Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
São Paulo

Tenente baleado: com morte de suspeito, Rota silencia peça-chave do caso

Apontado como piloto da moto usada no atentado, Nego Zum foi morto pela tropa do oficial. Polícia Civil só foi avisada horas depois

13/07/2026 02:15, atualizado 13/07/2026 06:30
Reprodução/Redes Sociais/PMSP
A esquerda, PM da Rota, a direita rosto translúcido de homem pardo - Metrópoles

Apontado pela polícia como o piloto da moto ocupada pelo homem que atirou na nuca do tenente Ronickson Pimentel dos Santos, no último dia 27 de junho, em São Caetano do Sul (SP), Marcelo de Jesus Dias, o Nego Zum, era considerado peça-chave para o esclarecimento da motivação do crime.

Ele foi morto em suposta troca de tiros, na manhã da última quinta-feira (9/7), por policiais das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), a mesma tropa do Batalhão de Choque da Polícia Militar de Pimentel. O oficial permanece internado em estado grave, porém estável, no Hospital Estadual Mário Covas, em Santo André.

Tenente baleado: com morte de suspeito, Rota silencia peça-chave do caso - destaque galeria
7 imagens
Tenente baleado: com morte de suspeito, Rota silencia peça-chave do caso - imagem 2
Ronickson Pimentel, tenente da Rota baleado na cabeça, e a esposa, Cintia Pimentel
Eloá Pimentel (à esquerda) foi morta em 2008 pelo ex-namorado  Lindemberg Alves. O irmão da jovem, o tenente Ronickson Pimentel (à direita) ingressou na Polícia Militar em 2009, um ano depois do caso que chocou o país.
Tenente baleado: com morte de suspeito, Rota silencia peça-chave do caso - imagem 5
Golias é o principal suspeito de atirar contra tenente da Rota
Golias durante fuga, acompanhando da esposa e duas filhas, além de um homem
1 de 7

Golias durante fuga, acompanhando da esposa e duas filhas, além de um homem

Reprodução/SSP
Tenente baleado: com morte de suspeito, Rota silencia peça-chave do caso - imagem 2
2 de 7

Reprodução/Instagram
Ronickson Pimentel, tenente da Rota baleado na cabeça, e a esposa, Cintia Pimentel
3 de 7

Ronickson Pimentel, tenente da Rota baleado na cabeça, e a esposa, Cintia Pimentel

Reprodução/ Instagram
Eloá Pimentel (à esquerda) foi morta em 2008 pelo ex-namorado  Lindemberg Alves. O irmão da jovem, o tenente Ronickson Pimentel (à direita) ingressou na Polícia Militar em 2009, um ano depois do caso que chocou o país.
4 de 7

Eloá Pimentel (à esquerda) foi morta em 2008 pelo ex-namorado Lindemberg Alves. O irmão da jovem, o tenente Ronickson Pimentel (à direita) ingressou na Polícia Militar em 2009, um ano depois do caso que chocou o país.

Divulgação.
Tenente baleado: com morte de suspeito, Rota silencia peça-chave do caso - imagem 5
5 de 7

Reprodução/SSP
Golias é o principal suspeito de atirar contra tenente da Rota
6 de 7

Golias é o principal suspeito de atirar contra tenente da Rota

Reprodução/SSP
Ronickson Pimentel dos Santos, tenente da Rota baleado. Irmão de Eloá Pimentel
7 de 7

Ronickson Pimentel dos Santos, tenente da Rota baleado. Irmão de Eloá Pimentel

Polícia Militar/Reprodução

Fontes que acompanham o caso afirmaram ao Metrópoles, sob condição de anonimato, que a morte de Nego Zum interfere diretamente no andamento das investigações sobre a motivação do atentado, marcado por características de tentativa de execução.

Outro homem, ainda não identificado, também foi morto pelos PMs dentro da residência em que Nego Zum foi localizado, na favela de Heliópolis, zona sul paulistana.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SP

A versão dos PMs sobre o confronto teria sido registrada pelas câmeras corporais utilizadas por todos os policiais envolvidos. As imagens, no entanto, não foram fornecidas imediatamente à Polícia Civil, responsável por investigar as duas mortes.

Câmeras corporais

No boletim de ocorrência, o delegado Lucas Ventura de Aquino, do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), registrou que o PM responsável pela apresentação do caso foi questionado sobre a possibilidade de exibir as gravações, mas respondeu que “não possuía acesso ao conteúdo gravado”. O policial militar teria alegado que os vídeos teriam de ser requisitados ao Setor de Justiça e Disciplina do 1º Batalhão de Choque.

O próprio delegado destacou que a dinâmica apresentada pela PM é preliminar e depende, entre outros elementos, da “análise dos laudos periciais” e das “imagens captadas pelas câmeras corporais”. Os vídeos foram requisitados à Justiça, por e-mail institucional, ainda durante o plantão.

