Autocuidado: o que significa e como aplicar na rotina?

Autocuidado envolve diferentes áreas e é benéfico. Pressão por inseri-lo na rotina, entretanto, pode ser gatilho para problemas emocionais

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atualizado 16/08/2019 20:43

Recentemente, poucas palavras ecoaram com tanta força nas redes sociais como autocuidado. Olhar para si e fazer atividades prazerosas é a máxima desse conjunto de hábitos aparentemente saudáveis, uma febre no feed e Stories do Instagram. O perigo é a pressão gerada pelo compartilhamento de uma rotina que, defendem especialistas, é extremamente pessoal. O resultado pode ser o oposto, quando o self-care alheio vira gatilho de ansiedade e até depressão.

Poses mirabolantes de yoga. Sessões diárias de meditação. Rotinas intermináveis de skincare, seguidas por longas corridas em bosques verdes. Por fim, uma boa leitura e chá – de preferência que tenha algum benefício à saúde. Soa paradoxal, mas relaxar nunca foi algo tão difícil.

Postagens com a hashtag #selfcare já chegam próximas aos 19 milhões no Insta. Não se iluda.

As redes podem ser tóxicas, mesmo quando as postagens em questão esbarram na onda do “good vibes only”. Segundo a psicóloga Érika Maracaba, o autocuidado foi incorporado ao discurso comum, de maneira genérica, como “o conjunto de práticas nos fazem bem”. Embora soe positivo, o excesso de preocupação com o tema pode gerar sérios problemas emocionais.

“Vira quase que um discurso persecutório. Muitas pessoas acabam entrando em uma paranoia de autocuidado mais rígido, que em nada tem a ver com as próprias necessidades”. “Se torna meio impositivo. Você esbarra no Instagram com uma pessoa meditando na praia, seis da manhã, fazendo exercícios. Eu tenho três filhos e, se puder descansar, vou dormir. Não quero correr na praia. Há quem não tenha possibilidade de repetir a rotina da ‘influencer’, e isso gera culpa”, avalia Érika.

A primeira dica da profissional é fugir de práticas padronizadas se elas não fazem sentido para você. A pergunta inicial é: quais as minhas reais necessidades? Uma vez estabelecida essa conexão, pode-se começar a definir uma rotina própria.

“Reconheça o que seu corpo está precisando, de algo que diminui sua frequência cardíaca a ou extravasar em uma exercício de alta intensidade”, conta. “A pessoa que tem problema de ansiedade, por exemplo, pode se ‘autocuidar’ diminuindo o café, ou fazendo uma transição para uma área profissional que seja menos competitiva. Há várias práticas, no campo preventivo, que poderiam cooperar para que as pessoas não precisassem de terapia”, diz.

“Por exemplo, se você se conecta consigo com meditação, ok. Mas se seu autocuidado está em práticas espirituais, também vale”, pondera a psicóloga.

“A vida é feita de escolhas, opte em priorizar tempo para si, pois assim fica mais fácil ter momentos de felicidade e aumentar o seu bem-estar”, acrescenta o psicólogo Michael Zanchet.

Para a terapeuta transpessoal Adriana Capibaribe, reservar 10 minutos do dia, de preferência ao acordar, já é suficiente para alcançar uma vida mais consciente. “Autocuidado requer, acima de tudo, um pequeno planejamento. O ser humano é levado muito pelo prazer. Ele acaba esquecendo que pensar um pouco sobre a rotina diária facilite o dia seguinte”, acredita. “O item número 1 é a meditação. Ao meditar, você se conecta consigo, cria mais paciência, tem discernimento perante as dificuldades do dia a dia. Meia hora de meditação relaxa tanto quando quatro horas de sono bem dormidas”, conta.

Mais que se dar mimos diários, é sobre encarar as próprias responsabilidades – e isso inclui cuidados médicos, planilhas financeiras, e pensar em ações a longo prazo. Não confunda, entretanto, com a busca pelo “corpo perfeito”.

