Cebraspe é substituído por Iades no concurso para diplomatas

Instituto Rio Branco vai gastar 44% a menos do que no ano passado com a mudança, após 17 anos de tradição

Rafaela Felicciano/MetrópolrdRafaela Felicciano/Metrópolrd

atualizado 30/06/2019 9:55

Chega ao fim uma tradição de 17 anos. O concurso para diplomatas será organizado e terá provas elaboradas pelo Instituto Americano de Desenvolvimento (Iades). O extrato com a dispensa de licitação foi publicado no Diário Oficial da União na última quinta-feira (27/06/2019). A mudança causou surpresa aos concurseiros, que agora precisarão adequar a preparação ao perfil da nova banca.

O contrato a ser assinado nos próximos dias será de R$ 936 mil para o processo de seleção de candidatos para as 20 vagas imediatas de terceiro secretário. O valor é 44% menor do que o fechado ano passado com o Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos (Cebraspe), antigo Cespe, quando o montante de dispensa de licitação foi de R$ 1.698.210,00.

A empresa vinculada à Fundação Universidade de Brasília (UnB) chegou a enviar proposta, mas não foi selecionada. Desde quando o Instituto Rio Branco (IRBr) passou a terceirizar a realização
das provas, em 2002, o concurso de seleção de diplomatas era organizado pelo Cespe/Cebraspe. A constância permitia a padronização do formato. A abordagem das questões avaliativas será a principal alteração para os candidatos.

Estilo de prova

Não há base de comparação entre os requisitos de conhecimento exigidos para os futuros diplomatas e outros cargos. Com o padrão definido por tantos anos, os concurseiros tinham mais  segurança quanto à maneira que eram cobrados os assuntos. Tudo isso se desfez, o plano estratégico de estudo precisará ser refeito.

Uma solução é continuar usando o roteiro de estudo publicado anualmente pelo IRBr com as referências bibliográficas e o tratamento dos principais assuntos. Até o momento, a mudança de pensamento com relação à história brasileira por parte dos integrantes do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), por exemplo, não dá indícios de alterar essa orientação.

Ainda assim, o estilo das provas até então aplicadas pelo Iades indica um norte muito frágil. O que os candidatos podem esperar são provas complexas e bem elaboradas de português e um tratamento mais literal, com um pouco de doutrina e raras jurisprudências em direito. Nas demais disciplinas, próprias da diplomacia, há pouca experiência.

O Iades está sediado em Brasília e tem ganhado espaço em seleções importantes. Foi contratado para os concursos das polícias Civil e Militar do Distrito Federal, Hospital das Forças Armadas, Secretaria de Saúde do DF, Correios, Banco de Brasília, conselhos federais de classe de diversos estados, universidades, entre outros. Em uma década de atuação, foi responsável por mais de 150 processos seletivos com mais de um milhão de candidatos avaliados, segundo informações da própria empresa.

Novas regras

Ao longo dos anos, o número de etapas de seleção foi sendo reduzido para o ingresso na carreira de diplomata. Até 2014, eram cinco etapas, provocando um processo exaustivo. Ano passado foram três: provas objetivas de nove disciplinas, redações de português e de inglês e discursivas com questões de cinco matérias. Com as regras divulgadas há duas semanas, foram retirados os textos dissertativos e incluídas questões dos dois idiomas e, ainda, de espanhol ou de francês, opção a ser feita no momento da inscrição.

O prazo entre a publicação do edital – contendo todos os critérios de avaliação, o cronograma e o conteúdo programático – e as primeiras avaliações encolheu para dois meses, atendendo a urgência de apuração dos aprovados e a agenda de atividades do instituto em 2020. A decisão abre mais uma exceção ao Decreto nº 9.739/2019, que determina o prazo de 120 dias entre as ações.
Para passar pelo severo crivo, o interessado terá que demonstrar conhecimentos em três das quatro línguas, história do Brasil e do mundo, política internacional, economia, direito e direito internacional público.

A concorrência é aberta aos graduados de todas as áreas, entretanto, as mais recorrentes são as de direito e relações exteriores, e, em segundo plano, outras formações de humanas. Com um funil tão específico, os aventureiros pouco se interessam pela carreira. Nos exames anteriores, entre os diplomados ao final do curso de formação estavam, em sua maioria, recém-formados que, ao invés de irem para o mercado de trabalho, se dedicam integralmente à preparação. A faixa etária média é de 30 anos e as mulheres preenchem só cerca de um terço das vagas.

Estatisticamente, menos de 10% dos inscritos passam da primeira fase e mais de 15% sequer comparecem para avaliação. Em 2018, quase 5,3 mil pessoas concorreram às 26 vagas, um quinto delas destinadas a negros e outra fatia de 20% a pessoas com deficiência. O salário inicial dos terceiros secretários – categoria em que se enquadram no início da carreira – é de R$ 18.517,83.

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