Autodefesa e confiança: jiu-jitsu conquista cada vez mais mulheres

Cada vez mais mulheres estão ocupando o tatame, como curiosas, atletas, professoras e referência no jiu-jitsu

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jiu jitsu
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Por muito tempo visto como um território majoritariamente masculino, o jiu-jitsu vive uma transformação silenciosa — e poderosa. Cada vez mais mulheres têm ocupado os tatames, não apenas como alunas, mas como professoras, atletas e referências para outras dentro do esporte. A modalidade, que une técnica, força e estratégia, vem se consolidando como uma ferramenta de autonomia, disciplina e confiança feminina.

A faixa preta, psicóloga e professora Nika Schwinden revela que encontrou o jiu-jitsu em um momento essencial, aos 29 anos. “Eu não buscava um esporte, mas sim me reencontrar. O ambiente era majoritariamente masculino. Em 2011, era raro compartilhar o tatame com outra mulher.”

imagem colorida da professora de jiu jitsu NiKa Schwinden
Nika Schwinden é psicóloga, professora e faixa preta de jiu-jitsu

Ela acrescenta: “No início, a maior luta não era técnica, era interna: vencer o medo de errar, de ocupar espaço, de não ser suficiente. Com o tempo, o jiu-jitsu deixou de ser apenas uma prática física e passou a ser um processo profundo de autoconhecimento. Cada treino virou uma conversa silenciosa comigo mesma sobre limites, coragem, resistência e, especialmente, permanência.”

Já para a lutadora, empresária e pentacampeã mundial de jiu-jitsu Kyra Gracie, o esporte começou na infância, em um contexto familiar. Ainda assim, revela que começar não foi simples. Durante muito tempo, as mulheres não podiam praticar com frequência nem seguir profissionalmente dentro da própria família Gracie.

“Por muitos anos, fui a única menina em um tatame cheio de homens. Eu não me sentia parte. Precisei aprender a ocupar espaço, a insistir e a permanecer em um ambiente que não estava preparado para me acolher”, explica ao Metrópoles. “Vivi nesse meio a maior parte da minha vida como atleta, me tornei campeã mundial diversas vezes e hoje faço parte do Hall da Fama do Jiu-Jitsu. Mas a grande virada não veio com os títulos. Ela aconteceu depois que parei de competir.”

Kyra Gracie na homenagem de um século de jiu-jitsu no Cristo Redentor

Kyra revela que passou a ver o esporte de outra forma quando mergulhou na defesa pessoal. “Ali, entendi que vencer na vida vai além da competição. Essa vivência transformou a minha história e deu origem ao que hoje levo para outras mulheres por meio do meu livro Viver como uma Campeã e dos meus cursos de defesa pessoal.”

Elas no tatame

Para a psicóloga, a crescente procura de mulheres sob o esporte é porque o jiu-jitsu oferece algo raro: não promete invencibilidade, mas entrega consciência, estratégia e autonomia.

Melhora força, resistência e agilidade, sendo um treino aeróbico e anaeróbico

“Além disso, hoje as mulheres conseguem se enxergar no tatame. Ver outras mulheres treinando, liderando, ensinando, competindo e acolhendo muda tudo. O interesse cresce quando o ambiente deixa de ser apenas técnico e passa a ser humano, seguro e respeitoso”, acrescenta.

Para Kyra, o jiu-jitsu entrega além da estética ou do exercício físico, mas sim, segurança, confiança e capacidade de reagir diante de situações reais.

“Ele ensina a mulher a entender o próprio corpo, a controlar o medo, a respirar sob pressão e a agir com clareza. Em um mundo onde muitas ainda vivem em estado de alerta, o jiu-jitsu deixa de ser apenas um esporte e passa a ser uma ferramenta de autonomia — e, principalmente, de autoconfiança.”

Desafios

Mas, nem tudo é fácil. Para Nika, o primeiro desafio é interno: a sensação de não pertencimento. “Muitas chegam achando que precisam provar algo o tempo todo. Depois vêm os desafios externos: ambientes pouco acolhedores, falta de outras mulheres na turma, comparações injustas, comentários sutis (ou nem tão sutis) que colocam em dúvida sua capacidade.”

Turma 100% feminina de jiu jitsu

“Há também o desafio do corpo entender que força não é só física, que técnica não depende de tamanho, e que o ritmo feminino não é inferior, apenas diferente. Permanecer é, muitas vezes, um ato de resistência emocional”, acrescenta a psicóloga e professora.

Para passar pelos desafios, que as profissionais destacam que são reais, é essencial escolher o lugar certo e acolhedor.  “Um espaço com professoras mulheres, metodologia segura e estrutura pensada para o público feminino ainda é raro. Infelizmente, poucos lugares estão realmente preparados para acolher uma mulher no tatame — e isso precisa mudar.”

Kyra acrescenta:”Faz tanta diferença quando o jiu-jitsu é ensinado com consciência, acolhimento e metodologia. Quando a mulher entende que ela não precisa se masculinizar para ser forte, tudo muda. Ela permanece, evolui e cria vínculo com a prática.”

Impacto na autoestima das mulheres

“O impacto é profundo. O jiu-jitsu muda a postura, o olhar, a forma de falar e de se posicionar no mundo. A mulher passa a confiar mais em si, a reconhecer limites e a impor respeito sem precisar levantar a voz”, salienta a pentacampeã.

Por isso, a profissional destaca que existem diferentes formas de acesso à prática. “Algumas mulheres começam pelo curso online de defesa pessoal, que permite ganhar segurança, consciência e entendimento no próprio ritmo. Outras escolhem a experiência presencial, com aulas estruturadas, onde vivem o jiu-jitsu como defesa pessoal na prática, sentem o corpo, a técnica e a troca.”

Para Nika, o tatame tem o poder de transformar a autoestima e a segurança das mulheres. “No tatame, elas aprendem a confiar nas próprias decisões sob pressão, a errar, ajustar, respirar e continuar e isso se transfere para a vida.”

A psicóloga emenda que a autoestima deixa de depender da aprovação externa e passa a nascer da experiência: “eu sei do que sou capaz”. “O jiu-jitsu ensina limites, presença no corpo, leitura de risco e escolhas conscientes, formando mulheres seguras, que sabem quando agir, quando falar e quando sair.”

O esporte ensina foco, raciocínio estratégico e tomada de decisão rápida

“Já vi alunas se libertarem de relações abusivas, mudarem de trabalhos que as diminuíam e encerrarem ciclos ruins. No tatame, ao se conectarem com outras mulheres, encontram espelhos de coragem e boas escolhas. Juntas, constroem autonomia emocional, psicológica e física e a coragem de serem felizes sem pedir licença. Isso é poderoso demais”, reforça Nika, sobre o poder da luta.

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