Esse é outro mito associado ao autocuidado. “A estética está cada vez mais em alta, e muita gente pode ser demandada, de um jeito excessivo, pela parte física. E não se trata de perfeição ou de formas esculturais”, critica Adriana.

Sete conselhos de autocuidado para uma vida mais leve:

  • Diminua o café

Sim, aquela xícara inofensiva pode ser prejudicial à sua saúde mental. “O café foi romantizado. Vivemos em uma aceleração social absurda e as pessoas tem muito orgulho em dizer que bebem muito café. Mas é uma bebida que gera muita ansiedade. É uma droga psicoativa estimulante. E a definição de droga é a de substância que altera o sistema nervoso central, e ele não deixa de ser. É preocupante”, alerta a psicóloga Érika Maracaba.

  • Ansiosa, quem?

Tente diminuir o uso da palavra ansiedade. Em vez que dizer que está ansioso com o dia seguinte, que tal falar que está empolgado com ele? “As pessoas já não ficam acanhadas em dizer que estão ansiosas. Quem é produtivo está sofrendo de ansiedade. O que é bem ruim, porque naturaliza esse estilo de vida e é como se menosprezasse o sentimento de quem tem a ansiedade generalizada”, afirma Érika.

  • Inspira, expira…

O autocuidado precisa ser leve. Nada mais simples que apagar as luzes do quarto e sentar em uma cadeira. “Suas obrigações vão passar por sua cabeça. Depois vão embora. Permita-se ficar em silêncio e respeite seu corpo”, orienta Adriana Capibaribe.

  • Cuidado com os perfis de “good vibes

Se atente ao tipo de perfil e página que segue. “Se estamos acompanhando páginas que só nos deixam mal com o que somos, deixe se seguir. Não temos o controle do que está entrando enquanto sensação. Inconscientemente, vemos imagens de pessoas que recebem dinheiro e são patrocinadas, que tem a vida toda voltada para o cuidado físico, e vou eu, com meu emprego de oito horas, querer ter a mesma performance?”, pondera Maracaba.

  • Sinta todas as emoções

O perigo de perfis de autoajuda são frases como “apenas boas energias”. Na verdade, todos os sentimentos fazem parte do cotidiano e é normal que alguns dias sejam mais melancólicos que outros.

“Um grande problema contemporâneo é a dificuldade que as pessoas têm de tolerar as frustrações e emoções negativas. Isso faz com que aumente a incidência de pessoas ansiosas, estressadas, deprimidas e comportamentos alimentares impulsivos. As emoções foram feitas para serem vividas e não comidas, bebidas ou fumadas; subterfúgios que potencializam o efeito anestésico das emoções e que podem no futuro se tornar sintomas”, pondera o psicólogo Michael Zanchet.

“Uma tarde triste faz parte da vida, duas semanas triste persistentemente é um sintoma depressivo. Por isso a importância de respeitarmos as emoções, se estiver triste, busque entender o que está lhe deixando assim, caminhe, converse com alguém, preste atenção na respiração, busque a calma, pois dessa forma elaboramos as emoções de maneira positiva e não se cria um novo problema para o corpo”, completa Michael.

  • Tome banho…

Pense em detalhes do dia e insira pequenos momentos de cuidado, como um banho quente e à luz de velas. Não é preciso fugir para um spa. Sinta o cheiro do sabonete e mentalize que está fazendo, também, uma limpeza interna.

  • … e durma

No entanto, não esqueça do mais básicos dos descansos: dormir. “Se vou deixando passar o que eu quero fazer, e o que é melhor para mim, acabo me perdendo nesse caminho e esqueço do principal no relaxamento de uma vida humana, que é o sono”, elucida a terapeuta Adriana Capibaribe. Alguns conselhos para dormir melhor são evitar o uso de celular perto da hora de dormir. “O cérebro fica ativo e procurando respostas para a insônia. Isso vai levando a estresse, e a pessoa vai se afundando cada vez mais”, emenda a profissional.

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