Tenente baleado

  • Policial das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), Ronickson Pimentel dos Santos foi baleado na nuca enquanto aguardava em um semáforo da Avenida Goiás, em São Caetano do Sul, na manhã de 27 de junho.
  • Imagens de câmeras de segurança mostram o PM de moto na avenida quando dois criminosos em outra motocicleta se aproximam. O garupa aponta a arma para a cabeça do oficial e atira à queima-roupa. Os criminosos fogem em seguida.
  • As autoridades não deram detalhes sobre as possíveis motivações do crime e disseram que nenhuma hipótese foi descartada.
  • Segundo a investigação, o ataque foi premeditado. Outras câmeras de segurança flagraram os suspeitos acompanhando a movimentação do tenente Pimentel pouco antes do crime.
  • O policial é irmão de Eloá Pimentel, jovem assassinada em 2008 após ser mantida em cárcere privado por um ex-namorado, Lindemberg Alves, por mais de 100 horas.

Polícia Civil foi avisada horas depois

O caso, segundo os registros oficiais, ocorreu por volta das 8h26. A PM, porém, só comunicou o tiroteio ao distrito policial às 10h58, cerca de duas horas e meia depois. O DHPP foi avisado às 11h57.

A equipe de homicídios deixou a unidade às 13h e chegou à casa em que ocorreu o confronto às 13h40, mais de cinco horas depois dos disparos. Quando os investigadores chegaram, o imóvel estava preservado por uma equipe da própria Rota.

Receba no seu email as notícias de Metrópoles SP

Frequência de envio: Diário

Ver todas as newsletters

Doze cápsulas

Na suposta “troca de tiros” na casa em Heliópolis, os dois homens já haviam sido retirados da residência e levados ao hospital. A Polícia Civil não encontrou testemunhas presenciais, embora tenha identificado câmeras de estabelecimentos próximos que podem ter registrado a movimentação no local.

Na casa, os peritos encontraram sangue no piso e marcas de tiros nas paredes. De acordo com a versão dos PMs, Nego Zum foi atingido na cozinha, perto da entrada principal. O segundo homem teria sido baleado em um quarto situado no terceiro pavimento.

Os dois apresentavam, em análise preliminar, três ferimentos no tórax cada um. A quantidade exata de tiros e as trajetórias dos projéteis ainda dependem dos exames necroscópicos e balísticos. Ao todo, foram apreendidas 12 cápsulas de munição deflagradas no local. A origem de cada disparo ainda precisará ser definida pela perícia.

Fuzis contra revólver e pistola

O registro policial também expõe a diferença entre o armamento utilizado pelos agentes da Rota e as armas atribuídas aos dois mortos.

Quatro armas da PM foram apreendidas para perícia, sendo dois fuzis calibre 5,56 e duas pistolas Glock calibre .40. A Nego Zum foi atribuído um revólver Taurus calibre 38, com a numeração raspada. Dentro do tambor havia dois cartuchos deflagrados, dois picotados — que teriam falhado — e apenas um intacto, como consta em registro policial. Ao segundo homem foi atribuída uma pistola calibre 9 milímetros, também com a numeração suprimida. O carregador tinha três munições intactas.

Segundo a versão apresentada pela Rota, os agentes faziam diligências para localizar Nego Zum quando viram um homem armado entrando na casa. Os policiais afirmaram que foram recebidos a tiros em dois pontos diferentes do imóvel e que revidaram. Nenhum PM ficou ferido.

Mortes durante as buscas

Além de Nego Zum e do homem ainda não identificado, outros cinco homens foram mortos por policiais da Rota durante buscas relacionadas ao atentado.

Os sete foram apontados, em diferentes momentos, como possíveis envolvidos no ataque. Em pelo menos quatro das ocorrências, os agentes disseram ter recebido denúncias sobre a participação dos mortos no crime. Até agora, porém, as investigações não comprovaram a participação direta da maioria deles.

Um dos mortos foi Elenilson Misael da Silva, o Galego, de 47 anos, baleado pela Rota em Peruíbe, no litoral paulista. Inicialmente, a Polícia Civil afirmou que ele não tinha ligação com o atentado. Posteriormente, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que Galego mantinha contato com Hércules da Costa Siqueira, o Golias, apontado como o provável autor do disparo contra Pimentel. O eventual papel dele no ataque, entretanto, ainda não foi esclarecido.

Até o momento, três suspeitos de dar apoio aos executores foram presos. Um deles, com dependência química, foi filmado abandonando e limpando a motocicleta utilizada no crime. Para isso, ele teria recebido R$ 100.

Principal suspeito segue foragido

O principal suspeito de atirar contra o tenente continua foragido. Golias estaria tentando deixar o país acompanhado da esposa e das filhas menores desde que a Justiça decretou sua prisão temporária, no último dia 3.

A suspeita de fuga ganhou força depois que câmeras de segurança o registraram usando boné e máscara ao lado da mulher, Cláudia Ferreira Ramos, e das crianças, durante um deslocamento por Taubaté, no interior de São Paulo. O grupo seguiria em direção à Baixada Santista, de acordo com a polícia.

O nome dele foi incluído na Difusão Vermelha da Interpol, que permite sua localização e prisão no exterior. O governo paulista também oferece recompensa de R$ 50 mil por informações que levem ao paradeiro do foragido.