o outro trocou o carro por um novo e eu ainda estou com o meu antigo’”, diz.

2 – Terminou um namoro ou casamento? Pratique o autoamor

É hora de investir no autoamor. “Uma das principais causas do sofrimento causado pelo término de relacionamentos amorosos é depositar a própria autoestima e autoconfiança na responsabilidade de terceiros. Uma boa estratégia para começar a se amar mais é dedicar tempo para si. Pratique hobbies e atividades que conecte a novos ares e também ao que você gosta de fazer, assistir um filme no cinema, praticar aula de culinária, dança, artes marciais, ou algo com o qual se identifique”, ensina Souza.

3 – Se perder alguém querido, entenda as fases do luto

Negação, raiva, barganha, tristeza e compreensão. Depois de viver essas fases, normais a quem perde alguém, é hora da racionalizar. “Coloque um tempo limite para o luto, uma semana, três dias, de acordo com o seu envolvimento com esse ente querido. Mas também estipule um tempo para voltar ao seu eixo”, ensina Romanni.

“Coloque um limite para voltar a fazer o que você fazia enquanto aquela pessoa existia, até porque uma forma de honrar a si mesmo e ao outro que se foi é viver uma vida plena”, conclui o especialista.

4 – Dores em doses? Pode ser uma saída

“Quando se é adolescente e criança, é importante ter pequenas dores, sofrimentos e frustrações. A geração que veio antes de nós foi criada com mais rigidez e controle. Os filhos foram mais reprimidos. E eles projetaram na geração seguinte que poderiam fazer o que quisessem, que poderiam ter tudo”, explica Fábio Aurélio Leite.

“Isso não funcionou. Quem tem uma criação com mais equilíbrio e responsabilidade é menos prematuro e imaturo. É preciso haver esse rito de passagem, para que não encontremos adolescentes de 40 anos, como temos hoje”, critica o psiquiatra. Para não criar – ou virar – um adulto mimado, entenda que perder coisas faz parte do ciclo da vida. Compreender sem achar que o mundo conspira contra você já é um primeiro passo.

5 – A carência bateu? Aprenda este exercício

Souza ensina um exercício simples e que pode ser feito em qualquer lugar, a qualquer hora.

“Comece a tocar com a ponta de seus dedos em seu peito ao mesmo tempo em que respira profundamente utilizando o nariz. Em seguida, fale sobre o que está acontecendo em sua vida e como você está se sentindo. Ponha para fora em palavras as situações que incomodam você ao mesmo tempo em que toca o seu peito e intercala com as respirações”, diz.

Depois, ele continua, finalize repetindo as frases abaixo:

Eu me aceito profundamente;
Eu me amo;
Eu me perdoo;
Eu me liberto;
Eu compreendo e me amo profundamente.

6 – Seja a pessoa que te contém

O fato é que amadurecer dói, e envolve passar por situações complicadas. “Se quer realmente crescer, aprenda a dizer não para os outros e, principalmente, para você mesmo. Seja a pessoa que te contém. Crie, em você, um adulto que toma conta da sua criança, sem a tutela do pai e da mãe”, diz Fábio Leite.

“Adulto chora, sofre, perde. Precisamos desse movimento de responsabilização própria. Se meu filho errou, tenho que ensiná-lo a pedir desculpa. Não ficar nessa de ‘ele nunca erra, sempre tem razão’. Somos responsáveis pela próxima geração”, avalia.

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