Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Saúde

Vídeo: cientista Mayana Zatz quer usar zika vírus para tratar tumores

Pesquisadora da USP estuda o potencial do vírus no tratamento de tumores cerebrais. Testes pré-clínicos apresentaram resultados positivos

17/07/2021 05:00
Compartilhar notícia
Reprodução/ Zoom
Mayana Zatz

Entre 2015 e 2016, o Brasil enfrentou uma das maiores emergências de saúde pública até então registradas com a epidemia do zika vírus. As principais vítimas foram os bebês nascidos com má-formação no crânio e no cérebro após suas mães serem picadas por mosquitos Aedes aegypti contaminados. Mais de 70% dos casos de microcefalia foram notificados apenas na Região Nordeste do país.

Seis anos depois, a geneticista Mayana Zatz, diretora do Centro de Estudos em Genoma Humano da Universidade de São Paulo (USP), conta ao Metrópoles como o vírus passou de inimigo a aliado para salvar vítimas de tumores cerebrais a partir de uma injeção do zika purificado, em baixa concentração.

Em 2016, a cientista foi ao Nordeste para pesquisar por que o vírus da zika causava microcefalia. “A partir daí, nós estamos conseguindo um tratamento inédito para tumores que são 100% letais. A gente espera salvar muitas vidas a partir disso”, contou.

Ao entrevistar mulheres que tiveram bebês com microcefalia, a médica descobriu que a maioria delas não teve nenhum sintoma grave durante a infecção. Algumas relataram apenas um dia de febre e erupção cutânea passageira. A frequência de mulheres infectadas durante a gravidez e que tiveram filhos com microcefalia durante o surto foi de 1% a 3%, segundo a médica.

“Bem diferente do coronavírus, a grande maioria das pessoas infectadas pela zika não teve absolutamente nada. Então ficou muito claro pra mim que o vírus tinha um tropismo (direcionamento) para o cérebro do bebê em formação. Ele não estava interessado na mãe”, explicou, sugerindo que a abordagem é segura para pessoas não gestantes.

Receba no seu email as notícias de Ciência&Saúde

Frequência de envio: Semanal

Ver todas as newsletters
Estudo em laboratório

Na primeira etapa do estudo, em 2018, a equipe de Mayana coletou amostras de sangue de bebês com microcefalia cuja mãe havia sido infectada. Em laboratório, ela conseguiu gerar células neuroprogenitoras que dão origem aos neurônios, presentes nos cérebros em formação.

Tumores cerebrais são ricos em células neuroprogenitoras, por isso surgiu a ideia de testar o vírus neles. O passo seguinte foi infectar essas células com o vírus da zika para entender o mecanismo em ação. “Vimos que havia uma destruição muito grande dessas células quando o vírus entrava nelas”, conta a pesquisadora.

Os testes pré-clínicos com animais foram ainda mais animadores. Depois de injetar os tumores e o vírus em camundongos, os cientistas observaram uma redução significativa dos tumores e, em um terço dos animais, as metástases também sumiram completamente.

O passo seguinte foi fazer testes em cães, porque eles desenvolvem a doença de forma muito semelhante aos humanos. O estudo contou com três animais doentes que, anteriormente, seriam submetidos à eutanásia, mas seus tutores concordaram em colaborar com o estudo.

Segundo a médica, após a infecção assistida com o vírus da zika no líquido cefalorraquidiano (pelo pescoço), nenhum dos animais demonstrou qualquer efeito colateral. Houve uma redução muito grande dos tumores, e eles voltaram reconhecer os donos, a correr e a se alimentar com mais qualidade, tendo assim mais tempo de vida.

Tratamento em humanos

O próximo passo da pesquisa é firmar uma parceria com o Instituto Butantan para garantir a produção do vírus em condições de máxima segurança, sem chance de contaminação com outros vírus e fungos. Em seguida, a professora espera conseguir a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar os testes clínicos com voluntários humanos.

Para esses pacientes, a pesquisadora acredita que a melhor abordagem seja injetar o vírus no local do tumor durante a cirurgia de remoção. Isso porque algumas células tumorais acabam ficando para trás durante o procedimento, permitindo que o tumor cresça novamente. Com a estratégia, Mayana espera que isso não ocorra e os pacientes sejam curados.